segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Em Berlim, sê berlinense


Sobre a ideia de andar a mostrar vídeos aos alemães, devo dizer que considero uma ideia um pouco bacoca e até insultuosa à diplomacia nacional. Os alemães, em particular a Sra. Merkle, sabem bem o que aqui se passa e conhecem bem a nossa história. Tanto a gloriosa de outros tempos, como a mais triste e contemporânea. Mas mais bacoco do que fazer filmes desses é querer mostrá-los no Sony Center de Berlim. Só quem nunca lá tenha estado pode achar que seria útil ter ali um vídeo político a passar e só quem não tenha percebido o estilo de vida muito peculiar dos berlinenses poderia acreditar que algum deles iria dedicar um segundo que fosse ao assunto. Depois de visitar Berlim há menos de um ano, ficou-me a ideia de que aquela gente se importa muito pouco com o resto do Mundo ou mesmo da Europa. É uma cidade onde não há uma palavra escrita em inglês, nem no Metro, nem nos melhores restaurantes e nem sequer em museus. Os berlinenses convivem com os anacronismos da sua cidade e da sua história muito recente com níveis de adaptação e encaixe notáveis e uma enorme tolerância em relação a crenças, sexo, etnias ou origens. No primeiro dia de estadia irritei-me, até, com aquilo que identifiquei como sendo uma "cidade arrogante", mas saí de lá com a convicção de que apenas querem e sabem viver a vida como ninguém: com festa, qualidade, tolerância e segurança. Espetar com um vídeo sobre os "coitadinhos do Sul" da Sra. Merkle num local de evasão, compras e lazer é uma ideia tão peregrina que chega a insultar a conhecida inteligência de quem a teve.

 

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

ISABEL JONET E A PRECONCEITUOSA ESQUERDA CONTROLEIRA

Confesso ter uma desconfiança estrutural em relação a instituições de solidariedade que não conheço. Por sistema, não dou contribuições na rua a esta ou aquela IPSS ou projeto solidário. Prefiro aliviar a consciência, oferecendo os serviços da minha empresa para causas em que acredito. E acredito sobretudo numa lógica de inovação social e no desenvolvimento sustentado de formas de financiamento das IPSS que não passem nem pela excessiva dependência do Estado nem pela “pedinchice”.

Não tenho especial simpatia ou antipatia por Isabel Jonet (pessoa que não conheço pessoalmente) ou pelo Banco Alimentar que ela representa. Tenho, dessa instituição apenas a imagem do senso comum e do conhecimento que todos temos.

Posto isto, e depois de ouvir o que disse Isabel Jonet à SIC e que tanta polémica está a causar – mesmo em pessoas que, tenho a certeza, nem tiveram o cuidado de ouvir a entrevista –, apetece-me apenas falar de liberdade e não propriamente das palermices que já vi comentadas. Isabel Jonet ou qualquer outra pessoa têm toda a liberdade para achar que num país em que não haja dinheiro para comer bifes todos os dias, não se deva comer bifes todos os dias. Porque foi isto que a senhora disse, mais coisa menos coisa, recorrendo, evidentemente, a uma metáfora.

O ataque pessoal e até de honra que lhe está a ser lançado, só se percebe se atentarmos que há em Portugal uma minoria de “intelectuais” ditos de esquerda – mas que vivem de champanhe e caviar dissimulado entre o fumo de um charro – que entende a liberdade apenas quando esta cumpre os desígnios ideológicos de um sistema falido. Uma minoria que, apesar de minoritária, controla melhor do que se poderia pensar as colunas de opinião, os blogs, muitas redações e que manipula, como nenhuma maioria, a opinião pública. Essa minoria, apesar disso, nunca ganhou uma eleição e historicamente foge a sete pés do próprio escrutínio interno ao mesmo tempo que fala de democracia para fora. É só por isso que Isabel Jonet está a ser atacada.

