quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Temos bispos à altura dos desafios do País?

D. Manuel Martins veio recentemente dizer numa entrevista que Portugal não tem governantes à altura da situação. Diz ainda que deveria haver uma espécie de “junta” com especialistas, pessoas independentes e credíveis, que avaliassem os políticos antes de tomarem posse e dissessem se estariam ou não capazes para os desafios. O País leu e ouviu e poucos ou nenhuns foram os comentadores que se atreveram a comentar. A verdade é que o que o Bispo de Setúbal disse – com todas as responsabilidades que possui na Igreja Católica Portuguesa e visibilidade mediática que isso lhe confere – foi um dos mais violentos e significativos ataques à democracia portuguesa desde o 25 de Abril de 1974 e até talvez antes disso. Ai do político que o dissesse, mesmo querendo ser irónico como fez Manuela Ferreira Leite. Na verdade, o que o Bispo advoga é que o povo português não sabe escolher e, portanto, deveria ser uma espécie de “Comité Central” da ex-URSS a escolher, substituindo-se ao voto que a democracia consagrou. Claro que na Igreja é assim, como no comunismo. Lá, no Estado do Vaticano onde os Papas são eleitos, não é o povo que sustenta com o seu dinheiro o sistema que dá às cúpulas (elites, se quisermos) palácios revestidos a ouro, quem escolhe. São as elites que, entre si e no recato das suas salas douradas, escolhem o que entendem ser mais adequado e competente. E depois o comunicam por sinais de fumo. D. Manuel Martins pode achar que Passos Coelho não é capaz de ser Primeiro-Ministro nem competente para governar um país em crise. E pode também achar que deveriam ser as elites da Igreja Católica a escolher os nossos governantes. Pode também achar que o vencedor deveria ser anunciado através de uma chaminé. Mas, infelizmente para ele, Portugal não é o estado ditatorial do Vaticano. Em Portugal, D. Manuel Martins terá que se contentar em continuar a ter opinião livre – mesmo que a sua opinião advogue contra a democracia – e, se quiser, a votar. Sendo certo que o seu voto valerá sempre e só tanto como o meu. Quanto à opinião dele, essa valerá para os jornais mais do que a minha. Contudo, mesmo limitada ao Facebook, a minha opinião também é livre e, logo, posso sempre advogar que não temos bispos à altura dos desafios sociais e morais que o País enfrenta.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

A agenda do Senhor Bastonário da Ordem dos Médicos

A notícia deixou-me, naturalmente, com dúvidas: o avanço tecnológico abre espaço suficiente para que Portugal possa fazer isto sem perda de qualidade de serviço? O Bastonário da Ordem dos Médicos veio comentar na TSF, e comentou assim: "é preciso renegociar a dívida, cortar nos juros e acabar com este acordo com a troika". Não fiquei esclarecido quanto ao importante da notícia, mas fiquei quanto ao verdadeiro interesse do senhor. Mau trabalho, senhor bastonário.


Isto está mesmo cada vez pior?


Talvez graças aos ensinamentos do meu avô, que me contava histórias como a do Pedro e do Lobo em longos passeios numa serra da Beira Baixa, me tenha habituado a escutar os mais velhos com respeito e atenção. Conheci José Hermano Saraiva há cerca de seis anos e nas poucas horas em que tive o privilégio de conversar com ele aprendi o suficiente para olhar certos factos da atualidade de forma diferente. Disse-me a dada altura que nos queixamos permanentemente de que “isto está cada vez pior”. Mas na verdade não está, está cada vez melhor. “Vivo há quase 100 anos e passei por três Repúblicas. Esta é sem dúvida a pior, mas não há dúvida de que a qualidade de vida das pessoas melhora sempre, sem parar”. Claro que há patamares, crises e excepções em todas as regras, mas se pensarmos bem no caminho da História é despropositada esta ideia nova de que o futuro é negro e as novas gerações terão pior vida e menos oportunidades do que a nossa. E, se pensarmos melhor ainda, também não é difícil perceber que sempre que as sociedades se aproximaram de modelos onde o mérito não era recompensado e o retrocesso perdurava - e essas foram quase sempre ditaduras de esquerda, os povos encarregaram-se de acabar com isso. Dei por mim a pensar nisto, depois de ter escrito um destes dias sobre outra eminente personalidade que tive o prazer de ouvir falar e que, no fundo, não dizia coisa muito diferente de José Hermano Saraiva. E faz tanta falta ouvir falar quem sabe...


