sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Daniel Oliveira, o "grande chefe" e a comunicação social


Não sou da área política de Daniel Oliveira. Mas reconheço-lhe coerência, inteligência e pensamento. Simpatizo particularmente com estes três adjectivos quando aplicados a pessoas que, de uma forma ou de outra, fazem intervenção política. Daniel Oliveira criticou hoje a falta de debate interno e de democracia no Bloco de Esquerda. Há anos que isso é evidente, embora a comunicação social passe ao lado desse facto grave que se passa num partido político com um lugar no quadro parlamentar e não só.
Recentemente, o “grande líder” Louçã, anunciou a sua retirada, depois de ter ignorado um enorme fracasso eleitoral e ter passado ele próprio uma esponja sobre as suas responsabilidades, fugindo ao debate com os seus “camaradas”. Louça passou mais de uma década a clamar uma democracia para o País que ele recusava aos seus seguidores. Nunca me dei conta da comunicação social portuguesa lho perguntar, o questionar ou mesmo o perseguir com essa questão, como se faz aos partidos da direita, do centro direita e mesmo do centro esquerda. Louçã, ao anunciar a sua retirada, anunciou quem o substituiria. Obedientemente, sem questão e sem reportagens insidiosas e carregadas de “bocas opinativas” como hoje é moda nas peças ditas “jornalísticas” televisivas, a comunicação social, abriu as portas para o senhor e a senhora “mandatados” por Louçã para o substituir. À cubana, TV’s, rádios e jornais, aceitaram como sucessores os “indicados” pelo “grande chefe”.
Ontem, as críticas de Daniel Oliveira foram objectivas e não obtiveram resposta razoável, refletindo aquilo que a passar-se no PSD, no PS ou no CDS seria classificado de “escândalo” e daria aso à reportagem “atrevida” dos pés de microfone que viajam atrás de alguns políticos repetindo chavões e perguntas feitas.
Contudo, apesar do mediatismo de Daniel Oliveira e da gravidade do que está em causa para os militantes do que ainda há pouco tempo era o 3º partido português, as suas críticas ficaram na gaveta das agendas das redações (salvo raras excepções). As leves referências ao assunto foram sobrepostas por peças elogiosas ao imaculado percurso político de Louçã. “O grande chefe” nunca sai derrotado. Aliás, nunca sai nem se demite, a sua presença é mais necessária noutro local. Veremos em que ecrã(s) é esse local.

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quinta-feira, 25 de outubro de 2012

A "gordurinha" dos Magistrados

Esta notícia ilustra na perfeição o espírito do protesto em Portugal. Ainda há tempos li um editorial particularmente oportuno num jornal de economia, intitulado “Cortes na despesa. Aqui não”. Pois este caso dos Magistrados do Ministério Pú
blico é, antes de mais, paradigmático do discurso permanente do “é preciso cortar nas gorduras” mas que, uma vez aplicado à porta da nossa casa ou mesmo no nosso jardim, passa a ser “isto é um roubo”.
Mas este caso é ainda mais do que isso. É que, pelos vistos, os Magistrados não são apenas privilegiados em muitos aspetos em relação à maioria dos portugueses e mesmo dos funcionários públicos – e provavelmente está bem que o sejam –, como têm dirigentes sindicais manhosos.
Ora, perante a eminência de um acordo com o Governo para que a “gordurinha” dos transportes à borla não lhes seja cortada, não apenas ficam contentes, como ainda “avisam a malta” para estar calada. A ver se isto passa despercebido ao país… aos outros “gordos e magros”, aos pobres, aos injustiçados.
Das duas uma: ou os transportes à borla para os Magistrados são de facto de importância fundamental para o desempenho das suas funções ou não são. O que os sindicalistas que representam os Magistrados nos dizem com esta mensagem enviada aos seus associados é que não são fundamentais. Que se trata mesmo de uma gordura que ninguém entenderia que não fosse cortada. Só assim se percebe a necessidade do silêncio, garantido o interesse das suas barriguinhas em detrimento do País ignorante.