Essa minoria de esquerda, que ressalva para si toda a intelectualidade, direitos sociais e, claro, a opinião, não admite que a liberdade de expressão não lhe está consignada em exclusivo. E é só por isso que Isabel Jonet está a ser atacada. Mas, por muito que custe a essa minoria de esquerda – que advoga que quem nada faz deve comer tanto bife do lombo como os que realmente trabalham – a pobreza, a assistência social, a solidariedade, sempre foi muito mais coisa da social-democracia e do centro-direita do que de atos reais dessa esquerda radical, controleira e preconceituosa que, todos os dias, controla a abertura dos telejornais.

 

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

O "anorax" de Seguro

Os jornalistas de sofá sabem que o MIT já está em Portugal para pedir o modelo do "anorax" a que se refere José António Seguro. O líder do PS, no arranque do seu programa de crescimento para Portugal foi à Universidade do Minho e de lá, para o País e com a SIC a transmitir em direto, não resistiu a explicar a fórmula do sucesso: um "anorax" com som no capuz, inventado por alunos e que vai tirar Portugal da crise. Pena que com cenas destas o líder do PS apenas tenha conseguido, com o alto patrocínio da SIC, justificar os recentemente anunciados cortes ao ensino superior. Por injustos que sejam...


terça-feira, 6 de novembro de 2012

A Reforma da Segurança Social do PS - Toda a Verdade

A REFORMA DA SEGURANÇA SOCIAL DO PS CONSISTIU EM SUBIR A CARGA FISCAL, OBRIGAR OS CONTRIBUINTES A TRABALHAR MAIS, BAIXAR OS VALORES DAS REFORMAS E USAR O DINHEIRO PARA FAZER BATOTA ORÇAMENTAL. TUDO, VIOLANDO OS DIREITOS ADQUIRIDOS DOS TRABALHADORES.


Na discussão sobre as funções do Estado, o PS mantém uma posição de resistência. Incompreensível, aliás, pois quase toda a minha vida ouvi dizer a toda a gente que era preciso renovar o Estado e em todos os sucessivos programas eleitorais, quer do PS quer do PSD, lá se inscreveu qualquer coisa parecida com isso, nunca se tendo cumprindo. Agora, para se recusar sequer a discutir o assunto com o PSD, os socialistas alegam que já fizeram, lembrando sempre aquilo que, aparentemente, foi a única coisa de positiva da governação de Sócrates: a reforma da Segurança Social. Estando proibido ao PSD e a todo o país lembrar o passado e a absoluta irresponsabilidade da governação socialistas dos últimos anos – não sei porquê – é lícito ao PS trazer constantemente à baila essa tão proclamada “reforma” que o Ministro Vieira da Silva protagonizou em prol da sustentabilidade da Segurança Social.

Mas, vejamos o que foi a reforma da Segurança Social do PS. Em primeiro lugar, o PS pôs os contribuintes que descontavam historicamente 10% (professores) a pagar 11%, retirando-lhes assim um direito adquirido que tinha décadas, subindo-lhes a carga fiscal. Em segundo lugar, aplicou o fundo da Segurança Social em mercados financeiros de risco, além de ter usado essa reserva para adquirir dívida pública portuguesa e assim iludir os mercados e a adiar a necessidade de um pedido de ajuda externa. Em terceiro lugar, aumentou a idade de reforma, indexando a sua progressão à esperança de vida. Em quarto lugar, anexou vários fundos de pensões particulares, procurando dessa forma iludir os desastrosos resultados da execução orçamental, comprometendo o futuro da sustentabilidade do sistema e obrigando a que todas as medidas anteriores ficassem mitigadas por esta última “batota” orçamental. Em quinto, baixou o valor nominal das reformas, diminuindo a percentagem sobre o vencimento médio. Em sexto, acabou com a acumulação de reformas do Estado, direito adquirido por quem as possuia. Por último, indexou o cálculo da reforma à média da carreira contributiva, alterando as regras e logo, de novo, violando os direitos adquiridos de milhões de trabalhadores que viram “as regras do jogo” alteradas a meio da sua vida de trabalho.