sábado, 1 de dezembro de 2012

Eu fico

Nos últimos anos tenho tido o privilégio de participar no “QSP Summit”, um magnífico encontro de pessoas ligadas ao marketing. Este ano, o orador principal foi Hermawan Kartajaya, um indonésio considerado um dos grandes gurus mundiais do marketing e, certamente, o guru do marketing asiático.
A sua intervenção foi marcante por vários motivos e jamais esquecerei como terminou. Mostrando-se informado sobre o programa de ajustamento da economia portuguesa, falou do ajustamento que a própria indonésia atravessou há duas décadas. Muito mais violento que o nosso. Nessa altura, conta Hermawan Kartajaya, a maioria dos seus colegas marketeers saíram do país e emigraram para destinos mais favoráveis, como os Estados Unidos, Japão, Austrália. Ele ficou!
Diz Hermawan Kartajaya: “nunca mais ouvi falar deles, nem nunca os vi nas capas das revistas de marketing mundial”. Antes de se despedir, disse-nos que o processo que estamos a atravessar é necessário e aconselhou: “não vão, fiquem. É aqui que estão as oportunidades. Além disso”, acrescentou, “vocês vivem no melhor sítio do Mundo: a região do globo com melhor nível de vida, com melhor justiça e com mais direitos sociais: a Europa”.
O desafio de Hermawan Kartajaya era um desafio ao empreendedorismo e à capacidade não apenas de resistir – e essa temos bastante – mas também à capacidade de perceber a sorte que – apesar de tudo – temos.
Ir ou partir não é uma questão de destino nem uma fatalidade para as velhas gerações que o fizeram nem para as novas que o estão a fazer. Nem se é melhor por ir ou pior por ficar. Mas ficar, é sem dúvida, a única solução que pode ajudar a mudar Portugal. Nisso, Passos Coelho não tinha razão quando indicou o caminho da saída. A esperança e a mudança sempre estiveram mais perto do que longe e as soluções muito mais dentro de nós do que nos outros.
É por isso que não concordo com muito do que diz Daniel Oliveira neste artigo a começar pelo título. É que a geração que parte não é a melhor. A melhor, é a parte da geração que fica. E é mesmo bom que o seja, pois é ela que, quer queira quer não, vai reconstruir Portugal.

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quarta-feira, 28 de novembro de 2012

A queda dos soundbites de Seguro


Levar com uma redução de juros e aumento dos prazos de maturidade, à borla, sem contrapartidas e às custas do descontrolo grego só pode ser lido como um pequeno sinal de que, afinal, se calhar, às vezes, os sacrifícios valem a pena e a postura de querer pagar o que se deve, também. Não admiti-lo é, além do mais, admitir que o discurso do "pedir mais tempo" e do "renegociar os juros" nunca passou dos mais demagógicos, oportunistas e anti-patrióticos soundbites de quem simplesmente não tem dimensão de Estado para ser governante.

