sábado, 26 de janeiro de 2013

Privilégios, manifestantes e porcos

Esta tarde uma camioneta carregada de porcos que se dirigia para Norte despistou-se na A1, junto a Alverca, interrompendo o trânsito nos dois sentidos. Segundo um repórter da TSF, que foi apanhado no trânsito, ninguém mais passou, tendo a GNR cortado a circulação para recolher os animais e retirar o veículo destruído. Ninguém… exceto um autocarro com manifestantes, que se dirigia para Lisboa. Segundo o João Paulo Baltazar relatou no local, depois de se terem identificado com os cartazes do protesto, a polícia permitiu que passassem, a fim de chegarem a tempo à manifestação.

Defendo, sem reservas, o direito à manifestação. Mas, numa altura em que centenas de milhares de portugueses se veem com grande frequência impedidos de trabalhar e centenas de empresas impedidas de exportar em nome de direitos como os da manifestação ou da greve, não estaremos a dar aos manifestantes direitos a mais do que os que já têm e tantas vezes se sobrepõem aos de outros? Deixando-os passar para a “manif”, porque vão para a “manif”, e deixando na fila quem vai trabalhar ou simplesmente passar um justo fim-de-semana à aldeia com a família, não estaremos a – como é? – violar aquela coisa da “equidade” que se reclama… olha, nas manifestações e nas greves?

Sempre ouvi dizer que os meus direitos terminam onde começam os dos outros. E concordo, por mais que isso, muitas vezes, seja difícil de aplicar. Mas numa altura em que os direitos – mesmo os adquiridos – de quem trabalha e quer trabalhar são constantemente postos em causa e numa altura em que os privilégios, de quem ainda os tem, são – e muitas vezes bem – questionados, não me será legítimo perguntar à GNR que lei e critério aplicou naquela situação? Não estaremos, um dia destes, a viver num Estado onde os direitos de alguns poderão começar a ser confundidos com a apologia de uma certa anarquia?

Resta-me esperar que os leitões em fuga tenham sido capturados com jeitinho e cheguem à bairrada ainda a tempo de servir o jantar aos manifestantes no seu regresso ao Norte. Porque comer um bom leitão na Mealhada é direito adquirido que neste país não deve ser negado a ninguém. Mesmo aqueles que, com toda a legitimidade, reclamam contra a “miséria”.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

"Agora é a nossa vez"


Na última campanha autárquica conheci um triste candidato socialista que espalhou pelo município onde era concorria oposição o seguinte slogan: “Agora é a nossa vez!”. O candidato, que até era assessor de José Sócrates, e ainda há dias voltou a ser notícia pelos maus motivos, chegou a mandar cantar uma música ao Toy, que ecoou durante semanas pelas ruas do município, com o refrão “agora é a nossa vez! PS!”. Nas urnas, o resultado foi de 18% e a vez do PS naquele município teve que ficar para outra altura… ou para nunca.

Este slogan – e mais do que ele, a postura – bem poderia ilustrar a forma como o PS Nacional olha para a governação e olha para os eleitores como autómatos da alternância democrática.

Depois de meses em que António José Seguro foi usado para atirar pedras a Passos Coelho (ou apenas areias, talvez), pensou a máquina socialista que era chegada a altura de substituí-lo. O raciocínio é simples: já usámos o rapaz, o ciclo político do sacrifício e do trabalho sujo do PSD está a chegar ao fim, e há que posicionar alguém para ser o próximo Primeiro-Ministro.

Há duas coisas que escapam, contudo a este PS que dá o poder como destino certo para o seu próximo líder. Uma delas é que o espetáculo triste que a luta fratricida pelo poder interno está a dar é capaz de não ser o mais avisado. Sobretudo num momento em que o partido se deveria estar a posicionar como uma verdadeira alternativa credível e estável. A outra é que, ao fim de quase quatro décadas de democracia – e como se provou nas últimas eleições – o povo começa a não acreditar em cantigas, muito menos das que são cantadas por cantores “Pimba”.