Todas estas medidas, provavelmente necessárias e que nem sequer me atrevo a criticar, podem ser resumidas numa expressão: O PS aumentou a carga fiscal ao mesmo tempo de obrigou os trabalhadores a trabalhar mais e até mais tarde, baixando-lhes as suas reformas de forma brutal, fazendo tudo isto ao arrepio dos seus direitos adquiridos. Esta é a verdade sobre a única reforma efetivamente realizada pelo Partido Socialista em relação ao Estado Social. E, a avaliar pelo que hoje os seus dirigentes dizem e repetem, orgulha-se muito disso.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Os sobreiros do meu avô e a saída do euro

O meu avô nasceu no primeiro ano do Século XX. Quando eu ainda nem andava na escola, nos últimos anos da ditadura, plantou comigo várias laranjeiras que me ofereceu. Delas já comi fruta durante muitos anos. Não plantou sobreiros porque “demoram muito a dar rendimento”. Se o tivéssemos feito, as árvores ainda esperariam hoje pela cortiça que viria apenas a tempo dos meus filhos dela lucrarem. O meu avô, do alto da sua personalidade austera, percebia que os tempos que a minha geração representava, já não eram os seus. Que os relógios do futuro não precisariam que diariamente lhes dessemos corda, como então me ensinara a fazer no seu velho “Omega”. Que deixaríamos de ser nós a dar corda aos relógios e que seriam os seus ponteiros a comandar os nossos dias. Apesar desta precessão avançada que o meu avô tinha dos tempos que se avizinhavam, a verdade é que nunca poderia imaginar a degradação frenética em que a vida pública e política viria a cair quarenta anos depois. Nem poderia calcular que, do extremo de plantarmos árvores para rendimento dos nossos netos, em menos de meio-século, passássemos a um regime social em que a nossa paciência para ver crescer o fruto da nossa sementeira se medisse em horas ou dias, no limite. Há um ano, Portugal acreditou numa solução para o país e plantou laranjeiras: a consolidação das contas públicas, ajudadas por um empréstimo colossal aos nossos credores de sempre. Acreditou que isso nos faria sofrer durante quatro ou cinco anos, antes de voltarmos a uma perspetiva de crescimento e prosperidade. A solução revelou-se mais dura do que pensámos ou do que nos contaram. Por erro de paralaxe, de quem deveria saber muito mais do que nós, ou por imperativo eleitoral - como sempre - deram-nos mais esperanças do que eram devidas. Hoje Portugal parece não acreditar tanto no Governo que elegeu e nas soluções encontradas. Um ano de sacrifícios bastou para que tivéssemos vontade de derrubar o laranjal, antes de comer a primeira laranja. Logo se levantam, então, os que advogam a saída do euro, o incumprimento, a renegociação da dívida como solução de futuro. Como a forma de sustentar, a longo prazo, um futuro para os nossos… netos. Ou seja: querem cortar pela raiz as jovens laranjeiras e plantar, de novo, velhos sobreiros. Não sei – não sei mesmo – qual a melhor solução de futuro. Se o moderno laranjal se os velhos sobreiros. Mas sei uma coisa: se a solução das laranjeiras, com a qual 80% dos portugueses concordava há um ano atrás não serve, apenas porque a terra é mais dura do que nos contaram e se as laranjas são mais escassas e amargas do que pensámos, quem poderia apoiar a outra solução quando daqui a uma década ainda esperássemos sentados sem nenhum usufruto dos nossos sobreiros?

