sábado, 10 de abril de 2010

O teaser papal

Os instrumentos que hoje o mercado coloca ao dispor das instituições para as ajudar a comunicar melhor deverão ser usados. Mas mal irá a igreja que julga que os mesmos princípios que se aplicam ao Tide ou à Colgate podem ser usados para convencer o seus “clientes” de que o Papa, afinal, é mesmo santo.

Há uns meses li num jornal português um texto de um bispo que defendia que a Igreja deveria acompanhar os tempos modernos, nomeadamente na comunicação com a imprensa. Não me pareceu nada mal. Qualquer instituição que queira ver a sua mensagem bem divulgada, terá que o fazer de uma forma absolutamente profissional. Não me choca nada, por isso, que uma diocese possa recorrer aos serviços de uma agência de comunicação e, porque não, aos de uma agência de publicidade para fazer comunicação institucional, divulgando acções ou mesmo mensagens que a definam.
Contudo, na passada quinta-feira vi algo que me deixou um pouco perplexo e que resulta de uma péssima interpretação do que é uma estratégia de comunicação eficaz.
O Papa Bento XVI visita Portugal num momento muito difícil para o país. do ponto de vista económico e social. Por outro lado, o momento em que o Papa visita Portugal também é de crise para a imagem da Igreja Católica, afectada pela falta de católicos praticantes e por problemas que ela própria criou e que, cada vez mais, deixam o chefe da Igreja numa situação embaraçosa.
Esperava eu, talvez ingenuamente, que os meios usados pelo Estado português e pela própria Igreja neste quadro de visita do Papa a Portugal fossem adequados a estes dois quadros absolutamente incontornáveis. Não é, contudo, o que se está a passar. Em Lisboa, parece que só o palco (altar?) onde Bento XVI irá discursar (rezar?) custará a módica quantia de 200 mil euros. Nem sequer é preciso entrar em comparações mais ou menos demagógicas para perceber que o valor do apetrecho não encaixa numa mensagem de humildade, solidariedade e partilha que se poderia esperar num momento como este.

...comecei a ver espalhados pelo Porto e arredores, grandes “outdoors” e cartazes com um “teaser” que me deixou boquiaberto...

Contudo, o meu espanto maior, aconteceu na passada quinta-feira, dia em que comecei a ver espalhados pelo Porto e arredores, grandes “outdoors” e cartazes com um “teaser” que me deixou boquiaberto. Os “outdoors”, que invadiram esquinas, ruas, auto-estradas e que agora se passeiam também em carrinhas publicitárias por todos os concelhos do Grande Porto têm inscrito apenas isto: “Adivinhe quem vem dar o amén à nova Igreja Matriz do Porto”. Ao lado deste “teaser”, vê-se a imagem de uma luva e parte de uma batina que presumi pertencer ao Papa.
Não sei quanto custará a campanha publicitária que está na rua. Não faço ideia de quanto custará a sequela deste “teaser papal”. Não sei sequer onde é que esta campanha nos levará nem sequer quem a vai ou está a pagar. Mas sei que, do ponto de vista institucional, não faz nenhum sentido dar ao Papa, à Igreja Católica e à inauguração de um templo, o aspecto circense que está nas ruas do Porto neste momento. Além de totalmente inútil – já toda a gente sabe que o Papa vem a Portugal e até já se sabe o preço absurdo do seu “altar” em Lisboa – este “teaser” remete a comunicação da Igreja e a figura do Papa para o domínio da campanha de supermercado ou de um espectáculo rock. E de tal forma é assim, que quase me dá vontade de continuar a acompanhar esta saga publicitária, esperando ardentemente que, nos próximos outdoors seja anunciado um cartão de crédito papal que dê pontos a quem reze avés-marias a Bento XVI ou 0% de juros a quem escreva todos os dias num jornal ou num blog ter a certeza absoluta – e abrenuncio a quem o contrariar – que o “Santo Padre” desconhecia os crimes de pedofilia que impune e sistematicamente, durante décadas, centenas de padres cometeram por esse Mundo fora.
Os instrumentos que hoje o mercado coloca ao dispor das instituições para as ajudar a comunicar melhor deverão ser usados. Mas mal irá a igreja que julga que os mesmos princípios que se aplicam ao Tide ou à Colgate podem ser usados para convencer o seus “clientes” de que o Papa, afinal, é mesmo santo.

6 comentários:

  1. Estou curiosos sobre esse reclame. Mas atenção que provavelmente ele nada terá a ver com a igreja. E de certeza que não tem a ver com o papa pois nesse cartaz vem a data em que o segredo se vai revelar: 15 de Abril! Por isso, deve-se tratar de uma grande campanha de marketing de uma marca que nada terá a ver com a igreja.

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  2. A pressa de querer dizer mal da Igreja associada à ignorância dá nisto: o supra-sumo dos assessores de imprensa conseguiu confundir uma campanha publicitária de uma conhecida marca com a visita do Papa. Para além disso, ainda se sente indignado.
    Talvez deva ter sido o mesmo tipo de confusão que o levou a escrever um livro sobre o tempo em que foi assessor de Valentim Loureiro, mesmo quando era pago e deveria ter mantido sigilo.
    Princípios: Ou se tem ou não se tem. O senhor não tem.

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  3. Boa tarde sernhor Silva (será esse o seu nome?). De facto, se é verdade o que diz, e eu desconhecia, penso que a Igreja deverá tomar uma posição muito clara de condenação da campanha em causa. Eu recorreria aos tribunais por abuso de imagem. Se assim é, pelo menos a mim, confundiu-me. O que acho lamentável. Sentir-me-ei indignado com a marca em causa, se assim for. Mas, desculpe, se é verdade o que diz, então a culpa, de certeza, não é minha, mas de quem está a usar de forma absolutamente abusiva, a imagem do Papa e a visita de um chefe de Estado a Portugal. Quanto ao resto dos seus argumentos, roçam o ridículo, pois é o Pedro Silva (é esse o seu nome?) quem comete o erro que procurou apontar-me. Bastaria ler as primeiras linhas desse livro que escrevi para perceber que não revelei nada que não pudesse ou estivesse autorizado. Pelos vistos, eu fui confundido por uma campanha, mas o senhor confundiu-se porque quis sobre o tal livro.

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  4. E está já publicado o outdoor em causa para que se perceba melhor

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  5. Olá boa noite,tb eu estou curiosa de saber qual é a marca q teve esta infeliz ideia. Não q eu seja a favor de "campanhas papais" mas devemos respeitar as crenças de cada um, de quaquer maneira cumpriu os objectivos, não se olha aos meios p se conseguir os fins, vale td, devem estar desesperados...e tb gostaria de saber quem pagou (ou vai pagar)tão ilustre campanha... Cumprimentos

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