É bom, pois, que bases, dirigentes, autarcas e “históricos” do PS acordem e tenham consciência que, depois de Sócrates e do período duríssimo pelo qual o País está a passar, vai ser preciso mais do que ser a única alternativa e esperar pela alternância. Desta vez, mais do que nunca, o PS vai ter que apresentar propostas concretas e realistas aos portugueses, sob pena de se ficar, como no tal município, pela propaganda, fora do poder. E, por este andar, é o mais certo que terá.

 

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Ignorantes ou mentirosos?

Há meio ano, um pacote de políticos liderados (imagine-se) por António José Seguro, e um conjunto alargado de comentadores, liderados (imagine-se) por Pedro Marques Lopes, garantiam que Portugal não iria cumprir o défice orçamental e que também não regressaria aos mercados em Setembro de 2013, como previsto. Concluíam, em couro, que os sacrifícios dos portugueses tinham sido em vão, portanto. Hoje, que Portugal anuncia o cumprimento do défice e, oito meses mais cedo, regressa aos mercados, poderão continuar a defender os seus interesses pessoais e casuísticos, que implicam o fracasso de Portugal, o que não mais poderão dizer é que os nossos sacrifícios foram em vão. No mínimo, e se fossem sérios, deveriam hoje pedir desculpa a Vítor Gaspar, por todas as vezes que lhe chamaram mentiroso e, sobretudo, pedirem desculpa aos portugueses por tanto terem procurado que "a luz ao fundo do túnel" fosse sucessivamente apagada. Este vídeo é apenas um exemplo das milhares de declarações proferidas por toda essa gente que hoje teremos que classificar ou como ignorante ou como mentirosa.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Chamam-me liberal, por favor... ou o horror socialista pelos bem informados

Quando se levantou na União Europeia a discussão sobre a liberdade de escolha dos cidadãos europeus em relação ao país em que querem receber cuidados de saúde, o Partido Socialista declarou votar contra. Segundo o PS português, poder ir receber sem pagar um tratamento ao estrangeiro seria uma “iniquidade”, uma vez que beneficiava os mais ricos, que assim poderiam pagar a viagem.

Ou seja, para o PS se um cidadão da classe média portuguesa tiver dinheiro para pagar um avião ou comboio a Espanha ou a França para receber um tratamento, a postura do Estado português deve ser deixá-lo morrer por cá, apenas porque há alguns que não podem viajar.

Hoje ouvi na TSF a ex-ministra da saúde de Sócrates, Ana Jorge, levantar problemas à liberdade de escolha do doente dentro do próprio país. Segundo a senhora que por acaso é médica e ficou famosa pelas alarmistas conferências de imprensa sobre a gripe A, há demasiados iletrados em Portugal, e esses não sabem escolher bem onde querem ser tratados, “o que provoca um problema de equidade”. Ou seja, segundo esta visão, o melhor é mesmo tratarmos todos como estúpidos e não deixar ninguém escolher.

Esta visão dogmática e quase soviética que o PS tem do Estado Social e do Serviço Público, esbarra em alguns pormenores. É que, entre os letrados de que se alimentam políticos com a Dra. Ana Jorge, há alguns que já leram qualquer coisa sobre o Marxismo-Leninismo e sabem, portanto, como começou e ainda no que se transformou o socialismo dogmático. Para não falar do pormenor do Sistema Nacional de Saúde ter consumido durante os Governos socialistas, em média, mais 10% de recursos ao ano, apesar dos encerramentos de serviços no interior do País que, espantemo-nos, nunca levantou problemas de equidade ao PS.