 

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Mais uma cartolina para o vídeo de Marcelo

SALÁRIOS REAIS DOS FUNCIONÁRIOS PÚBLICOS SUBIRAM EM PORTUGAL ENQUANTO BAIXAVAM NA ALEMANHA

Dizia a telespetadora de um fórum televisivo que não compreendia por que razão sempre que há crises os “maus da fita” são os funcionários públicos. Ora vejamos se assim é: entre 1985 e 1995, ou seja em apenas 10 anos, os salários dos funcionários públicos quase duplicaram. Nesses 10 anos, nove correspondem à governação de Cavaco Silva, que aumentou os funcionários públicos em 90%. Se tivermos em conta os últimos 30 anos, a subida real dos salários da função pública foi de… 150%. Note-se que estamos a falar do período entre 1978 e 2009, ou seja, já em democracia consolidada e com duas intervenções do FMI pelo meio. E, atenção, este cálculo contém a correção monetária, referindo-se a um “aumento real dos salários” e não nominal. Os números são dados oficiais do Banco de Portugal e foram publicados em 2010.
Mais estranho, na década de 2000 a 2010, passada toda ela com níveis de crescimento diminutos em Portugal, ou mesmo com recessão – e certamente com crise – a subida dos vencimentos reais dos funcionários públicos em Portugal foi de 17%. Nesse período, os funcionários públicos alemães (isto podia estar numa das cartolinas de um lamentável vídeo que por aí andou) perderam 8,3% de salário real.
Só em 2009, ano de eleições e em plena crise internacional e profunda crise da dívida que nos levaria à pedida de ajuda externa, José Sócrates subiu os vencimentos dos funcionários públicos nuns surpreendentes 5%.
Este aumento enorme de salários foi decidido apesar das conclusões de um estudo do Banco de Portugal, então liderado então por Victor Constâncio, que demonstrava que os funcionários públicos não apenas ganhavam muito acima dos seus congéneres privados com funções semelhantes, como essa diferenças vinha galopando (de +50% em 1996 para +75% em 2005). Neste estudo não estavam contabilizadas algumas regalias sociais exclusivas dos funcionários públicos.
Para se ter uma ideia de como se caminhava para o abismo, o setor da saúde viu a sua dotação orçamental crescer entre 2000 e 2010 a uma média anual de 10%, atingindo 100% de crescimento de despesa numa década, sendo o fator salarial um dos que mais pesou.
Mas não foram apenas os salários que cresceram. O número de “beneficiários” também tem estado em crescimento ao longo dos últimos 30 anos. Mesmo em crise. Em Maio de 2010, Victor Constâncio (mais uma vez) desmentiu Sócrates quando este afirmou uma redução do número de funcionários públicos. Mesmo em plena crise, o Governo Socialista continuava a aumentar os “jobs” no Estado e a engordar… a “porca”, como alguém lhe chamou. Havia em Portugal 700 mil funcionários públicos diretos.
A senhora que falou ao fórum televisivo tem todo o seu direito à indignação face à perda de salário no último ano. E tem todo o direito em dizer que os funcionários públicos foram finalmente chamados a pagar a mesma crise que os privados andam a pagar há muitos anos. O que não pode dizer é que os funcionários públicos são sempre os penalizados. Não são. Nunca foram. Era interessante que não apenas percebesse isso mesmo, como também percebesse que essa escalada desproporcionada de salários da função pública é obviamente uma das razões fortes que levaram o país ao estado em que está. Seria também conveniente que nos dissesse se, por acaso, foi eleitora de Cavaco Silva e de José Sócrates, como a maioria dos portugueses (e dos funcionários públicos) terão feito por pelo menos duas vezes.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

