Consta que o Fernando Seara já pediu ao Rui Rio que lhe empreste estes outdoors da campanha autárquica de 2009. Basta mudar a carinha do candidato e trocar Porto por Lisboa.
A maior agência de notícias do mundo. O seu sofá. Jornalismo participativo. Produzido por cidadãos sem formação jornalística, em colaboração com jornalistas profissionais.
terça-feira, 29 de janeiro de 2013
O meu otimismo e a minha esperança
Sou otimista por natureza. Talvez por isso me tenha
aventurado em 2009 a criar uma empresa. Talvez por isso ela ainda exista, pague
os seus impostos e tenha crescido todos os anos. E talvez por isso seja mais
feliz do que a maioria das pessoas que vejo lamentarem-se todos os dias. Por
causa disso, às vezes, achem que tendo a falar e a escrever sobre esperança
vezes de mais. De facto, acredito que o processo que Portugal está a
atravessar, embora doloroso, nos há-de levar a qualquer lado.
Talvez por ser otimista tinha a esperança, há dois anos, de
que Sócrates caísse e nos víssemos livres da sua absoluta irresponsabilidade.
Não esperava um Governo perfeito, mas simplesmente alguém que, com o mínimo de
responsabilidade, voltasse a apontar o país para um caminho…. qualquer. Um que
não fosse o abismo.
Nessa altura tive esperança que o PS também pudesse
contribuir – já não digo com qualquer coisa positiva – mas pelo menos com
responsabilidade. Contudo, o que temos visto da parte do PS de Seguro é uma
lamentável deriva política à procura de encontrar uma razão qualquer que nunca
teve.
Hoje parece evidente que António Costa será o próximo
Secretário-Geral do PS. Não me iludo sobre a sua costela socrateira e sobre os
pecados que muitos já esqueceram (mas eu não) que terá cometido quando era
ministro.
Mesmo assim, tenho esperança e sou otimista. António Costa
parece-me ser um homem inteligente e politicamente sábio. Saberá, por isso,
fazer muito melhor do que António José Seguro, não tenho dúvidas. Mas, mesmo
que isso represente uma maior ameaça ao PSD com que politicamente e
ideologicamente me identifico mais, não deixo de ver a ascensão de António
Costa com esperança e otimismo. Em primeiro lugar porque António Costa, sendo
mais inteligente, saberá gerir com mais responsabilidade o momento político do
País. Penso, por isso, que perceberá que o melhor para o País, para o PS e para
si (se é que quer um dia ser Primeiro-Ministro) é que esta coisa da ajuda
externa termine com sucesso. Mas é a minha esperança…
domingo, 27 de janeiro de 2013
Prefiro morrer sozinho a receber as condolências de um político
Há uns anos, um jornal nacional fez uma história ao jeito “olha
como ele é populista” sobre um autarca que mandava condolências às famílias de
todos os munícipes falecidos. Hoje, após um lamentável acidente que vitimou 11
pessoas, o Presidente da República enviou oficialmente condolências às famílias
das vítimas e ninguém estranha.
Na prática, é a mesma coisa e nem vale a pena virem-me com a
ideia de que morrerem 11 pessoas é uma tragédia e morrer só uma não é, porque a
morte de alguém próximo é sempre uma tragédia e as tragédias são sempre
incomensuráveis, pelo menos para os seus familiares. E era a eles que se
dirigiam as condolências.
Além do mais, as condolências do Presidente da República
levam-me a outra questão: quantas pessoas deverão morrer num mesmo acidente
para que os familiares de cada uma delas tenham o direito a receber as
condolências presidenciais? É que já tenho sabido de acidentes onde morrem
cinco, quatro, seis e não me consta que haja condolências de Belém.
Se o autarca alvo da chacota no jornal, a que me referi no início
deste texto, é populista, então o mínimo que se pode dizer do Presidente da
República é que é um populista pouco equitativo e que, em coerência, deveria
enviar-se a si próprio para o Tribunal Constitucional a fim de averiguar a
constitucionalidade sucessiva dos seus pêsames. Uma coisa sei: o autarca
criticado pelo jornal passava nesse acórdão.
