Numa conversa de almoço, sobre o tema que dá título a este post, ouvi algumas questões curiosas e pertinentes:
- Hoje vemos humoristas, e não só, a fazerem piadas sobre a Igreja [católica] e o Papa… Porque é que será que não fazem o mesmo em relação a muçulmanos ou islamitas?
- Talvez porque os católicos são mais diplomatas nas reacções do que outros…
- Pois é, fazem piadas, os católicos manifestam um ‘sorriso amarelo’ e pronto. Estou mesmo a ver o que aconteceria se algum humorista se ‘metesse’ com o Islão, por exemplo. E já não digo nada se as piadas forem – não são – em torno da homossexualidade ou homossexuais…
- É, as minorias parecem ter ‘mais peso’, pelo menos ao nível mediático, do que as maiorias.
Citando um spot conhecido: “Valia a pena pensar nisto…”
A maior agência de notícias do mundo. O seu sofá. Jornalismo participativo. Produzido por cidadãos sem formação jornalística, em colaboração com jornalistas profissionais.
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segunda-feira, 26 de abril de 2010
terça-feira, 13 de abril de 2010
O jornalismo sobre religião em Portugal
A independência do jornalista não depende da sua filiação ou preferência. A independência do jornalista depende exclusivamente da sua consciência e da sua competência. Sei que pode parecer estranho para quem nunca escreveu num jornal ou mesmo para muitos que escrevem. Mas é mesmo assim. E essa capacidade nada tem a ver com a ausência de espírito crítico. O jornalista não pode apenas ser um pau de microfone, que matematicamente questiona ambas as partes de uma forma acrítica e fria. E é este difícil equilíbrio que é difícil encontrar. O equilíbrio entre o espírito crítico, humano e rico, e a isenção e distanciamento, independente de convicções pessoais.
Vem isto a propósito da cobertura jornalística que a generalidade dos órgãos de comunicação social está a dar à visita do Papa a Portugal. Mas não seria necessária a visita papal. Há muito que noto, e me incomoda, uma certa tendência que se sente na comunicação social portuguesa. E essa tendência é clara: os assuntos religiosos são quase sempre tratados na comunicação social por católicos mais ou menos engajados ou formados na estrutura da própria Igreja.
Não me atrevo a questionar a legitimidade, independência ou capacidade jornalística de cada um deles individualmente, mas não deixa de ser estranho que assim seja e que ninguém na classe se questione sobre o assunto. Haja uma visita papal, uma inauguração de uma faustosa catedral em Fátima ou uma querela religiosa envolvendo protestantes ou islâmicos em Portugal, e a reportagem é feita, quase invariavelmente por diáconos, ex-padres, seminaristas e, ainda mais frequentemente, por católicos assumidos, cuja convicção religiosa transparece quer na linguagem quer na condução da própria narrativa.
E isto não acontece apenas nos órgãos de comunicação social mais conservadores. É olhar para as televisões privadas portuguesas, para as rádios nacionais ou para jornais com grande tiragem. E é olhar para os comentadores, cronistas, colunistas e “especialistas” que são convidados a falar ou a escrever, sempre que a Igreja Católica tem algo de positivo ou negativo para ser tratado.
Portugal é um país maioritariamente católico, dizem-me. Verdade. Mas também me dizem que há em Portugal seis milhões de benfiquistas e que nos últimos quatro anos vivemos com uma maioria absoluta socialista. Como não entenderia que a esmagadora maioria dos jornalistas, especialistas e comentadores de futebol ou política fossem evidentemente e confessadamente benfiquistas ou socialistas, não entendo porque razão os princípios do jornalismo se alteram quando o assunto é religioso.
Que Portugal tenha entregado, por razões históricas que compreendo, várias frequências nacionais de rádio, sem concurso, a uma confissão religiosa, posso aceitar. Que uma cerimónia católica em Fátima seja transmitida e comentada por um padre, posso concordar. Mas que os princípios do equilíbrio, isenção, distanciamento e espírito crítico sejam afectados, já não individualmente apenas por cada um dos jornalistas, mas desde logo pelos critérios na sua selecção, penso ser absolutamente discriminatório de outras confissões religiosas e, evidentemente, lesivo do próprio jornalismo.