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Daniel Oliveira, o "grande chefe" e a comunicação social


Não sou da área política de Daniel Oliveira. Mas reconheço-lhe coerência, inteligência e pensamento. Simpatizo particularmente com estes três adjectivos quando aplicados a pessoas que, de uma forma ou de outra, fazem intervenção política. Daniel Oliveira criticou hoje a falta de debate interno e de democracia no Bloco de Esquerda. Há anos que isso é evidente, embora a comunicação social passe ao lado desse facto grave que se passa num partido político com um lugar no quadro parlamentar e não só.
Recentemente, o “grande líder” Louçã, anunciou a sua retirada, depois de ter ignorado um enorme fracasso eleitoral e ter passado ele próprio uma esponja sobre as suas responsabilidades, fugindo ao debate com os seus “camaradas”. Louça passou mais de uma década a clamar uma democracia para o País que ele recusava aos seus seguidores. Nunca me dei conta da comunicação social portuguesa lho perguntar, o questionar ou mesmo o perseguir com essa questão, como se faz aos partidos da direita, do centro direita e mesmo do centro esquerda. Louçã, ao anunciar a sua retirada, anunciou quem o substituiria. Obedientemente, sem questão e sem reportagens insidiosas e carregadas de “bocas opinativas” como hoje é moda nas peças ditas “jornalísticas” televisivas, a comunicação social, abriu as portas para o senhor e a senhora “mandatados” por Louçã para o substituir. À cubana, TV’s, rádios e jornais, aceitaram como sucessores os “indicados” pelo “grande chefe”.
Ontem, as críticas de Daniel Oliveira foram objectivas e não obtiveram resposta razoável, refletindo aquilo que a passar-se no PSD, no PS ou no CDS seria classificado de “escândalo” e daria aso à reportagem “atrevida” dos pés de microfone que viajam atrás de alguns políticos repetindo chavões e perguntas feitas.
Contudo, apesar do mediatismo de Daniel Oliveira e da gravidade do que está em causa para os militantes do que ainda há pouco tempo era o 3º partido português, as suas críticas ficaram na gaveta das agendas das redações (salvo raras excepções). As leves referências ao assunto foram sobrepostas por peças elogiosas ao imaculado percurso político de Louçã. “O grande chefe” nunca sai derrotado. Aliás, nunca sai nem se demite, a sua presença é mais necessária noutro local. Veremos em que ecrã(s) é esse local.

VER notícia aqui

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

A "gordurinha" dos Magistrados

Esta notícia ilustra na perfeição o espírito do protesto em Portugal. Ainda há tempos li um editorial particularmente oportuno num jornal de economia, intitulado “Cortes na despesa. Aqui não”. Pois este caso dos Magistrados do Ministério Pú
blico é, antes de mais, paradigmático do discurso permanente do “é preciso cortar nas gorduras” mas que, uma vez aplicado à porta da nossa casa ou mesmo no nosso jardim, passa a ser “isto é um roubo”.
Mas este caso é ainda mais do que isso. É que, pelos vistos, os Magistrados não são apenas privilegiados em muitos aspetos em relação à maioria dos portugueses e mesmo dos funcionários públicos – e provavelmente está bem que o sejam –, como têm dirigentes sindicais manhosos.
Ora, perante a eminência de um acordo com o Governo para que a “gordurinha” dos transportes à borla não lhes seja cortada, não apenas ficam contentes, como ainda “avisam a malta” para estar calada. A ver se isto passa despercebido ao país… aos outros “gordos e magros”, aos pobres, aos injustiçados.
Das duas uma: ou os transportes à borla para os Magistrados são de facto de importância fundamental para o desempenho das suas funções ou não são. O que os sindicalistas que representam os Magistrados nos dizem com esta mensagem enviada aos seus associados é que não são fundamentais. Que se trata mesmo de uma gordura que ninguém entenderia que não fosse cortada. Só assim se percebe a necessidade do silêncio, garantido o interesse das suas barriguinhas em detrimento do País ignorante.