Mas a questão das condolências às famílias das vítimas da
Sertã tem ainda um episódio mais estranho. José António Seguro, secretário-geral
do PS, também enviou condolências, podendo-lhe ser aplicadas as mesmas questões
de iniquidade constitucional que se colocam ao Presidente da República, mas neste
caso Seguro apenas o fez “às famílias dos portugueses mortos”.
Que conste todos os acidentados eram portugueses. Ou melhor,
por ausência de informação das suas nacionalidades presume-se que fossem.
Porquê, então, Seguro especificar “portugueses”? E se, entre os mortos, um
fosse tailandês ou, por exemplo, brasileiro? Ficaria de fora das condolências
socialistas? E se fossem todos estrangeiros? E se os estrangeiros fossem
turistas ingleses ou emigrantes quenianos, haveria diferença?
O Partido Socialista português só lamenta mortes nacionais,
mesmo que ocorram num acidente na Sertã? E se Seguro soubesse que entre as
vítimas estariam 10 portugueses e um espanhol, descriminaria? E se fossem de 11
nacionalidades diferentes? Nomearia cada uma das nacionalidades, daria condolências
às famílias de apenas o português presente ou, não estando cumprida a cota
mínima de mortos portugueses que os políticos importantes e não autarcas
populistas consideram, não daria a ninguém?
sábado, 26 de janeiro de 2013
Privilégios, manifestantes e porcos
Esta tarde uma camioneta carregada de porcos que se dirigia
para Norte despistou-se na A1, junto a Alverca, interrompendo o trânsito nos
dois sentidos. Segundo um repórter da TSF, que foi apanhado no trânsito,
ninguém mais passou, tendo a GNR cortado a circulação para recolher os animais
e retirar o veículo destruído. Ninguém… exceto um autocarro com manifestantes,
que se dirigia para Lisboa. Segundo o João Paulo Baltazar relatou no local,
depois de se terem identificado com os cartazes do protesto, a polícia permitiu
que passassem, a fim de chegarem a tempo à manifestação.
Resta-me esperar que os leitões em fuga tenham sido
capturados com jeitinho e cheguem à bairrada ainda a tempo de servir o jantar
aos manifestantes no seu regresso ao Norte. Porque comer um bom leitão na
Mealhada é direito adquirido que neste país não deve ser negado a ninguém.
Mesmo aqueles que, com toda a legitimidade, reclamam contra a “miséria”.
Defendo, sem reservas, o direito à manifestação. Mas, numa
altura em que centenas de milhares de portugueses se veem com grande frequência
impedidos de trabalhar e centenas de empresas impedidas de exportar em nome de
direitos como os da manifestação ou da greve, não estaremos a dar aos manifestantes
direitos a mais do que os que já têm e tantas vezes se sobrepõem aos de outros?
Deixando-os passar para a “manif”, porque vão para a “manif”, e deixando na
fila quem vai trabalhar ou simplesmente passar um justo fim-de-semana à aldeia
com a família, não estaremos a – como é? – violar aquela coisa da “equidade” que
se reclama… olha, nas manifestações e nas greves?
Sempre ouvi dizer que os meus direitos terminam onde começam
os dos outros. E concordo, por mais que isso, muitas vezes, seja difícil de aplicar.
Mas numa altura em que os direitos – mesmo os adquiridos – de quem trabalha e
quer trabalhar são constantemente postos em causa e numa altura em que os
privilégios, de quem ainda os tem, são – e muitas vezes bem – questionados, não
me será legítimo perguntar à GNR que lei e critério aplicou naquela situação?
