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quinta-feira, 15 de abril de 2010

Pescar e não ter peixe. Afinal o que é isto da rede?

Vamos pensar de forma lógica: a palavra rede remete-nos logo para peixe; peixe lembra-nos o histórico e literário sermão de Santo António aos peixes que, por sua vez, faz concluir que no fundo de tudo, muitas vezes nada mais fazemos na rede que pregar a um cardume desconhecido de seguidores.

A palavra rede é de personalidade dupla, um pouco como muitos dos utilizadores da internet. A rede de pesca nada tem a ver com a rede da wave partilhada pelos milhares de pessoas que usufruem da web 2.0, a internet caracterizada por ser mais dinâmica e social. Estar na dita rede pode parecer fácil: basta aceder à internet, criar uma conta no aplicativo que permita interagir com outros cibernautas, publicar textos e fotos e ver outros conteúdos. E, depois de dois parágrafos metafóricos vou começar por explicar porque me meti pela alegoria crítica dos vícios humanos e redes de peixe, se no fundo quero é falar de redes sociais.

Pois então, redes sociais lembram-nos fios emaranhados, ligações entrelaçadas entre utilizadores de plataformas online e, sem querermos mesmo, volta à lembrança a rede de pesca. Ora bolas, e os peixes? Onde afinal encaixo os peixes neste discurso todo? Que tal encaixá-los nos cerca de 1700 seguidores que tenho actualmente no twitter? E nos 14.830 tweets enviados e trocadores entre mim e a minha comunidade do pássaro azul? Todos estes números fazem parte da minha vida desde há um ano e meio atrás, altura em que passei a ser mais conhecida por @vanessaquiterio do que pelo nome que consta no BI, igual ao nick mas sem a inevitável “arroba”.

Alimentar uma rede tem muito que se lhe diga. É quase como dar de comer a um recém-nascido, que necessita de acompanhamento diário, dedicação e algum carinho. O dar tempo para a criação de relações, tanto profissionais como de simples “fazer amigos” é tarefa árdua, bem como dar conta à irremediável estratégia que se tem de ter para estar e saber estar online.

O actual problema das redes sociais e do que delas advém é mesmo a eterna questão da finalidade. Para além de sermos bombardeados constantemente com as inúmeras “britney sucks” (imagens desfocadas de ‘bots’ que pretendem ser nossos seguidores na plataforma dos 140 caracteres), chegam-nos diariamente os pedidos de amizade de personagens que deixam de dar “notícias” de um momento para o outro ou que não passam do “bom dia”, “boa tarde” e “boa noite” rotineiro. Afinal, tenho uma rede de contactos para criar informação, trocar ideias e partilhar links ou para coscuvilhar à janela, neste caso, de um ecrã de computador? Muitos de nós – utilizadores inevitáveis destas plataformas e da web dinâmica e social – nem nos apercebemos do quão pouco espertos somos ao não aproveitamos o “admirável mundo novo” das redes sociais.

Se deixarmos de lados as “britney sucks” e os “bons dias”, e apostarmos na construção de uma marca nossa, como a venda daquilo que somos ou gostamos, decerto que o tempo que perdemos online pouco ou nada se reflectirá no tempo que estamos offline.

Agora até podia dissertar sobre a imagem do Padre António Vieira e abordar a parte dos vícios humanos, que nos levava à questão dos “amigos” e “desamiganços” (termo traduzido do vocábulo britânico ‘unfriend’ e introduzido, em Novembro deste ano, no New Oxford American Dictionary) tão propícios do poder de um simples click. Mas nem vou entrar por ai. Concluo-o que muito mais que falar de redes e de cardumes racionais e interactivos, as redes sociais são plataformas dinamizadoras de maior conhecimento e bons instrumentos para vendermos, agora sim, o “nosso peixe”.

Vejam bem, se não fosse o pássaro azul e os meus tweets frenéticos sobre jornalismo, jazz e afins, neste momento não seria a Vanessa Quitério que sou hoje (apesar de ser mais a @vanessaquiterio), com trabalho feito e demonstrado através de blogues e plataformas colaborativas, que escreve artigos de opinião para trabalhos académicos de colegas. Pensem nisso, não na questão de mediatismo, mas de serem diferença no meio de tanta igualdade. A rede dá-nos esta oportunidade, pesquem-na!

*Adenda:
Este texto foi inicialmente cedido para um trabalho no âmbito da disciplina de Laboratório de Imprensa I, a uma aluna do 3º ano da Licenciatura em Comunicação Social do Instituto Superior Miguel Torga em Coimbra. Encontra-se neste momento também publicado na plataforma do Comunicamos.org, da UTAD, com a qual colaboro.

domingo, 4 de abril de 2010

Indagações sobre o Jornalismo Cidadão e seus derivados

Lanço-me sempre em indagações quando me vejo forçada a pensar nesta questão do Jornalismo Cidadão, Participativo, Colaborativo ou Open Source.

Como jornalista - ainda só de diploma académico e com a experiência de estágio curricular no Jornal Público e de colaboração durante dois anos no Jornal Universitário de Coimbra A Cabra, questiono-me frequentemente sobre a veiculação dos conteúdos produzidos por jornalistas cidadãos.

Hoje em dia qualquer um de nós tem um blogue, uma conta no twitter ou no Facebook, galeria no Flirck ou em outras plataformas online. Qualquer pessoa envia uma sms aquando de uma situação mais sui generis, mais caótica ou mediática, colocando na sua rede a instantânea realidade em que vivemos. Estamos na Aldeia Global, já assim o referia McLuhan, teórico do Meio e a Mensagem.

Contudo é irremediavelmente difícil dissociar a realidade noticiosa do seu público, a razão de ser de qualquer trabalho jornalístico. Agimos em conformidade com o tecido social e em detrimento do rigor e da verdade da informação. E somos veiculados pelos órgãos de comunicação social que integramos e pelo nome e trabalho que criamos com o rigor devido.

Desta forma, como é que descalçamos esta bota da certificação do Jornalismo Cidadão, Participativo, Colaborativo ou Open Source? Será que podemos só resumir esta acção à participação nos espaços de opinião, na partilha de fotos e escolha a serem abordados?

O dar a conhecer a nossa realidade, o que acontece no nosso bairro ou cidade já é uma acção de cidadania. É já uma partilha de informação se for tida em conta a força crescente das redes sociais e da blogosfera, espaços de intervenção individual mas que só ganham contexto na esfera comunitária.

Esta análise ao Jornalismo Cidadão, Participativo, Colaborativo ou Open Source assenta também em outra questão: a gestão dos conteúdos criados por jornalistas não profissionais. A prática jornalística certificada regula-se por um mecanismo instituído, pela reiteração no cruzamento de fontes e audição do contraditório, valores éticos e edição segundo um código deontológico.

Por isso, a meu ver, estes novos conteúdos criados e partilhados pelos novos actores da prática informativa estão desfasados de consciência profissional. Mesmo sendo face crítica e cooperante da construção da realidade em que vivemos, estão longe da certificação típica de um jornalista como o conhecemos.

Termino com o seguinte exemplo: uma pessoa que se desloque de bicicleta e que não tenha carta de condução, vê a sua mobilidade de forma distorcida, em relação às regras da estrada, apreendidas pela pessoa que tenha habilitação de condução. Não se apercebe da regra de cedência à direita e, por exemplo, do significado da vasta e diferente sinalização.

Agora coloquem o exemplo na análise ao tema do Jornalista Cidadão versus Jornalista Profissional. Fico à espera das vossas opiniões.