Chamem-me o que quiserem, mas esta visão de equidade, promovida por uma Constituição quase soviética, assim bem entendida pelos juízes do Tribunal Constitucional e, evidentemente, pelo maior partido da oposição em Portugal, está a matar Portugal. Ou pelo menos parte de Portugal. É que, mesmo entre os iletrados, há alguns que pensam, apesar disso escapar ao entendimento da Dra. Ana Jorge e da elite socialista portuguesa.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Bons sinais

É um bom sinal que José António Seguro tenha deitado - mesmo na oposição - as suas promessas ao lixo. Nomeadamente as de que seria uma oposição responsável e as de que os mandatos são para cumprir e não pediria a demissão do Governo antecipadamente. Por um lado, clarifica que o PS que viajou no bolso do ex-Primeiro-Ministro (livra!) para Paris é, afinal, farinha do mesmo saco do PS que por cá ficou. Por outro, é um bom sinal, porque demonstra que Portugal está mesmo a conseguir atingir, pelo menos parte, os seus objetivos, os maiores riscos já passaram e a luz ao fundo do túnel, embora ténue, já começa a chamar o PS para nova "festa". Mau sinal é o odor da tal farinha, como tem vindo a documentar o 31 da Armada.

 

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

O homem endividado e o seu amigo de Paris

Um pacato cidadão passou 48 anos a aforrar, investindo mal tanto o dinheiro que poupava como na sua própria carreira. Tinha uns cobres no banco. Mas era pobre e iletrado.
A dada altura fartou-se da vida que tinha e olhou para os vizinhos, prósperos e cultos. Pegou no dinheiro que tinha e desatou a esbanjar, comprando o que precisava e o que não precisava, dando aos amigos e promovendo festas por toda a cidade.
O dinheiro esgotou-se rapidamente, claro. Mas o homem, já viciado no perfume dos charutos, começou a pedir empréstimos para viver no luxo e trabalhar cada vez menos.
Ao fim de 20 anos nesta vida, quando os credores sérios começaram a colocar restrições a novos empréstimos, recorreu a agiotas que um amigo elegante lhe apresentou. Especuladores que lhe emprestavam dinheiro a juros elevados. Assim andou durante quase 10 anos até ao quase desespero.
Aí, o homem acreditou que a solução poderia ser gastar ainda mais, para ver se criava mais amizades à sua volta e para ver se era visto em todo o lado bem vestido e assim gerar mais dinheiro e enganar os agiotas sobre a sua capacidade para pagar.
Um dia, os credores avisaram-no que estava prestes a ser despejado e a ficar com as suas contas bloqueadas. Os agiotas descobriram e ameaçaram-no. Foi então a correr a uma associação que fazia crédito consolidado que lhe emprestou muito dinheiro a juros mais baixos, para pagar as dívidas e se reabilitar. O amigo foi para Paris.
Na associação, disseram-lhe que mesmo assim era difícil, a menos que vendesse os carros que tinha, deixasse de comprar gravatas e charutos e só comesse bife duas vezes por semana. O homem aceitou as condições e agradeceu, mas uns dias depois fartou-se dos sacrifícios que agora lhe pareciam maiores do que tinha pensado. Lá os charutos tudo bem, mas nada de vender os seus carros e comer menos bife, “que injustiça”, diria. “Os meus colegas comem, porque não hei-de comer também?”, Indignava-se, comparando-se com os seus amigos que levaram uma vida regrada.
Nessa altura, o homem tinha duas soluções: ou continuava a pagar como combinou, comendo menos bife e andando a pé ou de transporte público durante alguns anos. Ou então, ia de novo ter com os credores que o ajudaram, chamando-lhes agiotas e recusando-se a pagar. Claro que se optasse pela segunda hipótese, nunca mais a associação que o ajudou ou os credores sérios que primeiro lhe emprestaram, o voltariam a fazer. Ficaria, por isso, por muito tempo, nas mãos dos últimos: os agiotas.
O homem hesitou. Mesmo que os bancos já se mostrassem de novo de acordo em emprestar-lhe com taxas razoáveis. Mesmo com a associação que o salvou lhe desse quase todos os dias os parabéns e com os amigos a apoiá-lo… o homem hesitou. Farto dos sacrifícios. Com saudades da prosperidade do dinheiro fácil.
Foi nessa altura que o amigo de Paris lhe começou a mandar mensagens – o mesmo que o tinha ajudado a gastar o dinheiro amealhado e que depois o apresentou aos agiotas – dizendo haver uma terceira via. Uma solução milagrosa, com charme e perfume.
A solução era fazer umas festinhas de novo aos credores, convencê-los a baixarem um bocadinho os juros e com muito optimismo poderia voltar a gastar à grande e à francesa e assim “crescer” para poder pagar tudo devagarinho.
Não sei o final desta história. Se o homem optou por cumprir com sacrifício os seus compromissos e sair à rua de cabeça erguida ou se preferiu a fuga indigente. O que sei é que a hipótese de ter acreditado de novo no amigo de Paris seria pura ficção científica.