Não estaremos, um dia destes, a viver num Estado onde os direitos de alguns
poderão começar a ser confundidos com a apologia de uma certa anarquia?
sexta-feira, 25 de janeiro de 2013
"Agora é a nossa vez"
Na última campanha autárquica conheci um triste candidato socialista que espalhou pelo município onde era concorria oposição o seguinte slogan: “Agora é a nossa vez!”. O candidato, que até era assessor de José Sócrates, e ainda há dias voltou a ser notícia pelos maus motivos, chegou a mandar cantar uma música ao Toy, que ecoou durante semanas pelas ruas do município, com o refrão “agora é a nossa vez! PS!”. Nas urnas, o resultado foi de 18% e a vez do PS naquele município teve que ficar para outra altura… ou para nunca.
Este slogan – e mais do que ele, a postura – bem poderia ilustrar a forma como o PS Nacional olha para a governação e olha para os eleitores como autómatos da alternância democrática.
Depois de meses em que António José Seguro foi usado para atirar pedras a Passos Coelho (ou apenas areias, talvez), pensou a máquina socialista que era chegada a altura de substituí-lo. O raciocínio é simples: já usámos o rapaz, o ciclo político do sacrifício e do trabalho sujo do PSD está a chegar ao fim, e há que posicionar alguém para ser o próximo Primeiro-Ministro.
Há duas coisas que escapam, contudo a este PS que dá o poder como destino certo para o seu próximo líder. Uma delas é que o espetáculo triste que a luta fratricida pelo poder interno está a dar é capaz de não ser o mais avisado. Sobretudo num momento em que o partido se deveria estar a posicionar como uma verdadeira alternativa credível e estável. A outra é que, ao fim de quase quatro décadas de democracia – e como se provou nas últimas eleições – o povo começa a não acreditar em cantigas, muito menos das que são cantadas por cantores “Pimba”.
É bom, pois, que bases, dirigentes, autarcas e “históricos” do PS acordem e tenham consciência que, depois de Sócrates e do período duríssimo pelo qual o País está a passar, vai ser preciso mais do que ser a única alternativa e esperar pela alternância. Desta vez, mais do que nunca, o PS vai ter que apresentar propostas concretas e realistas aos portugueses, sob pena de se ficar, como no tal município, pela propaganda, fora do poder. E, por este andar, é o mais certo que terá.
quarta-feira, 23 de janeiro de 2013
Ignorantes ou mentirosos?
Há meio ano, um pacote de políticos liderados (imagine-se) por António José Seguro, e um conjunto alargado de comentadores, liderados (imagine-se) por Pedro Marques Lopes, garantiam que Portugal não iria cumprir o défice orçamental e que também não regressaria aos mercados em Setembro de 2013, como previsto. Concluíam, em couro, que os sacrifícios dos portugueses tinham sido em vão, portanto. Hoje, que Portugal anuncia o cumprimento do défice e, oito meses mais cedo, regressa aos mercados, poderão continuar a defender os seus interesses pessoais e casuísticos, que implicam o fracasso de Portugal, o que não mais poderão dizer é que os nossos sacrifícios foram em vão. No mínimo, e se fossem sérios, deveriam hoje pedir desculpa a Vítor Gaspar, por todas as vezes que lhe chamaram mentiroso e, sobretudo, pedirem desculpa aos portugueses por tanto terem procurado que "a luz ao fundo do túnel" fosse sucessivamente apagada. Este vídeo é apenas um exemplo das milhares de declarações proferidas por toda essa gente que hoje teremos que classificar ou como ignorante ou como mentirosa.
segunda-feira, 21 de janeiro de 2013
Chamam-me liberal, por favor... ou o horror socialista pelos bem informados
Quando se levantou na União Europeia a discussão sobre a liberdade de escolha dos cidadãos europeus em relação ao país em que querem receber cuidados de saúde, o Partido Socialista declarou votar contra. Segundo o PS português, poder ir receber sem pagar um tratamento ao estrangeiro seria uma “iniquidade”, uma vez que beneficiava os mais ricos, que assim poderiam pagar a viagem.
