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quinta-feira, 29 de julho de 2010
Alentejo
Palavra mágica que começa no Além e termina no Tejo, o rio da portugalidade. O rio que divide e une Portugal e que à semelhança do Homem Português, fugiu de Espanha à procura do mar.
O Alentejo molda o carácter de um homem. A solidão e a quietude da planície dão-lhe a espiritualidade, a tranquilidade e a paciência do monge; as amplitudes térmicas e a agressividade da charneca dão-lhe a resistência física, a rusticidade, a coragem e o temperamento do guerreiro. Não é alentejano quem quer. Ser alentejano não é um dote, é um dom. Não se nasce alentejano, é-se alentejano.
Portugal nasceu no Norte mas foi no Alentejo que se fez Homem. Guimarães é o berço da Nacionalidade, Évora é o berço do Império Português. Não foi por acaso que D. João II se teve de refugiar em Évora para descobrir a Índia. No meio das montanhas e das serras um homem tem as vistas curtas; só no coração do Alentejo, um homem consegue ver ao longe.
Mas foi preciso Bartolomeu Dias regressar ao reino depois de dobrar o Cabo das Tormentas, sem conseguir chegar à Índia para D. João II perceber que só o costado de um alentejano conseguia suportar com o peso de um empreendimento daquele vulto. Aquilo que para o homem comum fica muito longe, para um alentejano fica já ali. Para um alentejano não há longe, nem distância porque só um alentejano percebe intuitivamente que a vida não é uma corrida de velocidade, mas uma corrida de resistência onde a tartaruga leva sempre a melhor sobre a lebre.
Foi, por esta razão, que D. Manuel decidiu entregar a chefia da armada decisiva a Vasco da Gama. Mais de dois anos no mar… E, quando regressou, ao perguntar-lhe se a Índia era longe, Vasco da Gama respondeu: «Não, é já ali.». O fim do mundo, afinal, ficava ao virar da esquina.
Para um alentejano, o caminho faz-se caminhando e só é longe o sítio onde não se chega sem parar de andar. E Vasco da Gama limitou-se a continuar a andar onde Bartolomeu Dias tinha parado. O problema de Portugal é precisamente este: muitos Bartolomeu Dias e poucos Vasco da Gama. Demasiada gente que não consegue terminar o que começa, que desiste quando a glória está perto e o mais difícil já foi feito. Ou seja, muitos portugueses e poucos alentejanos.
D. Nuno Álvares Pereira, aliás, já tinha percebido isso. Caso contrário, não teria partido tão confiante para Aljubarrota. D. Nuno sabia bem que uma batalha não se decide pela quantidade mas pela qualidade dos combatentes. É certo que o Rei de Castela contava com um poderoso exército composto por espanhóis e portugueses, mas o Mestre de Avis tinha a vantagem de contar com meia-dúzia de alentejanos. Não se estranha, assim, a resposta de D. Nuno aos seus irmãos, quando o tentaram convencer a mudar de campo com o argumento da desproporção numérica: «Vocês são muitos? O que é que isso interessa se os alentejanos estão do nosso lado?»
Mas os alentejanos não servem só as grandes causas, nem servem só para as grandes guerras. Não há como um alentejano para desfrutar plenamente dos mais simples prazeres da vida. Por isso, se diz que Deus fez a mulher para ser a companheira do homem. Mas, depois, teve de fazer os alentejanos para que as mulheres também tivessem algum prazer. Na cama e na mesa, um alentejano nunca tem pressa. Daí a resposta de Eva a Adão quando este, intrigado, lhe perguntou o que é que o alentejano tinha que ele não tinha: «Tem tempo e tu tens pressa.» Quem anda sempre a correr, não chega a lado nenhum. E muito menos ao coração de uma mulher. Andar a correr é um problema que os alentejanos, graças a Deus, não têm. Até porque os alentejanos e o Alentejo foram feitos ao sétimo dia, precisamente o dia que Deus tirou para descansar.
E até nas anedotas, os alentejanos revelam a sua superioridade humana e intelectual. Os brancos contam anedotas dos pretos, os brasileiros dos portugueses, os franceses dos argelinos… só os alentejanos contam e inventam anedotas sobre si próprios. E divertem-se imenso, ao mesmo tempo que servem de espelho a quem as ouve.
Mas para que uma pessoa se ria de si própria não basta ser ridícula porque ridículos todos somos. É necessário ter sentido de humor. Só que isso é um extra só disponível nos seres humanos topo de gama.
Não se confunda, no entanto, sentido de humor com alarvice. O sentido de humor é um dom da inteligência; a alarvice é o tique da gente bronca e mesquinha. Enquanto o alarve se diverte com as desgraças alheias, quem tem sentido de humor ri-se de si próprio. Não há maior honra do que ser objecto de uma boa gargalhada. O sentido de humor humaniza as pessoas, enquanto a alarvice diminui-as. Se Hitler e Estaline se rissem de si próprios, nunca teriam sido as bestas que foram.
E as anedotas alentejanas são autênticas pérolas de humor: curtas, incisivas, inteligentes e desconcertantes, revelando um sentido de observação, um sentido crítico e um poder de síntese notáveis.