domingo, 21 de outubro de 2012

Soudbites e superficialidade na comunicação a propósito do ranking das escolas

Há fenómenos da comunicação que nos devem fazer refletir. Há uns anos, quando o Ministério da Educação – e bem – regressou a uma lógica de exames nacionais, choveram críticas. Dizia-se que o trabalho dos alunos seria resumido a duas horas e que se violava o princípio da avaliação contínua. Na comunicação social, não víamos quase ninguém a defender os exames. Hoje, a mesma comunicação social classifica, sem pudor, as escolas em rankings pelos resultados dos exames – sem mais. Os jornais chamam às manchetes o assunto e as televisões fazem reportagens sobre “as melhores e as piores escolas do país”. Ainda há pouco vi uma reportagem na TVI sobre “A melhor escola do país”, dito e escrito assim em oráculo. Nem sequer duvido que o Colégio do Rosário, no Porto, seja o melhor do país, mas confunde-me que um jornalista, um editor, uma direção de uma televisão, sem crítica e sem espírito crítico, aceite cair em tamanha simplificação de critérios e que o Ministério da Educação não tenha nada a dizer sobre o assunto. O que será um bom estabelecimento de ensino? Aquele que ajuda a recuperar alunos de 4 para 10 e torna os “condenados” do sistema em alunos com aproveitamento mínimo, ou aquele que pré-seleciona os seus alunos, apertando o crivo da admissão e, quando algum falha, o manda embora, não chegando a sujeitá-lo a exame? Não sei se isso acontece no Colégio do Rosário, mas acontece em muitos outros muito bem classificados no mesmo ranking, tornando a comparação entre eles, pela simples classificação média dos exames, um indicador, mas não mais do que isso. Como pode uma escola pública, a quem não é permitido rejeitar alunos ou obriga-los a explicações extra e fora da escola e mesmo sugerir a sua saída a meio do ano, concorrer num mesmo ranking de resultado de exame com as escolas privadas? A injustiça desta classificação, que deveria ser apenas um indicador e nunca servir como base para se poder dizer que “esta escola é melhor do que a outra”, está em todos os jornais e em todos os ecrãs de TV. E é apenas um exemplo da forma ligeira e irresponsável como a comunicação social hoje cai em chavões de comunicação tão primários que apenas são possíveis porque o espírito crítico dos jornalistas e dos seus diretores parece hoje esgotado numas quantas lutas de classe e interesses pessoais. O mais curioso é que leio e oiço muitos jornalistas diabolizarem os “spins”, como hoje se apelidam. O que não os vejo é fugirem aos seus mais descalços “soundbites” e às mais suas primárias rasteiras.


sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Olha para o que eu digo

Quase todos os ex-ministros das finanças criticam o atual ministro das finanças. Todos acham que o objetivo de redução do défice está a ser exagerado e que não é exequível. Respeito as suas opiniões mais do que a minha, como é evidente. Mas, na ausência de soluções alternativas nos discursos de todos eles, tenho que ser levado a acreditar que defendam que Gaspar faça o que todos eles fizeram: aldrabar as contas do orçamento, empolando receita e subestimando despesa; desorçamentar custos através de expedientes informais ou formais e, finalmente, fazer batota com receitas extraordinárias e irrepetíveis. Ou seja, a "solução" que nos levou a um défice insuportável, a uma dívida pública impossível de pagar, a crescimentos residuais e às atuais medidas de emergência. Ou já se esqueceram das filas de devedores à porta das finanças, em vésperas de ano novo, nos tempos de Manuela Ferreira Leite?


quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Seguro nos seus tempos de silêncio remunerado

François Hollande disse ontem que Portugal está a pagar os erros dos outros, referindo-se aos outros países, oferecendo “solidariedade”. António José Seguro apressou-se a concordar e aplaudir, afirmando que anda há um ano a dizer o mesmo. O
ra, assim, de forma indireta, Seguro acaba de passar uma esponja nas “nossas” próprias culpas, designadamente, nas recentes culpas. Falando claro, António José seguro, que passou seis anos num profundo e remunerado silêncio na última fila da bancada parlamentar do PS, não acha que a duplicação da nossa dívida pública nos seis anos de governação de Sócrates tenha alguma coisa a ver com a situação em que estamos. Um bom princípio para quem quer ser Primeiro-Ministro. Ou não quer? E já agora, se concorda com Hollande e até frequenta o Eliseu, seria bom que esclarecesse o que o presidente francês entende por “solidariedade”. É que se forem só palavras – como a sua “agenda para o crescimento” – e não vier acompanha 
de um chequezito, dispensamos bem a sua solidariedade.



terça-feira, 16 de outubro de 2012

Não tendo nunca votado em Sócrates, posso-me arrepender disso. O que não posso é arrepender-me de alguma vez o ter feito. O que deve ser horrível.