O logótipo da greve ou a greve como um modo de vida

A política não é a preto e branco. O bem e o mal não estão de um lado ou de outro. Gosto de acreditar que qualquer ideologia procura atingir o mesmo fim, escolhendo contudo caminhos diferentes. E é aqui que residem as mais flagrantes incongruências da esquerda. Ou pelo menos da esquerda portuguesa cuja expressão máxima é, nesta altura, expressa não por qualquer partido político, mas pela CGTP. O caminho contra o capitalismo, contra os patrões e pelos direitos dos trabalhadores faz-se, contudo, com recurso aos mais básicos "truques" das sociedades capitalistas. Fá-lo em nome de valores de esquerda e dos direitos dos trabalhadores, mas usa os mais capitalistas padrões dos donos do capital e das multinacionais. A greve-geral, recurso extremo dos que deveriam defender o trabalho – pois os trabalhadores só poderão ser defendidos se for defendido o trabalho – até já tem um logótipo, qual MacDonalds, qual Pingo Doce.  A greve-geral não é, pois, apenas um instrumento de revindicação dos trabalhadores, mas uma verdadeira forma de vida dos sindicalistas. Estou certo que, algures na secretária de Arménio Carlos haverá também um manual de normas de comunicação, uma palete cromática a usar nos suportes de comunicação dos manifestantes e um argumentário cheio de “soundbites” ditados por um agência de comunicação, formal ou informal. Tal e qual o que existe na de Belmiro de Azevedo. Fica-me só uma pergunta: o que seria da greve sem austeridade, cortes de salários e mais impostos? E o que seria desta gente sem greve? O que seria da esquerda sem o capitalismo, os seus vícios e recursos? Nada!

 

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Humor sem piada


Por deformação profissional oiço muito mais rádios de informação e, logo, a TSF. Levo há uns anos com a crónica do Bruno Nogueira. Confesso que nunca gostei. Ou melhor, nunca me ri muito com ele. Não acho piada a quem fala com as pessoas como se falasse com analfabetos ou atrasados mentais. Sendo que eu penso que com analfabetos e atrasados mentais deveremos falar normalmente. Contudo, inicialmente,  por vezes, os textos eram mais ou menos bons. Melhor dito: às vezes tinham alguma piada. Ultimamente, contudo, as crónicas tornaram-se chatas. Mesmo chatas. Não apenas porque deixaram de ter qualquer réstia de humor, mas também porque se transformaram em manifestos políticos do seu autor – tanto quanto sei é o João Quadros quem as escreve – e porque usam de uma permanente linguagem de ofensa gratuita. Não diverte; não acrescenta; não chega sequer a ser sarcasmo, pois falta-lhe a ironia, o humor negro e a pertinência que o caracterizam. Em suma, Bruno Nogueira limita-se a ler – mal, quase sempre – um texto de repetição de argumentos políticos já conhecidos e bem identificados, acrescentando-lhes insultos pessoais gratuitos. Para quem não ouve ou ouviu, por exemplo, a crónica de hoje, começava assim: “muuu, muuuu; estou a fazer isto para falar numa linguagem que Merkle perceba”. Mais à frente, por várias vezes, chama-lhe “gorda” e outras coisas semelhantes. Pode ser que o defeito seja mesmo meu, mas já na minha 1ª classe não achava piada aos que, apenas "porque sim", chamavam “gordo” a um bom colega de turma e que, apesar de ser o melhor aluno da sala, pesava um pouco mais do que nós.

 