domingo, 21 de outubro de 2012

Soudbites e superficialidade na comunicação a propósito do ranking das escolas

Há fenómenos da comunicação que nos devem fazer refletir. Há uns anos, quando o Ministério da Educação – e bem – regressou a uma lógica de exames nacionais, choveram críticas. Dizia-se que o trabalho dos alunos seria resumido a duas horas e que se violava o princípio da avaliação contínua. Na comunicação social, não víamos quase ninguém a defender os exames. Hoje, a mesma comunicação social classifica, sem pudor, as escolas em rankings pelos resultados dos exames – sem mais. Os jornais chamam às manchetes o assunto e as televisões fazem reportagens sobre “as melhores e as piores escolas do país”. Ainda há pouco vi uma reportagem na TVI sobre “A melhor escola do país”, dito e escrito assim em oráculo. Nem sequer duvido que o Colégio do Rosário, no Porto, seja o melhor do país, mas confunde-me que um jornalista, um editor, uma direção de uma televisão, sem crítica e sem espírito crítico, aceite cair em tamanha simplificação de critérios e que o Ministério da Educação não tenha nada a dizer sobre o assunto. O que será um bom estabelecimento de ensino? Aquele que ajuda a recuperar alunos de 4 para 10 e torna os “condenados” do sistema em alunos com aproveitamento mínimo, ou aquele que pré-seleciona os seus alunos, apertando o crivo da admissão e, quando algum falha, o manda embora, não chegando a sujeitá-lo a exame? Não sei se isso acontece no Colégio do Rosário, mas acontece em muitos outros muito bem classificados no mesmo ranking, tornando a comparação entre eles, pela simples classificação média dos exames, um indicador, mas não mais do que isso. Como pode uma escola pública, a quem não é permitido rejeitar alunos ou obriga-los a explicações extra e fora da escola e mesmo sugerir a sua saída a meio do ano, concorrer num mesmo ranking de resultado de exame com as escolas privadas? A injustiça desta classificação, que deveria ser apenas um indicador e nunca servir como base para se poder dizer que “esta escola é melhor do que a outra”, está em todos os jornais e em todos os ecrãs de TV. E é apenas um exemplo da forma ligeira e irresponsável como a comunicação social hoje cai em chavões de comunicação tão primários que apenas são possíveis porque o espírito crítico dos jornalistas e dos seus diretores parece hoje esgotado numas quantas lutas de classe e interesses pessoais. O mais curioso é que leio e oiço muitos jornalistas diabolizarem os “spins”, como hoje se apelidam. O que não os vejo é fugirem aos seus mais descalços “soundbites” e às mais suas primárias rasteiras.


sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Olha para o que eu digo

Quase todos os ex-ministros das finanças criticam o atual ministro das finanças. Todos acham que o objetivo de redução do défice está a ser exagerado e que não é exequível. Respeito as suas opiniões mais do que a minha, como é evidente. Mas, na ausência de soluções alternativas nos discursos de todos eles, tenho que ser levado a acreditar que defendam que Gaspar faça o que todos eles fizeram: aldrabar as contas do orçamento, empolando receita e subestimando despesa; desorçamentar custos através de expedientes informais ou formais e, finalmente, fazer batota com receitas extraordinárias e irrepetíveis. Ou seja, a "solução" que nos levou a um défice insuportável, a uma dívida pública impossível de pagar, a crescimentos residuais e às atuais medidas de emergência. Ou já se esqueceram das filas de devedores à porta das finanças, em vésperas de ano novo, nos tempos de Manuela Ferreira Leite?


quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Seguro nos seus tempos de silêncio remunerado