 

domingo, 13 de janeiro de 2013

Mãe, se a maquilhagem serve para ficares mais bonita, porque não ficas?

Há um mistério em Portugal. As constantes alterações de design, rebrandings e reposicionamentos que as principais marcas operam. Quantos logotipos e tipos de letra já terá tido a Galp? E o BCP? A Optimus? A RTP? A Sonae? E a PT? As principais marcas portuguesas passam a vida em permanentes alterações de marca, redesign, rebranding, para depois voltarem à “imagem antiga”, recuperarem “conceitos”, fundirem serviços na mesma marca que antes tinham desmantelado. Se olharmos a congéneres de marcas com impactos e antiguidades semelhantes estrangeiras e bem geridas, vemos um absoluto contraste, valorizando-se a coerência e a identificação do consumidor com o design, logotipos, cores e conceitos ao longo de décadas. A Shell pode ter alterado o seu logotipo três vezes ao longo de várias décadas, mas fê-lo mantendo a sua concha, as suas cores e não largando os seus princípios. Aquela concha é a Shell. E mesmo que a concha tenha recebido um ou outro restyling, nunca deixou de ser a concha. A BMW apresenta como logotipo uma hélice, o que tem a ver com a sua origem de produtora de motores para avião. Mesmo que o símbolo tenha sofrido pequenas alterações de pormenor, nunca deixou de ser o seu logotipo, apesar de hoje produzir automóveis e não aviões. Poderíamos dar inúmeros exemplos de grandes marcas mundiais, desde o setor das bebidas ao dos relógios, passando por órgãos de informação, marcas de carteiras e terminando nas telecomunicações, onde a Vodafone é exemplo do que digo. Vem isto a propósito da minha surpresa quando um destes dias vi, pela enésima vez em poucos anos, trabalhadores a mudarem totalmente uma grande loja da PT, retirando reclames exteriores, painéis interiores, etc. Na internet, o site da MEO já ostenta um novo logotipo. O papel das faturas, os cartões de milhares de funcionários, a publicidade, os materiais de apoio ao marketing, caixas… tudo vai portanto mudar. Alimentam-se indústrias paralelas, ganha o homem que muda os reclames, ganham as gráficas e as agências de comunicação. Gastam-se milhões nestas operações. Gastam-se como se as vendas, por obra de um novo logotipo, crescessem, quando, a prazo, se passa precisamente o contrário. Está nos livros e é verdade. E são disso prova todas as grandes marcas atrás citadas e as não citadas que todos conhecemos que nunca mudam. Este fenómeno, seguramente muito português, tem contudo outro problema, além do gasto despropositado de dinheiro. Esse problema é as grandes organizações que operam estas mudanças não perceberem que isso mais não serve do que para se distraírem e para distraírem toda uma cadeia daquele que deveria ser o verdadeiro objetivo da empresa: o cliente. É que, operadas todas as alterações, o seu serviço não melhora e o atendimento ao cliente continua na mesma ou talvez um pouco pior, pois o investimento que nele poderia e deveria ser feito gastou-se na maquilhagem.