Evocar Hitler para esquecer Portugal

Hitler pediu que o regassem com gasolina e que o queimassem, antes de se suicidar. Tinha medo que o seu corpo fosse embalsamado e fosse parar a um museu. Como se enganava. Há um ano visitei Berlim. Uma cidade fantástica, cheia de história, sem tabus e onde o holocausto é constantemente recordado não apenas aos alemães mas a todos os que visitam a cidade. Um pormenor apenas. Hitler nunca aparece. Ninguém foi tanto vítima de Hitler e o odeia tanto como os alemães. Vi exposições e museus sobre a guerra, sobre a paz, sobre a destruição e sobre a construção. E sobre os judeus. Mas nunca vi Hitler ou sequer o seu nome escrito. Os alemães vivem com o peso do seu passado, das atrocidades cometidas pelo e ao seu povo num passado mais ou menos recente. Fazem-no com pudor, mas com responsabilidade. Já Portugal faz desde há 35 anos um esforço brutal por fingir que não foi a base de atrocidades, atropelos e guerras fratricidas. E não deixa de ser curioso que hoje, a propósito da visita de Angela Merkle a Portugal, não pare de evocar Hitler e as “oportunidades” que a Europa deu à Alemanha no passado. Como se Portugal não tivesse tido, mais cedo do que a Alemanha, a tentação de tomar o Mundo que não lhe pertencia, como se Portugal não tivesse cometido em África, mais recentemente, atrocidades parecidas às da Alemanha nas Guerras Mundiais. Não vale a pena estabelecer diferenças e sublinhar a escala. A guerra é a guerra e a nossa História está cheia delas, cada uma no seu tempo, enquadramento, contexto, imoralidade e crueldade. Há, de facto, uma diferença entre Portugal e a Alemanha. A Alemanha sempre se soube levantar, redimir e até conviver com os seus mais hediondos pecados, enquanto Portugal sempre os varreu para debaixo do tapete, sacudindo culpas e escondendo tanto os seus heróis e mártires como os seus tiranos. É por isso que não crescemos, por recalcarmos um passado que, depois, nos persegue. Como nunca arrumamos a discussão do passado, nunca aprendemos a gerir o presente. Em vez de constantemente fazermos comparações absurdas e pouco esclarecidas entre Hitler e Merkle, deveríamos talvez estar a tentar perceber que raio de governantes tivemos nos últimos anos e onde param os 170 mil milhões de euros de endividamento que atingimos no fim da governação Sócrates, metade dos quais vinha de trás e metade dos quais foi por si contraído. Se não sabemos aprender com a nossa História e entramos em permanente negação sobre o que temos feito, como podemos evocar a História bem resolvida dos outros?

Em Berlim, sê berlinense


Sobre a ideia de andar a mostrar vídeos aos alemães, devo dizer que considero uma ideia um pouco bacoca e até insultuosa à diplomacia nacional. Os alemães, em particular a Sra. Merkle, sabem bem o que aqui se passa e conhecem bem a nossa história. Tanto a gloriosa de outros tempos, como a mais triste e contemporânea. Mas mais bacoco do que fazer filmes desses é querer mostrá-los no Sony Center de Berlim. Só quem nunca lá tenha estado pode achar que seria útil ter ali um vídeo político a passar e só quem não tenha percebido o estilo de vida muito peculiar dos berlinenses poderia acreditar que algum deles iria dedicar um segundo que fosse ao assunto. Depois de visitar Berlim há menos de um ano, ficou-me a ideia de que aquela gente se importa muito pouco com o resto do Mundo ou mesmo da Europa. É uma cidade onde não há uma palavra escrita em inglês, nem no Metro, nem nos melhores restaurantes e nem sequer em museus. Os berlinenses convivem com os anacronismos da sua cidade e da sua história muito recente com níveis de adaptação e encaixe notáveis e uma enorme tolerância em relação a crenças, sexo, etnias ou origens. No primeiro dia de estadia irritei-me, até, com aquilo que identifiquei como sendo uma "cidade arrogante", mas saí de lá com a convicção de que apenas querem e sabem viver a vida como ninguém: com festa, qualidade, tolerância e segurança. Espetar com um vídeo sobre os "coitadinhos do Sul" da Sra. Merkle num local de evasão, compras e lazer é uma ideia tão peregrina que chega a insultar a conhecida inteligência de quem a teve.

 

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

ISABEL JONET E A PRECONCEITUOSA ESQUERDA CONTROLEIRA

Confesso ter uma desconfiança estrutural em relação a instituições de solidariedade que não conheço. Por sistema, não dou contribuições na rua a esta ou aquela IPSS ou projeto solidário. Prefiro aliviar a consciência, oferecendo os serviços da minha empresa para causas em que acredito. E acredito sobretudo numa lógica de inovação social e no desenvolvimento sustentado de formas de financiamento das IPSS que não passem nem pela excessiva dependência do Estado nem pela “pedinchice”.