Não resisto a contar a minha anedota preferida. Num dia em que chovia muito, o revisor do comboio entrou numa carruagem onde só havia um passageiro. Por sinal, um alentejano que estava todo molhado, em virtude de estar sentado num lugar junto a uma janela aberta. «Ó amigo, por que é que não fecha a janela?», perguntou-lhe o revisor. «Isso queria eu, mas a janela está estragada.», respondeu o alentejano. «Então por que é que não troca de lugar?» «Eu trocar, trocava… mas com quem?»
Como bom alentejano que me prezo de ser, deixei o melhor para o fim. O Alentejo, como todos sabemos, é o único sítio do mundo onde não é castigo uma pessoa ficar a pão e água. Água é aquilo por que qualquer alentejano anseia. E o pão… Mas há melhor iguaria do que o pão alentejano? O pão alentejano come-se com tudo e com nada. É aperitivo, refeição e sobremesa. E é o único pão do mundo que não tem pressa de ser comido. É tão bom no primeiro dia como no dia seguinte ou no fim da semana. Só quem come o pão alentejano está habilitado para entender o mistério da fé. Comê-lo faz-nos subir ao Céu!
É por tudo isto que, sempre que passeio pela charneca numa noite quente de verão ou sinto no rosto o frio cortante das manhãs de Inverno, dou graças a Deus por ser alentejano. Que maior bênção poderia um homem almejar?
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domingo, 30 de maio de 2010
O paradigma do turismo (perdido)
Portugal tem vivido alguns históricos equívocos. Um deles, talvez o mais grave, é que somos um país de turismo. O paradigma de que o nosso “filão” está no turismo – qual jazida de petróleo em franca exploração – fez-nos acreditar em tretas muito pouco consistentes como “temos jeito” para o turismo, “somos hospitaleiros” ou “sabemos receber”. Claro que não sabemos receber. E claro que temos graves problemas para nos tornarmos num país de turismo. Antes de mais, porque não sabemos receber coisa nenhuma. As situações que vivemos em unidades hoteleiras, restaurantes, cafés ou lojas demonstram-no!
Mas há mais. Somos um país muito pouco competitivo do ponto de vista económico. O nosso turismo é francamente caro, quando comparado com o turismo de destinos concorrentes, como praias do Sul de Espanha ou da Croácia, só que estamos mais londe. Viajando pelas principais cidades europeias, vemos e sentimos nas ruas milhares de turistas que, em Portugal, rareiam. E vemos cidades cheias de diverção e actrativos que cá não existem. Poderia continuar a falar de qualificação e dos crimes urbanísticos cometidos no Algarve, que hoje hipotecam boa parte do potencial de turismo de qualidade, capaz de gerar mais-valia, que não chegamos a explorar. Mas nem sequer vou por aí. Fico-me com um exemplo da tristeza que hoje constitui a nossa forma de estar perante a coisa turística. Em Vila Nova de Gaia, Câmara Municipal, o Governo e até a União Europeia têm investido bastante (e bem) na qualificação das praias e da margem do Douro. Mas vejam. Onde ainda há poucos anos foi construído um grande equipamento designado “Cais de Gaia” – um espécie de “docas” à moda do Norte, para quem não conhece – a vista das explanadas, dos restaurantes e do passeio pedonal tem o resultado que as fotos mostram. Em lugar de vermos a paisagem única que constitui a Ribeira do Porto, as pontes, a Foz do Douro e a luz que dele emana, esbarramos com dois muros: um muro constituído por autocarros, outro muro constituído por barcos. Autocarros e barcos vazios, num sábado à tarde de Primavera. Como vazias estavam as esplanadas. Pudera!
Mas há mais. Somos um país muito pouco competitivo do ponto de vista económico. O nosso turismo é francamente caro, quando comparado com o turismo de destinos concorrentes, como praias do Sul de Espanha ou da Croácia, só que estamos mais londe. Viajando pelas principais cidades europeias, vemos e sentimos nas ruas milhares de turistas que, em Portugal, rareiam. E vemos cidades cheias de diverção e actrativos que cá não existem. Poderia continuar a falar de qualificação e dos crimes urbanísticos cometidos no Algarve, que hoje hipotecam boa parte do potencial de turismo de qualidade, capaz de gerar mais-valia, que não chegamos a explorar. Mas nem sequer vou por aí. Fico-me com um exemplo da tristeza que hoje constitui a nossa forma de estar perante a coisa turística. Em Vila Nova de Gaia, Câmara Municipal, o Governo e até a União Europeia têm investido bastante (e bem) na qualificação das praias e da margem do Douro. Mas vejam. Onde ainda há poucos anos foi construído um grande equipamento designado “Cais de Gaia” – um espécie de “docas” à moda do Norte, para quem não conhece – a vista das explanadas, dos restaurantes e do passeio pedonal tem o resultado que as fotos mostram. Em lugar de vermos a paisagem única que constitui a Ribeira do Porto, as pontes, a Foz do Douro e a luz que dele emana, esbarramos com dois muros: um muro constituído por autocarros, outro muro constituído por barcos. Autocarros e barcos vazios, num sábado à tarde de Primavera. Como vazias estavam as esplanadas. Pudera!
... e do outro lado está a paisagem!
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