Portugal pode ser um país maioritariamente católico, mas o Estado é laico. Assim como um Governo pode ser maioritariamente socialista e o Estado continuar a ser democrático. Mas, se a imprensa dá mostras de não ter gostado que os princípios democráticos da liberdade de imprensa fossem ou tivesse havido tentativas para os subverter, também deveria questionar-se sobre as razões que a levam a ser tão suavemente crítica sobre si própria quando o assunto é religioso.
Vem isto a propósito da cobertura jornalística que a generalidade dos órgãos de comunicação social está a dar à visita do Papa a Portugal. Mas não seria necessária a visita papal. Há muito que noto, e me incomoda, uma certa tendência que se sente na comunicação social portuguesa. E essa tendência é clara: os assuntos religiosos são quase sempre tratados na comunicação social por católicos mais ou menos engajados ou formados na estrutura da própria Igreja.
Não me atrevo a questionar a legitimidade, independência ou capacidade jornalística de cada um deles individualmente, mas não deixa de ser estranho que assim seja e que ninguém na classe se questione sobre o assunto. Haja uma visita papal, uma inauguração de uma faustosa catedral em Fátima ou uma querela religiosa envolvendo protestantes ou islâmicos em Portugal, e a reportagem é feita, quase invariavelmente por diáconos, ex-padres, seminaristas e, ainda mais frequentemente, por católicos assumidos, cuja convicção religiosa transparece quer na linguagem quer na condução da própria narrativa.
E isto não acontece apenas nos órgãos de comunicação social mais conservadores. É olhar para as televisões privadas portuguesas, para as rádios nacionais ou para jornais com grande tiragem. E é olhar para os comentadores, cronistas, colunistas e “especialistas” que são convidados a falar ou a escrever, sempre que a Igreja Católica tem algo de positivo ou negativo para ser tratado.
Portugal é um país maioritariamente católico, dizem-me. Verdade. Mas também me dizem que há em Portugal seis milhões de benfiquistas e que nos últimos quatro anos vivemos com uma maioria absoluta socialista. Como não entenderia que a esmagadora maioria dos jornalistas, especialistas e comentadores de futebol ou política fossem evidentemente e confessadamente benfiquistas ou socialistas, não entendo porque razão os princípios do jornalismo se alteram quando o assunto é religioso.
Que Portugal tenha entregado, por razões históricas que compreendo, várias frequências nacionais de rádio, sem concurso, a uma confissão religiosa, posso aceitar. Que uma cerimónia católica em Fátima seja transmitida e comentada por um padre, posso concordar. Mas que os princípios do equilíbrio, isenção, distanciamento e espírito crítico sejam afectados, já não individualmente apenas por cada um dos jornalistas, mas desde logo pelos critérios na sua selecção, penso ser absolutamente discriminatório de outras confissões religiosas e, evidentemente, lesivo do próprio jornalismo.
Portugal pode ser um país maioritariamente católico, mas o Estado é laico. Assim como um Governo pode ser maioritariamente socialista e o Estado continuar a ser democrático. Mas, se a imprensa dá mostras de não ter gostado que os princípios democráticos da liberdade de imprensa fossem ou tivesse havido tentativas para os subverter, também deveria questionar-se sobre as razões que a levam a ser tão suavemente crítica sobre si própria quando o assunto é religioso.
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Jornalismo,
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segunda-feira, 5 de abril de 2010
Deus como fonte de inspiração de ditaduras
Uso provocatoriamentre a expressão: oiço religiosamente o "Pessoal e Transmissível da TSF". Sem favor, considero Carlos Vaz Marques o melhor jornalista português a entrevistar, sem desprimor para muitos outros. A 24 de Março, sua entrevista foi a Christopher Hitchens, escritor que afirma: "As religiões são escolas de submissão e a ideia de Deus é a fonte de inspiração de todos os ditadores" . Uma entrevista que vale a pena ouvir, na sequência de um post que escrevi por estes dias.
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