Ao contrário da maioria dos portugueses, eu nunca votei no Sócrates. Aliás, nunca votei no PS. Arrependo-me muito. Porque, na verdade, se tivesse votado no Sócrates hoje estaríamos bem. Se tivesse votado em Sócrates, além da melhor rede de auto-estradas da Europa – muitas à borla, como lhe ensinou Guterres – teríamos também as melhores escolas do Mundo, com mármores e ar condicionado de luxo. Aliás, uma parte delas é assim. Outra parte não, porque Sócrates foi embora em 2011. Também teríamos a melhor indústria automóvel do Mundo. Lembro-me como numa penada e em mais um anúncio mediático, despejou mil milhões para formação neste setor. Não sei onde estão. Teríamos igualmente um défice fantástico, mas isso não interessa, porque teríamos também TGV Lisboa-Porto, TGV Porto-Vigo, TGV Lisboa-Poceirão e TGV Poceirão-Espanha. Teríamos ainda um aeroporto internacional em Alcochete, bem pertinho do Freeport e um túnel por baixo do Tejo e mais uma ponte para o TGV passar o rio. Teríamos base logística na Ota, para compensar a perda, e várias auto-estradas paralelas entre Lisboa e Porto, para passar em todos estes lugares. Além de Beja, outras cidades do interior teriam aeroportos maravilhosos, lindos, também com mármores e outras coisas luxuosas. O mais incrível é que com um simples PCE4, Sócrates teria resolvido todo o endividamento provocado pelo que fez e pelo que ainda iria fazer. A dívida soberana não seria hoje nem dos 80 mil milhões com que entrou nem dos 170 mil milhões que nos deixou quando saiu. A dívida externa, na verdade, não seria nenhuma, pois não a teríamos pago. Se eu tivesse votado em Sócrates, talvez António José Seguro, continuasse calado na última fila da bancada do PS, onde secretamente continuaria a ganhar o seu ordenado de deputado e isso era muito bom, pois escusava de o ouvir. Talvez, se eu não tivesse acreditado que Manuela Ferreira Leite tinha razão em 2009 – ao contrário da maioria dos portugueses –, pudesse ter ajudado Sócrates a ter maioria nessas eleições e ainda hoje governasse, com Lino, Campos e Teixeira dos Santos. Talvez ninguém tenha razão numa casa onde não há pão. Mas eu, mesmo não tendo nunca votado em Sócrates, posso-me arrepender disso. O que não posso é arrepender-me de alguma vez o ter feito. O que deve ser horrível.

 

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Serviço Público, RTP e Eleições nos Açores


Com o "like" de alguns jornalistas da RTP, escrevi neste espaço há uns tempos, com justiça e sinceridade, que o trabalho da RTP Madeira aquando dos incêndios naquela ilha foi notáv el. Em particular, elogiei uma jornalista "pivot" que durante horas sustentou a emissão que foi transmitida - e bem - em simultâneo para a RTPi. Não o fiz, mas o mesmo poderia ter dito de muitos jornalistas da RTP Açores que trabalharam aquando da passagem de uma tempestade, trabalho também transmitido em direto pela RTPi. "Serviço Público", disseram então os interessados na manutenção da atual RTP, pública e deficitária. Assim se justificava – liam nas minhas palavras - que tudo valia a pena.

Ora, para meu espanto, hoje assisti na mesma RTPi a uma reportagem sobre as eleições Regionais dos Açores, nomeadamente a propósito visita do vice-presidente do PSD à Região, sendo a jornalista uma "enviada" desde a RTP... do Porto

 Eu, que quase me rendia perante bons relatos de fogos e vendavais à necessidade da manutenção de tão importantes bastiões do serviço público televisivo nas Ilhas - e acho mesmo que é importante - fiquei perplexo com esta opção da RTP de enviar jornalistas onde eles já existem, como se os segundos fossem incapazes. Se o serviço público é importante e se é importante para o serviço público manter a RTP na esfera do Estado - e são coisas muito diferentes -, então que parem de nos dar razão para acharmos que há esbanjamento e exagero na forma como, a título de serviço público, se comentem disparates que apenas podem dar razão aos que não o defendem.