Não tenho especial simpatia ou antipatia por Isabel Jonet (pessoa que não conheço pessoalmente) ou pelo Banco Alimentar que ela representa. Tenho, dessa instituição apenas a imagem do senso comum e do conhecimento que todos temos.

Posto isto, e depois de ouvir o que disse Isabel Jonet à SIC e que tanta polémica está a causar – mesmo em pessoas que, tenho a certeza, nem tiveram o cuidado de ouvir a entrevista –, apetece-me apenas falar de liberdade e não propriamente das palermices que já vi comentadas. Isabel Jonet ou qualquer outra pessoa têm toda a liberdade para achar que num país em que não haja dinheiro para comer bifes todos os dias, não se deva comer bifes todos os dias. Porque foi isto que a senhora disse, mais coisa menos coisa, recorrendo, evidentemente, a uma metáfora.

O ataque pessoal e até de honra que lhe está a ser lançado, só se percebe se atentarmos que há em Portugal uma minoria de “intelectuais” ditos de esquerda – mas que vivem de champanhe e caviar dissimulado entre o fumo de um charro – que entende a liberdade apenas quando esta cumpre os desígnios ideológicos de um sistema falido. Uma minoria que, apesar de minoritária, controla melhor do que se poderia pensar as colunas de opinião, os blogs, muitas redações e que manipula, como nenhuma maioria, a opinião pública. Essa minoria, apesar disso, nunca ganhou uma eleição e historicamente foge a sete pés do próprio escrutínio interno ao mesmo tempo que fala de democracia para fora. É só por isso que Isabel Jonet está a ser atacada.

Essa minoria de esquerda, que ressalva para si toda a intelectualidade, direitos sociais e, claro, a opinião, não admite que a liberdade de expressão não lhe está consignada em exclusivo. E é só por isso que Isabel Jonet está a ser atacada. Mas, por muito que custe a essa minoria de esquerda – que advoga que quem nada faz deve comer tanto bife do lombo como os que realmente trabalham – a pobreza, a assistência social, a solidariedade, sempre foi muito mais coisa da social-democracia e do centro-direita do que de atos reais dessa esquerda radical, controleira e preconceituosa que, todos os dias, controla a abertura dos telejornais.

 

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

O "anorax" de Seguro

Os jornalistas de sofá sabem que o MIT já está em Portugal para pedir o modelo do "anorax" a que se refere José António Seguro. O líder do PS, no arranque do seu programa de crescimento para Portugal foi à Universidade do Minho e de lá, para o País e com a SIC a transmitir em direto, não resistiu a explicar a fórmula do sucesso: um "anorax" com som no capuz, inventado por alunos e que vai tirar Portugal da crise. Pena que com cenas destas o líder do PS apenas tenha conseguido, com o alto patrocínio da SIC, justificar os recentemente anunciados cortes ao ensino superior. Por injustos que sejam...


terça-feira, 6 de novembro de 2012

A Reforma da Segurança Social do PS - Toda a Verdade

A REFORMA DA SEGURANÇA SOCIAL DO PS CONSISTIU EM SUBIR A CARGA FISCAL, OBRIGAR OS CONTRIBUINTES A TRABALHAR MAIS, BAIXAR OS VALORES DAS REFORMAS E USAR O DINHEIRO PARA FAZER BATOTA ORÇAMENTAL. TUDO, VIOLANDO OS DIREITOS ADQUIRIDOS DOS TRABALHADORES.