Futilidades

A Pepa é fútil? Menos do que a comunicação social dita séria que lhe dedica páginas e títulos de capa como se fosse importante.

sábado, 29 de dezembro de 2012

A tendência doentia pela procura da "gaffe"

É incrível a disparidade de tratamento da comunicação social em relação às boas e às más notícias. A gasolina deve descer no início do ano, para níveis de Setembro de 2011. Mas o facto é relatado na 28ª notícia dos noticiários televisivos de forma discreta e em poucos segundos. O défice está a baixar desde o início do ano e a aproximar-se dos "impossíveis 5%", apesar da redução da receita fiscal e apesar da contração do PIB, o que significa uma redução assinalável da despesa pública. Os juros da dívida nunca foram tão baixos desde que Sócrates nos levou à quase bancarrota. O Governo conseguiu vender a ANA por um valor espetacularmente acima do previsto pelo PS em 2011 e manteve a TAP, defendendo o interesse nacional perante as dúvidas que o negócio levantava. 2012 foi um ano horrível para Portugal e 2013 será um ano horrível para Portugal, mas há esperança e algumas boas notícias. Infelizmente, a comunicação social, sindicalistas e partidos políticos aparentemente com responsabilidades tudo fazem para sublinhar as más e mitigar a esperança. É pena que, em vez destes bons sinais, a preocupação dos editores seja apenas sublinhar o que ignorantemente consideram ser uma declaração infeliz de um secretário de estado da saúde, quando apela à prevenção de doenças para melhorar os níveis de saúde e, consequentemente, reduzir a despesa. A constante procura da "infelicidade" e da "gaffe" ou o que consideram ser "gaffe" nas declarações de governantes está a tornar-se doentia. Entretanto, incógnito, há um país que acredita e faz qualquer coisa.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Temos bispos à altura dos desafios do País?

D. Manuel Martins veio recentemente dizer numa entrevista que Portugal não tem governantes à altura da situação. Diz ainda que deveria haver uma espécie de “junta” com especialistas, pessoas independentes e credíveis, que avaliassem os políticos antes de tomarem posse e dissessem se estariam ou não capazes para os desafios. O País leu e ouviu e poucos ou nenhuns foram os comentadores que se atreveram a comentar. A verdade é que o que o Bispo de Setúbal disse – com todas as responsabilidades que possui na Igreja Católica Portuguesa e visibilidade mediática que isso lhe confere – foi um dos mais violentos e significativos ataques à democracia portuguesa desde o 25 de Abril de 1974 e até talvez antes disso. Ai do político que o dissesse, mesmo querendo ser irónico como fez Manuela Ferreira Leite. Na verdade, o que o Bispo advoga é que o povo português não sabe escolher e, portanto, deveria ser uma espécie de “Comité Central” da ex-URSS a escolher, substituindo-se ao voto que a democracia consagrou. Claro que na Igreja é assim, como no comunismo. Lá, no Estado do Vaticano onde os Papas são eleitos, não é o povo que sustenta com o seu dinheiro o sistema que dá às cúpulas (elites, se quisermos) palácios revestidos a ouro, quem escolhe. São as elites que, entre si e no recato das suas salas douradas, escolhem o que entendem ser mais adequado e competente. E depois o comunicam por sinais de fumo. D. Manuel Martins pode achar que Passos Coelho não é capaz de ser Primeiro-Ministro nem competente para governar um país em crise. E pode também achar que deveriam ser as elites da Igreja Católica a escolher os nossos governantes. Pode também achar que o vencedor deveria ser anunciado através de uma chaminé. Mas, infelizmente para ele, Portugal não é o estado ditatorial do Vaticano. Em Portugal, D. Manuel Martins terá que se contentar em continuar a ter opinião livre – mesmo que a sua opinião advogue contra a democracia – e, se quiser, a votar. Sendo certo que o seu voto valerá sempre e só tanto como o meu. Quanto à opinião dele, essa valerá para os jornais mais do que a minha. Contudo, mesmo limitada ao Facebook, a minha opinião também é livre e, logo, posso sempre advogar que não temos bispos à altura dos desafios sociais e morais que o País enfrenta.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

A agenda do Senhor Bastonário da Ordem dos Médicos

A notícia deixou-me, naturalmente, com dúvidas: o avanço tecnológico abre espaço suficiente para que Portugal possa fazer isto sem perda de qualidade de serviço? O Bastonário da Ordem dos Médicos veio comentar na TSF, e comentou assim: "é preciso renegociar a dívida, cortar nos juros e acabar com este acordo com a troika". Não fiquei esclarecido quanto ao importante da notícia, mas fiquei quanto ao verdadeiro interesse do senhor. Mau trabalho, senhor bastonário.