E já agora, também ajudava ao discurso se o jornalista Hélder Conduto não voltasse ao Brasil só para entrevistar um jogador de futebol.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

O carro de Cristiano Ronaldo, a direita liberal, o comunismo soviético e o pecado da hipocrisia


Era bom que em Portugal conseguíssemos decidir rapidamente se afinal queremos adotar um modelo marxista-leninista, ao estilo União Soviética ou se, de uma vez por todas, nos rendemos aos males (menores) do capitalismo. Mas, a não queremos o capitalismo, ainda assim, prefiro que então se escolha o comunismo, porque o pior de tudo é a hipocrisia.

E é de hipocrisia que temos vivido, quer política quer socialmente em Portugal. Uns fingem que gostam do Estado Social ao mesmo tempo que o ferem de morte pela falência. Outros fingem-se da direita liberal, ao mesmo tempo que procuram matar o mérito e o sucesso que o liberalismo deveria premiar mas que os “nossos liberais” abafam por via de uma dízima desproporcionada e castradora do sucesso.

Vem isto a propósito da delicada situação política que só é delicada porque não há dinheiro e que, em boa verdade, não chega a ser política porque nem a esquerda consegue ser a esquerda social que apregoa, nem a direita pode ser a direita liberal que gostaria de ser. Resta, por isso, a hipocrisia. A hipocrisia dos que mais ganham e mais pagam e falsamente saem à rua para lutar contra o desemprego e contra a pobreza, com os seus iPhones no bolso, quando na verdade apenas lutam pelo seu subsídio perdido que outrora lhes dava umas férias mais longas nas Caraíbas. À hipocrisia destes, junta-se a dos que se habituaram a chupar o sistema, em esquemas vários de delapidação do Estado, dos bens públicos e dos subsídios, rendimentos, rendas, parcerias e coisas quejandas, que brotam tanto nas elites como em boa parte dos milhares de lares em bairros onde se estacionam Mercedes à porta de blocos de apartamentos “sociais” construídos às custas… do Estado.

A hipocrisia, portanto – e não a política, a ideologia e nem sequer a Troika – governa Portugal. Digo “governa” porque a verdade mais dura é que, como dizia a música no 25 de Abril, “o povo é quem mais ordena”. E é! Continua a ser assim! Quem fez esta classe política foi o povo e não o contrário, como às vezes hipocritamente queremos convencer-nos.

Pode parecer vir a despropósito, mas hoje, a chegada dos jogadores milionários do Real Madrid ao estágio da Seleção de Futebol fez-se num VW Golf, modesto e mal limpo. De lá de dentro saíram, sarcásticos, Cristiano Ronaldo, Fábio Coentrão e Pepe. O melhor jogador do Mundo, o melhor lateral da Europa e o melhor central do Mundo. Os mesmos que ainda há dois ou três meses eram criticados por terem chegado nos seus Ferrari ao estágio da Seleção. Chegam agora num modesto VW, o “carro do povo”. Ironia? Talvez! Eu vejo o ato de aparente humildade como uma tremenda hipocrisia. Não dos três que, certamente, se riram e divertiram bem mais no VW – e por causa do VW – durante o caminho desde o aeroporto, do que certamente todos nós. A hipocrisia é a nossa, de querer vê-los num carro parecido com o nosso.

Mas a verdade é só uma: Ronaldo, Coentrão e Pepe merecem mais do que transportar-se num Golf e, sobretudo, merecem mais do que um país que os obriga a fingirem-se de pobres, como se vivessem no velho sistema soviético de Brejnev. Na sociedade em que eu quero viver todos podemos ter um Ferrari, um Bentley e muito mais, desde que façamos o mesmo que Ronaldo, com a sua habilidade, força, rasgo, competência e muito, muito trabalho, sabe fazer. Uma sociedade livre, liberal, democrática e recompensadora do mérito. Não uma sociedade comunista, mesquinha e invejosa. Uma sociedade justa é aquela que sabe recompensar os melhores e simultaneamente apoiar os incapazes. Não é a que procura atingir a inatingível equidade, hipotecando a recompensa e amesquinhando o mérito.