Ou seja, para o PS se um cidadão da classe média portuguesa tiver dinheiro para pagar um avião ou comboio a Espanha ou a França para receber um tratamento, a postura do Estado português deve ser deixá-lo morrer por cá, apenas porque há alguns que não podem viajar.
Hoje ouvi na TSF a ex-ministra da saúde de Sócrates, Ana Jorge, levantar problemas à liberdade de escolha do doente dentro do próprio país. Segundo a senhora que por acaso é médica e ficou famosa pelas alarmistas conferências de imprensa sobre a gripe A, há demasiados iletrados em Portugal, e esses não sabem escolher bem onde querem ser tratados, “o que provoca um problema de equidade”. Ou seja, segundo esta visão, o melhor é mesmo tratarmos todos como estúpidos e não deixar ninguém escolher.
Esta visão dogmática e quase soviética que o PS tem do Estado Social e do Serviço Público, esbarra em alguns pormenores. É que, entre os letrados de que se alimentam políticos com a Dra. Ana Jorge, há alguns que já leram qualquer coisa sobre o Marxismo-Leninismo e sabem, portanto, como começou e ainda no que se transformou o socialismo dogmático. Para não falar do pormenor do Sistema Nacional de Saúde ter consumido durante os Governos socialistas, em média, mais 10% de recursos ao ano, apesar dos encerramentos de serviços no interior do País que, espantemo-nos, nunca levantou problemas de equidade ao PS.
Chamem-me o que quiserem, mas esta visão de equidade, promovida por uma Constituição quase soviética, assim bem entendida pelos juízes do Tribunal Constitucional e, evidentemente, pelo maior partido da oposição em Portugal, está a matar Portugal. Ou pelo menos parte de Portugal. É que, mesmo entre os iletrados, há alguns que pensam, apesar disso escapar ao entendimento da Dra. Ana Jorge e da elite socialista portuguesa.
quinta-feira, 17 de janeiro de 2013
Bons sinais
É um bom sinal que José António Seguro tenha deitado - mesmo na oposição - as suas promessas ao lixo. Nomeadamente as de que seria uma oposição responsável e as de que os mandatos são para cumprir e não pediria a demissão do Governo antecipadamente. Por um lado, clarifica que o PS que viajou no bolso do ex-Primeiro-Ministro (livra!) para Paris é, afinal, farinha do mesmo saco do PS que por cá ficou. Por outro, é um bom sinal, porque demonstra que Portugal está mesmo a conseguir atingir, pelo menos parte, os seus objetivos, os maiores riscos já passaram e a luz ao fundo do túnel, embora ténue, já começa a chamar o PS para nova "festa".
Mau sinal é o odor da tal farinha, como tem vindo a documentar o 31 da Armada.
quarta-feira, 16 de janeiro de 2013
O homem endividado e o seu amigo de Paris
Um pacato cidadão passou 48 anos a aforrar, investindo mal tanto o dinheiro que poupava como na sua própria carreira. Tinha uns cobres no banco. Mas era pobre e iletrado.
A dada altura fartou-se da vida que tinha e olhou para os vizinhos, prósperos e cultos. Pegou no dinheiro que tinha e desatou a esbanjar, comprando o que precisava e o que não precisava, dando aos amigos e promovendo festas por toda a cidade.
O dinheiro esgotou-se rapidamente, claro. Mas o homem, já viciado no perfume dos charutos, começou a pedir empréstimos para viver no luxo e trabalhar cada vez menos.
Ao fim de 20 anos nesta vida, quando os credores sérios começaram a colocar restrições a novos empréstimos, recorreu a agiotas que um amigo elegante lhe apresentou. Especuladores que lhe emprestavam dinheiro a juros elevados. Assim andou durante quase 10 anos até ao quase desespero.
Aí, o homem acreditou que a solução poderia ser gastar ainda mais, para ver se criava mais amizades à sua volta e para ver se era visto em todo o lado bem vestido e assim gerar mais dinheiro e enganar os agiotas sobre a sua capacidade para pagar.