Isto está mesmo cada vez pior?


Talvez graças aos ensinamentos do meu avô, que me contava histórias como a do Pedro e do Lobo em longos passeios numa serra da Beira Baixa, me tenha habituado a escutar os mais velhos com respeito e atenção. Conheci José Hermano Saraiva há cerca de seis anos e nas poucas horas em que tive o privilégio de conversar com ele aprendi o suficiente para olhar certos factos da atualidade de forma diferente. Disse-me a dada altura que nos queixamos permanentemente de que “isto está cada vez pior”. Mas na verdade não está, está cada vez melhor. “Vivo há quase 100 anos e passei por três Repúblicas. Esta é sem dúvida a pior, mas não há dúvida de que a qualidade de vida das pessoas melhora sempre, sem parar”. Claro que há patamares, crises e excepções em todas as regras, mas se pensarmos bem no caminho da História é despropositada esta ideia nova de que o futuro é negro e as novas gerações terão pior vida e menos oportunidades do que a nossa. E, se pensarmos melhor ainda, também não é difícil perceber que sempre que as sociedades se aproximaram de modelos onde o mérito não era recompensado e o retrocesso perdurava - e essas foram quase sempre ditaduras de esquerda, os povos encarregaram-se de acabar com isso. Dei por mim a pensar nisto, depois de ter escrito um destes dias sobre outra eminente personalidade que tive o prazer de ouvir falar e que, no fundo, não dizia coisa muito diferente de José Hermano Saraiva. E faz tanta falta ouvir falar quem sabe...


sábado, 1 de dezembro de 2012

Eu fico

Nos últimos anos tenho tido o privilégio de participar no “QSP Summit”, um magnífico encontro de pessoas ligadas ao marketing. Este ano, o orador principal foi Hermawan Kartajaya, um indonésio considerado um dos grandes gurus mundiais do marketing e, certamente, o guru do marketing asiático.
A sua intervenção foi marcante por vários motivos e jamais esquecerei como terminou. Mostrando-se informado sobre o programa de ajustamento da economia portuguesa, falou do ajustamento que a própria indonésia atravessou há duas décadas. Muito mais violento que o nosso. Nessa altura, conta Hermawan Kartajaya, a maioria dos seus colegas marketeers saíram do país e emigraram para destinos mais favoráveis, como os Estados Unidos, Japão, Austrália. Ele ficou!
Diz Hermawan Kartajaya: “nunca mais ouvi falar deles, nem nunca os vi nas capas das revistas de marketing mundial”. Antes de se despedir, disse-nos que o processo que estamos a atravessar é necessário e aconselhou: “não vão, fiquem. É aqui que estão as oportunidades. Além disso”, acrescentou, “vocês vivem no melhor sítio do Mundo: a região do globo com melhor nível de vida, com melhor justiça e com mais direitos sociais: a Europa”.
O desafio de Hermawan Kartajaya era um desafio ao empreendedorismo e à capacidade não apenas de resistir – e essa temos bastante – mas também à capacidade de perceber a sorte que – apesar de tudo – temos.
Ir ou partir não é uma questão de destino nem uma fatalidade para as velhas gerações que o fizeram nem para as novas que o estão a fazer. Nem se é melhor por ir ou pior por ficar. Mas ficar, é sem dúvida, a única solução que pode ajudar a mudar Portugal. Nisso, Passos Coelho não tinha razão quando indicou o caminho da saída. A esperança e a mudança sempre estiveram mais perto do que longe e as soluções muito mais dentro de nós do que nos outros.
É por isso que não concordo com muito do que diz Daniel Oliveira neste artigo a começar pelo título. É que a geração que parte não é a melhor. A melhor, é a parte da geração que fica. E é mesmo bom que o seja, pois é ela que, quer queira quer não, vai reconstruir Portugal.

http://www.facebook.com/nunonsantos

 

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

A queda dos soundbites de Seguro


Levar com uma redução de juros e aumento dos prazos de maturidade, à borla, sem contrapartidas e às custas do descontrolo grego só pode ser lido como um pequeno sinal de que, afinal, se calhar, às vezes, os sacrifícios valem a pena e a postura de querer pagar o que se deve, também. Não admiti-lo é, além do mais, admitir que o discurso do "pedir mais tempo" e do "renegociar os juros" nunca passou dos mais demagógicos, oportunistas e anti-patrióticos soundbites de quem simplesmente não tem dimensão de Estado para ser governante.