Na discussão sobre as funções do Estado, o PS mantém uma posição de resistência. Incompreensível, aliás, pois quase toda a minha vida ouvi dizer a toda a gente que era preciso renovar o Estado e em todos os sucessivos programas eleitorais, quer do PS quer do PSD, lá se inscreveu qualquer coisa parecida com isso, nunca se tendo cumprindo. Agora, para se recusar sequer a discutir o assunto com o PSD, os socialistas alegam que já fizeram, lembrando sempre aquilo que, aparentemente, foi a única coisa de positiva da governação de Sócrates: a reforma da Segurança Social. Estando proibido ao PSD e a todo o país lembrar o passado e a absoluta irresponsabilidade da governação socialistas dos últimos anos – não sei porquê – é lícito ao PS trazer constantemente à baila essa tão proclamada “reforma” que o Ministro Vieira da Silva protagonizou em prol da sustentabilidade da Segurança Social.

Mas, vejamos o que foi a reforma da Segurança Social do PS. Em primeiro lugar, o PS pôs os contribuintes que descontavam historicamente 10% (professores) a pagar 11%, retirando-lhes assim um direito adquirido que tinha décadas, subindo-lhes a carga fiscal. Em segundo lugar, aplicou o fundo da Segurança Social em mercados financeiros de risco, além de ter usado essa reserva para adquirir dívida pública portuguesa e assim iludir os mercados e a adiar a necessidade de um pedido de ajuda externa. Em terceiro lugar, aumentou a idade de reforma, indexando a sua progressão à esperança de vida. Em quarto lugar, anexou vários fundos de pensões particulares, procurando dessa forma iludir os desastrosos resultados da execução orçamental, comprometendo o futuro da sustentabilidade do sistema e obrigando a que todas as medidas anteriores ficassem mitigadas por esta última “batota” orçamental. Em quinto, baixou o valor nominal das reformas, diminuindo a percentagem sobre o vencimento médio. Em sexto, acabou com a acumulação de reformas do Estado, direito adquirido por quem as possuia. Por último, indexou o cálculo da reforma à média da carreira contributiva, alterando as regras e logo, de novo, violando os direitos adquiridos de milhões de trabalhadores que viram “as regras do jogo” alteradas a meio da sua vida de trabalho.

Todas estas medidas, provavelmente necessárias e que nem sequer me atrevo a criticar, podem ser resumidas numa expressão: O PS aumentou a carga fiscal ao mesmo tempo de obrigou os trabalhadores a trabalhar mais e até mais tarde, baixando-lhes as suas reformas de forma brutal, fazendo tudo isto ao arrepio dos seus direitos adquiridos. Esta é a verdade sobre a única reforma efetivamente realizada pelo Partido Socialista em relação ao Estado Social. E, a avaliar pelo que hoje os seus dirigentes dizem e repetem, orgulha-se muito disso.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Os sobreiros do meu avô e a saída do euro