Um dia, os credores avisaram-no que estava prestes a ser despejado e a ficar com as suas contas bloqueadas. Os agiotas descobriram e ameaçaram-no. Foi então a correr a uma associação que fazia crédito consolidado que lhe emprestou muito dinheiro a juros mais baixos, para pagar as dívidas e se reabilitar. O amigo foi para Paris.
Na associação, disseram-lhe que mesmo assim era difícil, a menos que vendesse os carros que tinha, deixasse de comprar gravatas e charutos e só comesse bife duas vezes por semana. O homem aceitou as condições e agradeceu, mas uns dias depois fartou-se dos sacrifícios que agora lhe pareciam maiores do que tinha pensado. Lá os charutos tudo bem, mas nada de vender os seus carros e comer menos bife, “que injustiça”, diria. “Os meus colegas comem, porque não hei-de comer também?”, Indignava-se, comparando-se com os seus amigos que levaram uma vida regrada.
Nessa altura, o homem tinha duas soluções: ou continuava a pagar como combinou, comendo menos bife e andando a pé ou de transporte público durante alguns anos. Ou então, ia de novo ter com os credores que o ajudaram, chamando-lhes agiotas e recusando-se a pagar. Claro que se optasse pela segunda hipótese, nunca mais a associação que o ajudou ou os credores sérios que primeiro lhe emprestaram, o voltariam a fazer. Ficaria, por isso, por muito tempo, nas mãos dos últimos: os agiotas.
O homem hesitou. Mesmo que os bancos já se mostrassem de novo de acordo em emprestar-lhe com taxas razoáveis. Mesmo com a associação que o salvou lhe desse quase todos os dias os parabéns e com os amigos a apoiá-lo… o homem hesitou. Farto dos sacrifícios. Com saudades da prosperidade do dinheiro fácil.
Foi nessa altura que o amigo de Paris lhe começou a mandar mensagens – o mesmo que o tinha ajudado a gastar o dinheiro amealhado e que depois o apresentou aos agiotas – dizendo haver uma terceira via. Uma solução milagrosa, com charme e perfume.
A solução era fazer umas festinhas de novo aos credores, convencê-los a baixarem um bocadinho os juros e com muito optimismo poderia voltar a gastar à grande e à francesa e assim “crescer” para poder pagar tudo devagarinho.
Não sei o final desta história. Se o homem optou por cumprir com sacrifício os seus compromissos e sair à rua de cabeça erguida ou se preferiu a fuga indigente. O que sei é que a hipótese de ter acreditado de novo no amigo de Paris seria pura ficção científica.
A dada altura fartou-se da vida que tinha e olhou para os vizinhos, prósperos e cultos. Pegou no dinheiro que tinha e desatou a esbanjar, comprando o que precisava e o que não precisava, dando aos amigos e promovendo festas por toda a cidade.
O dinheiro esgotou-se rapidamente, claro. Mas o homem, já viciado no perfume dos charutos, começou a pedir empréstimos para viver no luxo e trabalhar cada vez menos.
Ao fim de 20 anos nesta vida, quando os credores sérios começaram a colocar restrições a novos empréstimos, recorreu a agiotas que um amigo elegante lhe apresentou. Especuladores que lhe emprestavam dinheiro a juros elevados. Assim andou durante quase 10 anos até ao quase desespero.
Aí, o homem acreditou que a solução poderia ser gastar ainda mais, para ver se criava mais amizades à sua volta e para ver se era visto em todo o lado bem vestido e assim gerar mais dinheiro e enganar os agiotas sobre a sua capacidade para pagar.
Um dia, os credores avisaram-no que estava prestes a ser despejado e a ficar com as suas contas bloqueadas. Os agiotas descobriram e ameaçaram-no. Foi então a correr a uma associação que fazia crédito consolidado que lhe emprestou muito dinheiro a juros mais baixos, para pagar as dívidas e se reabilitar. O amigo foi para Paris.