François Hollande disse ontem que Portugal está a pagar os erros dos outros, referindo-se aos outros países, oferecendo “solidariedade”. António José Seguro apressou-se a concordar e aplaudir, afirmando que anda há um ano a dizer o mesmo. O
ra, assim, de forma indireta, Seguro acaba de passar uma esponja nas “nossas” próprias culpas, designadamente, nas recentes culpas. Falando claro, António José seguro, que passou seis anos num profundo e remunerado silêncio na última fila da bancada parlamentar do PS, não acha que a duplicação da nossa dívida pública nos seis anos de governação de Sócrates tenha alguma coisa a ver com a situação em que estamos. Um bom princípio para quem quer ser Primeiro-Ministro. Ou não quer? E já agora, se concorda com Hollande e até frequenta o Eliseu, seria bom que esclarecesse o que o presidente francês entende por “solidariedade”. É que se forem só palavras – como a sua “agenda para o crescimento” – e não vier acompanha 
de um chequezito, dispensamos bem a sua solidariedade.



terça-feira, 16 de outubro de 2012

Não tendo nunca votado em Sócrates, posso-me arrepender disso. O que não posso é arrepender-me de alguma vez o ter feito. O que deve ser horrível.

Ao contrário da maioria dos portugueses, eu nunca votei no Sócrates. Aliás, nunca votei no PS. Arrependo-me muito. Porque, na verdade, se tivesse votado no Sócrates hoje estaríamos bem. Se tivesse votado em Sócrates, além da melhor rede de auto-estradas da Europa – muitas à borla, como lhe ensinou Guterres – teríamos também as melhores escolas do Mundo, com mármores e ar condicionado de luxo. Aliás, uma parte delas é assim. Outra parte não, porque Sócrates foi embora em 2011. Também teríamos a melhor indústria automóvel do Mundo. Lembro-me como numa penada e em mais um anúncio mediático, despejou mil milhões para formação neste setor. Não sei onde estão. Teríamos igualmente um défice fantástico, mas isso não interessa, porque teríamos também TGV Lisboa-Porto, TGV Porto-Vigo, TGV Lisboa-Poceirão e TGV Poceirão-Espanha. Teríamos ainda um aeroporto internacional em Alcochete, bem pertinho do Freeport e um túnel por baixo do Tejo e mais uma ponte para o TGV passar o rio. Teríamos base logística na Ota, para compensar a perda, e várias auto-estradas paralelas entre Lisboa e Porto, para passar em todos estes lugares. Além de Beja, outras cidades do interior teriam aeroportos maravilhosos, lindos, também com mármores e outras coisas luxuosas. O mais incrível é que com um simples PCE4, Sócrates teria resolvido todo o endividamento provocado pelo que fez e pelo que ainda iria fazer. A dívida soberana não seria hoje nem dos 80 mil milhões com que entrou nem dos 170 mil milhões que nos deixou quando saiu. A dívida externa, na verdade, não seria nenhuma, pois não a teríamos pago. Se eu tivesse votado em Sócrates, talvez António José Seguro, continuasse calado na última fila da bancada do PS, onde secretamente continuaria a ganhar o seu ordenado de deputado e isso era muito bom, pois escusava de o ouvir. Talvez, se eu não tivesse acreditado que Manuela Ferreira Leite tinha razão em 2009 – ao contrário da maioria dos portugueses –, pudesse ter ajudado Sócrates a ter maioria nessas eleições e ainda hoje governasse, com Lino, Campos e Teixeira dos Santos. Talvez ninguém tenha razão numa casa onde não há pão. Mas eu, mesmo não tendo nunca votado em Sócrates, posso-me arrepender disso. O que não posso é arrepender-me de alguma vez o ter feito. O que deve ser horrível.

 

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Serviço Público, RTP e Eleições nos Açores


Com o "like" de alguns jornalistas da RTP, escrevi neste espaço há uns tempos, com justiça e sinceridade, que o trabalho da RTP Madeira aquando dos incêndios naquela ilha foi notáv el. Em particular, elogiei uma jornalista "pivot" que durante horas sustentou a emissão que foi transmitida - e bem - em simultâneo para a RTPi. Não o fiz, mas o mesmo poderia ter dito de muitos jornalistas da RTP Açores que trabalharam aquando da passagem de uma tempestade, trabalho também transmitido em direto pela RTPi. "Serviço Público", disseram então os interessados na manutenção da atual RTP, pública e deficitária. Assim se justificava – liam nas minhas palavras - que tudo valia a pena.