O meu avô nasceu no primeiro ano do Século XX. Quando eu ainda nem andava na escola, nos últimos anos da ditadura, plantou comigo várias laranjeiras que me ofereceu. Delas já comi fruta durante muitos anos. Não plantou sobreiros porque “demoram muito a dar rendimento”. Se o tivéssemos feito, as árvores ainda esperariam hoje pela cortiça que viria apenas a tempo dos meus filhos dela lucrarem. O meu avô, do alto da sua personalidade austera, percebia que os tempos que a minha geração representava, já não eram os seus. Que os relógios do futuro não precisariam que diariamente lhes dessemos corda, como então me ensinara a fazer no seu velho “Omega”. Que deixaríamos de ser nós a dar corda aos relógios e que seriam os seus ponteiros a comandar os nossos dias. Apesar desta precessão avançada que o meu avô tinha dos tempos que se avizinhavam, a verdade é que nunca poderia imaginar a degradação frenética em que a vida pública e política viria a cair quarenta anos depois. Nem poderia calcular que, do extremo de plantarmos árvores para rendimento dos nossos netos, em menos de meio-século, passássemos a um regime social em que a nossa paciência para ver crescer o fruto da nossa sementeira se medisse em horas ou dias, no limite. Há um ano, Portugal acreditou numa solução para o país e plantou laranjeiras: a consolidação das contas públicas, ajudadas por um empréstimo colossal aos nossos credores de sempre. Acreditou que isso nos faria sofrer durante quatro ou cinco anos, antes de voltarmos a uma perspetiva de crescimento e prosperidade. A solução revelou-se mais dura do que pensámos ou do que nos contaram. Por erro de paralaxe, de quem deveria saber muito mais do que nós, ou por imperativo eleitoral - como sempre - deram-nos mais esperanças do que eram devidas. Hoje Portugal parece não acreditar tanto no Governo que elegeu e nas soluções encontradas. Um ano de sacrifícios bastou para que tivéssemos vontade de derrubar o laranjal, antes de comer a primeira laranja. Logo se levantam, então, os que advogam a saída do euro, o incumprimento, a renegociação da dívida como solução de futuro. Como a forma de sustentar, a longo prazo, um futuro para os nossos… netos. Ou seja: querem cortar pela raiz as jovens laranjeiras e plantar, de novo, velhos sobreiros. Não sei – não sei mesmo – qual a melhor solução de futuro. Se o moderno laranjal se os velhos sobreiros. Mas sei uma coisa: se a solução das laranjeiras, com a qual 80% dos portugueses concordava há um ano atrás não serve, apenas porque a terra é mais dura do que nos contaram e se as laranjas são mais escassas e amargas do que pensámos, quem poderia apoiar a outra solução quando daqui a uma década ainda esperássemos sentados sem nenhum usufruto dos nossos sobreiros?

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Daniel Oliveira, o "grande chefe" e a comunicação social


Não sou da área política de Daniel Oliveira. Mas reconheço-lhe coerência, inteligência e pensamento. Simpatizo particularmente com estes três adjectivos quando aplicados a pessoas que, de uma forma ou de outra, fazem intervenção política. Daniel Oliveira criticou hoje a falta de debate interno e de democracia no Bloco de Esquerda. Há anos que isso é evidente, embora a comunicação social passe ao lado desse facto grave que se passa num partido político com um lugar no quadro parlamentar e não só.
Recentemente, o “grande líder” Louçã, anunciou a sua retirada, depois de ter ignorado um enorme fracasso eleitoral e ter passado ele próprio uma esponja sobre as suas responsabilidades, fugindo ao debate com os seus “camaradas”. Louça passou mais de uma década a clamar uma democracia para o País que ele recusava aos seus seguidores. Nunca me dei conta da comunicação social portuguesa lho perguntar, o questionar ou mesmo o perseguir com essa questão, como se faz aos partidos da direita, do centro direita e mesmo do centro esquerda. Louçã, ao anunciar a sua retirada, anunciou quem o substituiria. Obedientemente, sem questão e sem reportagens insidiosas e carregadas de “bocas opinativas” como hoje é moda nas peças ditas “jornalísticas” televisivas, a comunicação social, abriu as portas para o senhor e a senhora “mandatados” por Louçã para o substituir. À cubana, TV’s, rádios e jornais, aceitaram como sucessores os “indicados” pelo “grande chefe”.
Ontem, as críticas de Daniel Oliveira foram objectivas e não obtiveram resposta razoável, refletindo aquilo que a passar-se no PSD, no PS ou no CDS seria classificado de “escândalo” e daria aso à reportagem “atrevida” dos pés de microfone que viajam atrás de alguns políticos repetindo chavões e perguntas feitas.
Contudo, apesar do mediatismo de Daniel Oliveira e da gravidade do que está em causa para os militantes do que ainda há pouco tempo era o 3º partido português, as suas críticas ficaram na gaveta das agendas das redações (salvo raras excepções). As leves referências ao assunto foram sobrepostas por peças elogiosas ao imaculado percurso político de Louçã. “O grande chefe” nunca sai derrotado. Aliás, nunca sai nem se demite, a sua presença é mais necessária noutro local. Veremos em que ecrã(s) é esse local.

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