Na associação, disseram-lhe que mesmo assim era difícil, a menos que vendesse os carros que tinha, deixasse de comprar gravatas e charutos e só comesse bife duas vezes por semana. O homem aceitou as condições e agradeceu, mas uns dias depois fartou-se dos sacrifícios que agora lhe pareciam maiores do que tinha pensado. Lá os charutos tudo bem, mas nada de vender os seus carros e comer menos bife, “que injustiça”, diria. “Os meus colegas comem, porque não hei-de comer também?”, Indignava-se, comparando-se com os seus amigos que levaram uma vida regrada.
Nessa altura, o homem tinha duas soluções: ou continuava a pagar como combinou, comendo menos bife e andando a pé ou de transporte público durante alguns anos. Ou então, ia de novo ter com os credores que o ajudaram, chamando-lhes agiotas e recusando-se a pagar. Claro que se optasse pela segunda hipótese, nunca mais a associação que o ajudou ou os credores sérios que primeiro lhe emprestaram, o voltariam a fazer. Ficaria, por isso, por muito tempo, nas mãos dos últimos: os agiotas.
O homem hesitou. Mesmo que os bancos já se mostrassem de novo de acordo em emprestar-lhe com taxas razoáveis. Mesmo com a associação que o salvou lhe desse quase todos os dias os parabéns e com os amigos a apoiá-lo… o homem hesitou. Farto dos sacrifícios. Com saudades da prosperidade do dinheiro fácil.
Foi nessa altura que o amigo de Paris lhe começou a mandar mensagens – o mesmo que o tinha ajudado a gastar o dinheiro amealhado e que depois o apresentou aos agiotas – dizendo haver uma terceira via. Uma solução milagrosa, com charme e perfume.
A solução era fazer umas festinhas de novo aos credores, convencê-los a baixarem um bocadinho os juros e com muito optimismo poderia voltar a gastar à grande e à francesa e assim “crescer” para poder pagar tudo devagarinho.
Não sei o final desta história. Se o homem optou por cumprir com sacrifício os seus compromissos e sair à rua de cabeça erguida ou se preferiu a fuga indigente. O que sei é que a hipótese de ter acreditado de novo no amigo de Paris seria pura ficção científica.
domingo, 13 de janeiro de 2013
Mãe, se a maquilhagem serve para ficares mais bonita, porque não ficas?
Há um mistério em Portugal. As constantes alterações de design, rebrandings e reposicionamentos que as principais marcas operam. Quantos logotipos e tipos de letra já terá tido a Galp? E o BCP? A Optimus? A RTP? A Sonae? E a PT? As principais marcas portuguesas passam a vida em permanentes alterações de marca, redesign, rebranding, para depois voltarem à “imagem antiga”, recuperarem “conceitos”, fundirem serviços na mesma marca que antes tinham desmantelado. Se olharmos a congéneres de marcas com impactos e antiguidades semelhantes estrangeiras e bem geridas, vemos um absoluto contraste, valorizando-se a coerência e a identificação do consumidor com o design, logotipos, cores e conceitos ao longo de décadas. A Shell pode ter alterado o seu logotipo três vezes ao longo de várias décadas, mas fê-lo mantendo a sua concha, as suas cores e não largando os seus princípios. Aquela concha é a Shell. E mesmo que a concha tenha recebido um ou outro restyling, nunca deixou de ser a concha. A BMW apresenta como logotipo uma hélice, o que tem a ver com a sua origem de produtora de motores para avião. Mesmo que o símbolo tenha sofrido pequenas alterações de pormenor, nunca deixou de ser o seu logotipo, apesar de hoje produzir automóveis e não aviões. Poderíamos dar inúmeros