Ora, para meu espanto, hoje assisti na mesma RTPi a uma reportagem sobre as eleições Regionais dos Açores, nomeadamente a propósito visita do vice-presidente do PSD à Região, sendo a jornalista uma "enviada" desde a RTP... do Porto

 Eu, que quase me rendia perante bons relatos de fogos e vendavais à necessidade da manutenção de tão importantes bastiões do serviço público televisivo nas Ilhas - e acho mesmo que é importante - fiquei perplexo com esta opção da RTP de enviar jornalistas onde eles já existem, como se os segundos fossem incapazes. Se o serviço público é importante e se é importante para o serviço público manter a RTP na esfera do Estado - e são coisas muito diferentes -, então que parem de nos dar razão para acharmos que há esbanjamento e exagero na forma como, a título de serviço público, se comentem disparates que apenas podem dar razão aos que não o defendem.

E já agora, também ajudava ao discurso se o jornalista Hélder Conduto não voltasse ao Brasil só para entrevistar um jogador de futebol.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

O carro de Cristiano Ronaldo, a direita liberal, o comunismo soviético e o pecado da hipocrisia


Era bom que em Portugal conseguíssemos decidir rapidamente se afinal queremos adotar um modelo marxista-leninista, ao estilo União Soviética ou se, de uma vez por todas, nos rendemos aos males (menores) do capitalismo. Mas, a não queremos o capitalismo, ainda assim, prefiro que então se escolha o comunismo, porque o pior de tudo é a hipocrisia.

E é de hipocrisia que temos vivido, quer política quer socialmente em Portugal. Uns fingem que gostam do Estado Social ao mesmo tempo que o ferem de morte pela falência. Outros fingem-se da direita liberal, ao mesmo tempo que procuram matar o mérito e o sucesso que o liberalismo deveria premiar mas que os “nossos liberais” abafam por via de uma dízima desproporcionada e castradora do sucesso.

Vem isto a propósito da delicada situação política que só é delicada porque não há dinheiro e que, em boa verdade, não chega a ser política porque nem a esquerda consegue ser a esquerda social que apregoa, nem a direita pode ser a direita liberal que gostaria de ser. Resta, por isso, a hipocrisia. A hipocrisia dos que mais ganham e mais pagam e falsamente saem à rua para lutar contra o desemprego e contra a pobreza, com os seus iPhones no bolso, quando na verdade apenas lutam pelo seu subsídio perdido que outrora lhes dava umas férias mais longas nas Caraíbas. À hipocrisia destes, junta-se a dos que se habituaram a chupar o sistema, em esquemas vários de delapidação do Estado, dos bens públicos e dos subsídios, rendimentos, rendas, parcerias e coisas quejandas, que brotam tanto nas elites como em boa parte dos milhares de lares em bairros onde se estacionam Mercedes à porta de blocos de apartamentos “sociais” construídos às custas… do Estado.

A hipocrisia, portanto – e não a política, a ideologia e nem sequer a Troika – governa Portugal. Digo “governa” porque a verdade mais dura é que, como dizia a música no 25 de Abril, “o povo é quem mais ordena”. E é! Continua a ser assim! Quem fez esta classe política foi o povo e não o contrário, como às vezes hipocritamente queremos convencer-nos.