 

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Mais uma cartolina para o vídeo de Marcelo

SALÁRIOS REAIS DOS FUNCIONÁRIOS PÚBLICOS SUBIRAM EM PORTUGAL ENQUANTO BAIXAVAM NA ALEMANHA

Dizia a telespetadora de um fórum televisivo que não compreendia por que razão sempre que há crises os “maus da fita” são os funcionários públicos. Ora vejamos se assim é: entre 1985 e 1995, ou seja em apenas 10 anos, os salários dos funcionários públicos quase duplicaram. Nesses 10 anos, nove correspondem à governação de Cavaco Silva, que aumentou os funcionários públicos em 90%. Se tivermos em conta os últimos 30 anos, a subida real dos salários da função pública foi de… 150%. Note-se que estamos a falar do período entre 1978 e 2009, ou seja, já em democracia consolidada e com duas intervenções do FMI pelo meio. E, atenção, este cálculo contém a correção monetária, referindo-se a um “aumento real dos salários” e não nominal. Os números são dados oficiais do Banco de Portugal e foram publicados em 2010.
Mais estranho, na década de 2000 a 2010, passada toda ela com níveis de crescimento diminutos em Portugal, ou mesmo com recessão – e certamente com crise – a subida dos vencimentos reais dos funcionários públicos em Portugal foi de 17%. Nesse período, os funcionários públicos alemães (isto podia estar numa das cartolinas de um lamentável vídeo que por aí andou) perderam 8,3% de salário real.
Só em 2009, ano de eleições e em plena crise internacional e profunda crise da dívida que nos levaria à pedida de ajuda externa, José Sócrates subiu os vencimentos dos funcionários públicos nuns surpreendentes 5%.
Este aumento enorme de salários foi decidido apesar das conclusões de um estudo do Banco de Portugal, então liderado então por Victor Constâncio, que demonstrava que os funcionários públicos não apenas ganhavam muito acima dos seus congéneres privados com funções semelhantes, como essa diferenças vinha galopando (de +50% em 1996 para +75% em 2005). Neste estudo não estavam contabilizadas algumas regalias sociais exclusivas dos funcionários públicos.
Para se ter uma ideia de como se caminhava para o abismo, o setor da saúde viu a sua dotação orçamental crescer entre 2000 e 2010 a uma média anual de 10%, atingindo 100% de crescimento de despesa numa década, sendo o fator salarial um dos que mais pesou.
Mas não foram apenas os salários que cresceram. O número de “beneficiários” também tem estado em crescimento ao longo dos últimos 30 anos. Mesmo em crise. Em Maio de 2010, Victor Constâncio (mais uma vez) desmentiu Sócrates quando este afirmou uma redução do número de funcionários públicos. Mesmo em plena crise, o Governo Socialista continuava a aumentar os “jobs” no Estado e a engordar… a “porca”, como alguém lhe chamou. Havia em Portugal 700 mil funcionários públicos diretos.
A senhora que falou ao fórum televisivo tem todo o seu direito à indignação face à perda de salário no último ano. E tem todo o direito em dizer que os funcionários públicos foram finalmente chamados a pagar a mesma crise que os privados andam a pagar há muitos anos. O que não pode dizer é que os funcionários públicos são sempre os penalizados. Não são. Nunca foram. Era interessante que não apenas percebesse isso mesmo, como também percebesse que essa escalada desproporcionada de salários da função pública é obviamente uma das razões fortes que levaram o país ao estado em que está. Seria também conveniente que nos dissesse se, por acaso, foi eleitora de Cavaco Silva e de José Sócrates, como a maioria dos portugueses (e dos funcionários públicos) terão feito por pelo menos duas vezes.