exemplos de grandes marcas mundiais, desde o setor das bebidas ao dos relógios, passando por órgãos de informação, marcas de carteiras e terminando nas telecomunicações, onde a Vodafone é exemplo do que digo. Vem isto a propósito da minha surpresa quando um destes dias vi, pela enésima vez em poucos anos, trabalhadores a mudarem totalmente uma grande loja da PT, retirando reclames exteriores, painéis interiores, etc. Na internet, o site da MEO já ostenta um novo logotipo. O papel das faturas, os cartões de milhares de funcionários, a publicidade, os materiais de apoio ao marketing, caixas… tudo vai portanto mudar. Alimentam-se indústrias paralelas, ganha o homem que muda os reclames, ganham as gráficas e as agências de comunicação. Gastam-se milhões nestas operações. Gastam-se como se as vendas, por obra de um novo logotipo, crescessem, quando, a prazo, se passa precisamente o contrário. Está nos livros e é verdade. E são disso prova todas as grandes marcas atrás citadas e as não citadas que todos conhecemos que nunca mudam. Este fenómeno, seguramente muito português, tem contudo outro problema, além do gasto despropositado de dinheiro. Esse problema é as grandes organizações que operam estas mudanças não perceberem que isso mais não serve do que para se distraírem e para distraírem toda uma cadeia daquele que deveria ser o verdadeiro objetivo da empresa: o cliente. É que, operadas todas as alterações, o seu serviço não melhora e o atendimento ao cliente continua na mesma ou talvez um pouco pior, pois o investimento que nele poderia e deveria ser feito gastou-se na maquilhagem.
Futilidades
A Pepa é fútil? Menos do que a comunicação social dita séria que lhe dedica páginas e títulos de capa como se fosse importante.
sábado, 29 de dezembro de 2012
A tendência doentia pela procura da "gaffe"
É incrível a disparidade de tratamento da comunicação social em relação às boas e às más notícias. A gasolina deve descer no início do ano, para níveis de Setembro de 2011. Mas o facto é relatado na 28ª notícia dos noticiários televisivos de forma discreta e em poucos segundos. O défice está a baixar desde o início do ano e a aproximar-se dos "impossíveis 5%", apesar da redução da receita fiscal e apesar da contração do PIB, o que significa uma redução assinalável da despesa pública. Os juros da dívida nunca foram tão baixos desde que Sócrates nos levou à quase bancarrota. O Governo conseguiu vender a ANA por um valor espetacularmente acima do previsto pelo PS em 2011 e manteve a TAP, defendendo o interesse nacional perante as dúvidas que o negócio levantava. 2012 foi um ano horrível para Portugal e 2013 será um ano horrível para Portugal, mas há esperança e algumas boas notícias. Infelizmente, a comunicação social, sindicalistas e partidos políticos aparentemente com responsabilidades tudo fazem para sublinhar as más e mitigar a esperança. É pena que, em vez destes bons sinais, a preocupação dos editores seja apenas sublinhar o que ignorantemente consideram ser uma declaração infeliz de um secretário de estado da saúde, quando apela à prevenção de doenças para melhorar os níveis de saúde e, consequentemente, reduzir a despesa. A constante procura da "infelicidade" e da "gaffe" ou o que consideram ser "gaffe" nas declarações de governantes está a tornar-se doentia. Entretanto, incógnito, há um país que acredita e faz qualquer coisa.
quarta-feira, 26 de dezembro de 2012
Temos bispos à altura dos desafios do País?