Pode parecer vir a despropósito, mas hoje, a chegada dos jogadores milionários do Real Madrid ao estágio da Seleção de Futebol fez-se num VW Golf, modesto e mal limpo. De lá de dentro saíram, sarcásticos, Cristiano Ronaldo, Fábio Coentrão e Pepe. O melhor jogador do Mundo, o melhor lateral da Europa e o melhor central do Mundo. Os mesmos que ainda há dois ou três meses eram criticados por terem chegado nos seus Ferrari ao estágio da Seleção. Chegam agora num modesto VW, o “carro do povo”. Ironia? Talvez! Eu vejo o ato de aparente humildade como uma tremenda hipocrisia. Não dos três que, certamente, se riram e divertiram bem mais no VW – e por causa do VW – durante o caminho desde o aeroporto, do que certamente todos nós. A hipocrisia é a nossa, de querer vê-los num carro parecido com o nosso.

Mas a verdade é só uma: Ronaldo, Coentrão e Pepe merecem mais do que transportar-se num Golf e, sobretudo, merecem mais do que um país que os obriga a fingirem-se de pobres, como se vivessem no velho sistema soviético de Brejnev. Na sociedade em que eu quero viver todos podemos ter um Ferrari, um Bentley e muito mais, desde que façamos o mesmo que Ronaldo, com a sua habilidade, força, rasgo, competência e muito, muito trabalho, sabe fazer. Uma sociedade livre, liberal, democrática e recompensadora do mérito. Não uma sociedade comunista, mesquinha e invejosa. Uma sociedade justa é aquela que sabe recompensar os melhores e simultaneamente apoiar os incapazes. Não é a que procura atingir a inatingível equidade, hipotecando a recompensa e amesquinhando o mérito.

Deixo por isso aqui a minha declaração política e ideológica: eu quero viver num país onde o melhor jogador do Mundo se possa transportar no carro que quiser e também quero que o Primeiro-Ministro do meu país se transporte num Mercedes ou BMW topo de gama. Em segurança e com a dignidade de um Primeiro-Ministro. Também quero – melhor, exijo – é que o primeiro saiba honrar a camisola da Seleção quando a veste em campo e o segundo governe com competência e lisura. Quanto ao resto, e já agora, que me deixem viver numa sociedade onde o mérito não seja apenas instrumento de confisco… monetário e social, pelo Estado e pela má-língua.

 

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

10 mil milhões de razões para nos sentirmos melhor

Portugal trocou hoje Obrigações do Tesouro (dívida) contraídas por Sócrates. São quase 10 mil milhões de euros que o estudante parisiense foi buscar aos mercados em 2008. Quatro anos depois, este Governo conseguiu passar o pagamento para 2015 (venciam este ano), baixando a taxa de 5,45% para 3,35%. Isto levanta-me uma questão e uma constatação.

Questão: onde foram aplicados esses 10 mil milhões de euros que Sócrates, Teixeira dos Santos, Mário Lino, Paulo Campos e companhia foram buscar?
Constatação: mesmo sob assistência financeira e com manifs de um milhão na rua, Portugal tem hoje mais crédito no estrangeiro do que tinha em 2008.

Quanto à questão, o mais que posso esperar é que tenham sido esbanjados em mármores e ar condicionado de luxo em escolas públicas de luxo e auto-estradas inúteis em todo o país. O pior que posso esperar é que as investigações em curso acabem por nos dar explicações mais macabras.


terça-feira, 2 de outubro de 2012

O Futurjornalismo da SIC

Fantástico! Jornalista da SICN, logo no início do programa "Opinião Pública", fez um "resumo do que os telespetadores poderão vir a dizer durante o programa".
E o que, segundo o seu resumo das declarações futuras, os telespetadores poderão vir a dizer? Dirão que o Governo deveria ter anunciado as novas medidas aos portugueses antes de discuti-las com Bruxelas.
Ora, gostava eu de saber o que aconteceria se o Governo anunciasse medidas que não discutiu com Bruxelas e que estas viessem, depois, a ser chumbadas... penso que até esta jornalista da SIC adivinharia que os seus telespetadores, resumidamente, pediriam a demissão do Governo!