Deixo por isso aqui a minha declaração política e ideológica: eu quero viver num país onde o melhor jogador do Mundo se possa transportar no carro que quiser e também quero que o Primeiro-Ministro do meu país se transporte num Mercedes ou BMW topo de gama. Em segurança e com a dignidade de um Primeiro-Ministro. Também quero – melhor, exijo – é que o primeiro saiba honrar a camisola da Seleção quando a veste em campo e o segundo governe com competência e lisura. Quanto ao resto, e já agora, que me deixem viver numa sociedade onde o mérito não seja apenas instrumento de confisco… monetário e social, pelo Estado e pela má-língua.

 

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

10 mil milhões de razões para nos sentirmos melhor

Portugal trocou hoje Obrigações do Tesouro (dívida) contraídas por Sócrates. São quase 10 mil milhões de euros que o estudante parisiense foi buscar aos mercados em 2008. Quatro anos depois, este Governo conseguiu passar o pagamento para 2015 (venciam este ano), baixando a taxa de 5,45% para 3,35%. Isto levanta-me uma questão e uma constatação.

Questão: onde foram aplicados esses 10 mil milhões de euros que Sócrates, Teixeira dos Santos, Mário Lino, Paulo Campos e companhia foram buscar?
Constatação: mesmo sob assistência financeira e com manifs de um milhão na rua, Portugal tem hoje mais crédito no estrangeiro do que tinha em 2008.

Quanto à questão, o mais que posso esperar é que tenham sido esbanjados em mármores e ar condicionado de luxo em escolas públicas de luxo e auto-estradas inúteis em todo o país. O pior que posso esperar é que as investigações em curso acabem por nos dar explicações mais macabras.


terça-feira, 2 de outubro de 2012

O Futurjornalismo da SIC

Fantástico! Jornalista da SICN, logo no início do programa "Opinião Pública", fez um "resumo do que os telespetadores poderão vir a dizer durante o programa".
E o que, segundo o seu resumo das declarações futuras, os telespetadores poderão vir a dizer? Dirão que o Governo deveria ter anunciado as novas medidas aos portugueses antes de discuti-las com Bruxelas.
Ora, gostava eu de saber o que aconteceria se o Governo anunciasse medidas que não discutiu com Bruxelas e que estas viessem, depois, a ser chumbadas... penso que até esta jornalista da SIC adivinharia que os seus telespetadores, resumidamente, pediriam a demissão do Governo!

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

O paradigma perdido

Em Setúbal, a Câmara liderada pela comunista Maria das Dores Meira passou a cobrar uma nova taxa, respeitante à "proteção civil". O novo imposto visa, segundo a Câmara, garantir o financiamento de um serviço público... relacionado com segurança. Esta descoberta comunista em Setúbal (que os serviços públicos são financiados com impostos e quando os impostos não chegam para os financiar é preciso subi-los ou mesmo - com engenho - inventar outros novos) vem mudar o paradigma político português. Afinal, estamos todos de acordo, mesmo aquela parte de nós comunista que, ainda há dias, gritava em frente à Assembleia da República. Em Setúbal, as contas são para pagar, as dívidas (enormes) da Autarquia são para cumprir e não para renegociar. E quem, ao fim ao cabo, paga a fatura (tal e qual preconizam esses neo-liberais que estão no Governo), também é o mexilhão. Mesmo que o mexilhão de Setúbal seja particularmente desempregado e particularmente contestatário. E viva a democracia!