D. Manuel Martins veio recentemente dizer numa entrevista que Portugal não tem governantes à altura da situação. Diz ainda que deveria haver uma espécie de “junta” com especialistas, pessoas independentes e credíveis, que avaliassem os políticos antes de tomarem posse e dissessem se estariam ou não capazes para os desafios. O País leu e ouviu e poucos ou nenhuns foram os comentadores que se atreveram a comentar. A verdade é que o que o Bispo de Setúbal disse – com todas as responsabilidades que possui na Igreja Católica Portuguesa e visibilidade mediática que isso lhe confere – foi um dos mais violentos e significativos ataques à democracia portuguesa desde o 25 de Abril de 1974 e até talvez antes disso. Ai do político que o dissesse, mesmo querendo ser irónico como fez Manuela Ferreira Leite. Na verdade, o que o Bispo advoga é que o povo português não sabe escolher e, portanto, deveria ser uma espécie de “Comité Central” da ex-URSS a escolher, substituindo-se ao voto que a democracia consagrou. Claro que na Igreja é assim, como no comunismo. Lá, no Estado do Vaticano onde os Papas são eleitos, não é o povo que sustenta com o seu dinheiro o sistema que dá às cúpulas (elites, se quisermos) palácios revestidos a ouro, quem escolhe. São as elites que, entre si e no recato das suas salas douradas, escolhem o que entendem ser mais adequado e competente. E depois o comunicam por sinais de fumo. D. Manuel Martins pode achar que Passos Coelho não é capaz de ser Primeiro-Ministro nem competente para governar um país em crise. E pode também achar que deveriam ser as elites da Igreja Católica a escolher os nossos governantes. Pode também achar que o vencedor deveria ser anunciado através de uma chaminé. Mas, infelizmente para ele, Portugal não é o estado ditatorial do Vaticano. Em Portugal, D. Manuel Martins terá que se contentar em continuar a ter opinião livre – mesmo que a sua opinião advogue contra a democracia – e, se quiser, a votar. Sendo certo que o seu voto valerá sempre e só tanto como o meu. Quanto à opinião dele, essa valerá para os jornais mais do que a minha. Contudo, mesmo limitada ao Facebook, a minha opinião também é livre e, logo, posso sempre advogar que não temos bispos à altura dos desafios sociais e morais que o País enfrenta.
quarta-feira, 12 de dezembro de 2012
A agenda do Senhor Bastonário da Ordem dos Médicos
A notícia deixou-me, naturalmente, com dúvidas: o avanço tecnológico abre espaço suficiente para que Portugal possa fazer isto sem perda de qualidade de serviço? O Bastonário da Ordem dos Médicos veio comentar na TSF, e comentou assim: "é preciso renegociar a dívida, cortar nos juros e acabar com este acordo com a troika". Não fiquei esclarecido quanto ao importante da notícia, mas fiquei quanto ao verdadeiro interesse do senhor. Mau trabalho, senhor bastonário.
Isto está mesmo cada vez pior?
Talvez graças aos ensinamentos do meu avô, que me contava histórias como a do Pedro e do Lobo em longos passeios numa serra da Beira Baixa, me tenha habituado a escutar os mais velhos com respeito e atenção. Conheci José Hermano Saraiva há cerca de seis anos e nas poucas horas em que tive o privilégio de conversar com ele aprendi o suficiente para olhar certos factos da atualidade de forma diferente. Disse-me a dada altura que nos queixamos permanentemente de que “isto está cada vez pior”. Mas na verdade não está, está cada vez melhor. “Vivo há quase 100 anos e passei por três Repúblicas. Esta é sem dúvida a pior, mas não há dúvida de que a qualidade de vida das pessoas melhora sempre, sem parar”. Claro que há patamares, crises e excepções em todas as regras, mas se pensarmos bem no caminho da História é despropositada esta ideia nova de que o futuro é negro e as novas gerações terão pior vida e menos oportunidades do que a nossa. E, se pensarmos melhor ainda, também não é difícil perceber que sempre que as sociedades se aproximaram de modelos onde o mérito não era recompensado e o retrocesso perdurava - e essas foram quase sempre ditaduras de esquerda, os povos encarregaram-se de acabar com isso. Dei por mim a pensar nisto, depois de ter escrito um destes dias sobre outra eminente personalidade que tive o prazer de ouvir falar e que, no fundo, não dizia coisa muito diferente de José Hermano Saraiva. E faz tanta falta ouvir falar quem sabe...
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