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Vergonha

Quando pensamos que os sucessivos títulos do Porto não têm tornado a marca FCP tão forte quanto devia - num claro desacerto entre o sucesso desportivo e o valor da sua marca; quando pensamos que apesar das vitórias o clube continua a apresentar prejuízos e a ver-se no desespero de vender para se manter vivo, deveríamos questionar porquê. Eu tenho uma explicação. Na sede de ganhar, o Porto está a matar a galinha. Já ninguém acredita no que se passa em campo nem ninguém vê qualquer relação entre os pontos conquistados e o mérito desportivo. Admirem-se se os estádios andam vazios e que não haja em Portugal uma única televisão em canal aberto interessada nos direitos televisivos. A verdade é que já quase ninguém está interessado em pagar para ver vergonhas que já nem sequer são subtis. Para mim, está feito, entreguem já as taças e acabem com a palhaçada, porque já nem como negócio isto funciona, nem para o Porto nem para ninguém.



sábado, 8 de setembro de 2012

A equidade do PS

Não espero que o Bloco de Esquerda, PCP ou sindicalistas radicais entendam ou procurem soluções para os problemas orçamentais. Sabem que nunca serão Governo. Podem dizer o que quiserem. Mas ao PS, que nos levou à bancarrota e pediu a ajuda externa, deve exigir-se que diga o que faria perante a decisão do Tribunal Constitucional. Devolveria os subsídios aos funcionários públicos e, para cumprir a suposta equidade do TC, manteria também tudo igual para os privados? Se a solução do PS for essa, então pelo menos que nos diga se, quando Portugal estiver de novo na eminência de não ter dinheiro para pagar os vencimentos aos funcionários públicos, pedirá logo uma nova ajuda externa ou se – como fez Sócrates – prolongará a agonia até ao limite do insuportável, agravando ainda mais a situação do País.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Da pena de morte à RTP


Antes de Portugal abolir a pena de morte, nunca a abolição da pena de morte tinha sido aplicada. Assim, de toda a argumentação acerca da solução para a RTP, a menos razoável é a de que nunca foi aplicado um sistema de concessão noutros países. A única coisa que me interessa saber é se com isso se pode garantir (e de que forma) o serviço público e quanto custa. Como cidadão, estou aberto a tudo, menos à solução de pagar 140 milhões em taxas e ainda ver o Estado ter que enterrar 300 milhões (como este ano) para pagar dívidas da RTP. E a questão resume-se a isto e não a quem disse o quê que não deveria ter dito e deveria ter sido outro. À semelhança do que se passa na saúde, nos transportes e na educação, o Estado faliu (alguém o faliu) e há que encontrar soluções, independentemente da contestação corporativa e das resistências. Se a solução da concessão não é boa, expliquem-me porquê e apresentem alternativas igualmente racionais para um país falido, mas não me queiram convencer que o serviço público de radiodifusão é assim tão mais importante e intocável que a educação e a saúde. Muito menos me tentem convencer que serviço público é o "Prós e Contras", programa de "entretenimento" sem escrutínio da Direção de Informação da RTP.


 

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Da tourada à porrada

A esquerda anda sempre às costas com chavões como “tolerância”, “fraternidade”, “diversidade”, “democracia” e “direito à diferença”. Já nem interessa recordar o que a História nos deixou sobre o assunto. Nem o que o presente ainda nos ensina de paragens mais ou menos distantes, como a América do Sul ou o oriente. Há sempre uma forma da esquerda que por cá anda afirmar que a de cá não seria bem igual a essas esquerdas, ditas “democráticas” que ainda governam de forma mais ou menos ditatoriais algumas potências regionais e até mundiais. A esquerda de cá, a que gosta de caviar e a outra mais tradicional, seria diferente, dizem. Mas não é diferente. A única diferença é, de facto, nunca ter chegado ao poder. Vem isto a propósito da tourada em Viana do Castelo. Eu, que nunca vi uma tourada, que não quero ver uma tourada e que não gosto que maltratem animais, considero inaceitável que gente dita “tolerante”, “fraterna”, amiga da diversidade e do direito à diferença tenha ameaçado fisicamente pessoas que, com direito legal, legítimo e democrático, assistiam a uma tourada. Não fosse costume ser assim (foi assim com o aborto e é sempre assim quando estão em causa as ditas “fraturantes”) e quase nos esqueceríamos que os militantes de partidos como o BE ou o PCP nem sequer têm o direito mais elementar das democracias: censurar, escolher, criticar e – ora bem – votar! A sociedade de consumo, o capitalismo, o liberalismo e, pois, o neoliberalismo (seja lá o que isso for), podem ter muitos defeitos e até serem conjunturalmente alvos fáceis, mas pelo menos não obrigam uns a pensar pela cabeça dos outros perante a ameaça de porrada.