terça-feira, 9 de outubro de 2012

O carro de Cristiano Ronaldo, a direita liberal, o comunismo soviético e o pecado da hipocrisia


Era bom que em Portugal conseguíssemos decidir rapidamente se afinal queremos adotar um modelo marxista-leninista, ao estilo União Soviética ou se, de uma vez por todas, nos rendemos aos males (menores) do capitalismo. Mas, a não queremos o capitalismo, ainda assim, prefiro que então se escolha o comunismo, porque o pior de tudo é a hipocrisia.

E é de hipocrisia que temos vivido, quer política quer socialmente em Portugal. Uns fingem que gostam do Estado Social ao mesmo tempo que o ferem de morte pela falência. Outros fingem-se da direita liberal, ao mesmo tempo que procuram matar o mérito e o sucesso que o liberalismo deveria premiar mas que os “nossos liberais” abafam por via de uma dízima desproporcionada e castradora do sucesso.

Vem isto a propósito da delicada situação política que só é delicada porque não há dinheiro e que, em boa verdade, não chega a ser política porque nem a esquerda consegue ser a esquerda social que apregoa, nem a direita pode ser a direita liberal que gostaria de ser. Resta, por isso, a hipocrisia. A hipocrisia dos que mais ganham e mais pagam e falsamente saem à rua para lutar contra o desemprego e contra a pobreza, com os seus iPhones no bolso, quando na verdade apenas lutam pelo seu subsídio perdido que outrora lhes dava umas férias mais longas nas Caraíbas. À hipocrisia destes, junta-se a dos que se habituaram a chupar o sistema, em esquemas vários de delapidação do Estado, dos bens públicos e dos subsídios, rendimentos, rendas, parcerias e coisas quejandas, que brotam tanto nas elites como em boa parte dos milhares de lares em bairros onde se estacionam Mercedes à porta de blocos de apartamentos “sociais” construídos às custas… do Estado.

A hipocrisia, portanto – e não a política, a ideologia e nem sequer a Troika – governa Portugal. Digo “governa” porque a verdade mais dura é que, como dizia a música no 25 de Abril, “o povo é quem mais ordena”. E é! Continua a ser assim! Quem fez esta classe política foi o povo e não o contrário, como às vezes hipocritamente queremos convencer-nos.

Pode parecer vir a despropósito, mas hoje, a chegada dos jogadores milionários do Real Madrid ao estágio da Seleção de Futebol fez-se num VW Golf, modesto e mal limpo. De lá de dentro saíram, sarcásticos, Cristiano Ronaldo, Fábio Coentrão e Pepe. O melhor jogador do Mundo, o melhor lateral da Europa e o melhor central do Mundo. Os mesmos que ainda há dois ou três meses eram criticados por terem chegado nos seus Ferrari ao estágio da Seleção. Chegam agora num modesto VW, o “carro do povo”. Ironia? Talvez! Eu vejo o ato de aparente humildade como uma tremenda hipocrisia. Não dos três que, certamente, se riram e divertiram bem mais no VW – e por causa do VW – durante o caminho desde o aeroporto, do que certamente todos nós. A hipocrisia é a nossa, de querer vê-los num carro parecido com o nosso.

Mas a verdade é só uma: Ronaldo, Coentrão e Pepe merecem mais do que transportar-se num Golf e, sobretudo, merecem mais do que um país que os obriga a fingirem-se de pobres, como se vivessem no velho sistema soviético de Brejnev. Na sociedade em que eu quero viver todos podemos ter um Ferrari, um Bentley e muito mais, desde que façamos o mesmo que Ronaldo, com a sua habilidade, força, rasgo, competência e muito, muito trabalho, sabe fazer. Uma sociedade livre, liberal, democrática e recompensadora do mérito. Não uma sociedade comunista, mesquinha e invejosa. Uma sociedade justa é aquela que sabe recompensar os melhores e simultaneamente apoiar os incapazes. Não é a que procura atingir a inatingível equidade, hipotecando a recompensa e amesquinhando o mérito.

Deixo por isso aqui a minha declaração política e ideológica: eu quero viver num país onde o melhor jogador do Mundo se possa transportar no carro que quiser e também quero que o Primeiro-Ministro do meu país se transporte num Mercedes ou BMW topo de gama. Em segurança e com a dignidade de um Primeiro-Ministro. Também quero – melhor, exijo – é que o primeiro saiba honrar a camisola da Seleção quando a veste em campo e o segundo governe com competência e lisura. Quanto ao resto, e já agora, que me deixem viver numa sociedade onde o mérito não seja apenas instrumento de confisco… monetário e social, pelo Estado e pela má-língua.

 

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

10 mil milhões de razões para nos sentirmos melhor

Portugal trocou hoje Obrigações do Tesouro (dívida) contraídas por Sócrates. São quase 10 mil milhões de euros que o estudante parisiense foi buscar aos mercados em 2008. Quatro anos depois, este Governo conseguiu passar o pagamento para 2015 (venciam este ano), baixando a taxa de 5,45% para 3,35%. Isto levanta-me uma questão e uma constatação.

Questão: onde foram aplicados esses 10 mil milhões de euros que Sócrates, Teixeira dos Santos, Mário Lino, Paulo Campos e companhia foram buscar?
Constatação: mesmo sob assistência financeira e com manifs de um milhão na rua, Portugal tem hoje mais crédito no estrangeiro do que tinha em 2008.

Quanto à questão, o mais que posso esperar é que tenham sido esbanjados em mármores e ar condicionado de luxo em escolas públicas de luxo e auto-estradas inúteis em todo o país. O pior que posso esperar é que as investigações em curso acabem por nos dar explicações mais macabras.


terça-feira, 2 de outubro de 2012

O Futurjornalismo da SIC

Fantástico! Jornalista da SICN, logo no início do programa "Opinião Pública", fez um "resumo do que os telespetadores poderão vir a dizer durante o programa".
E o que, segundo o seu resumo das declarações futuras, os telespetadores poderão vir a dizer? Dirão que o Governo deveria ter anunciado as novas medidas aos portugueses antes de discuti-las com Bruxelas.
Ora, gostava eu de saber o que aconteceria se o Governo anunciasse medidas que não discutiu com Bruxelas e que estas viessem, depois, a ser chumbadas... penso que até esta jornalista da SIC adivinharia que os seus telespetadores, resumidamente, pediriam a demissão do Governo!

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

O paradigma perdido

Em Setúbal, a Câmara liderada pela comunista Maria das Dores Meira passou a cobrar uma nova taxa, respeitante à "proteção civil". O novo imposto visa, segundo a Câmara, garantir o financiamento de um serviço público... relacionado com segurança. Esta descoberta comunista em Setúbal (que os serviços públicos são financiados com impostos e quando os impostos não chegam para os financiar é preciso subi-los ou mesmo - com engenho - inventar outros novos) vem mudar o paradigma político português. Afinal, estamos todos de acordo, mesmo aquela parte de nós comunista que, ainda há dias, gritava em frente à Assembleia da República. Em Setúbal, as contas são para pagar, as dívidas (enormes) da Autarquia são para cumprir e não para renegociar. E quem, ao fim ao cabo, paga a fatura (tal e qual preconizam esses neo-liberais que estão no Governo), também é o mexilhão. Mesmo que o mexilhão de Setúbal seja particularmente desempregado e particularmente contestatário. E viva a democracia!

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Vergonha

Quando pensamos que os sucessivos títulos do Porto não têm tornado a marca FCP tão forte quanto devia - num claro desacerto entre o sucesso desportivo e o valor da sua marca; quando pensamos que apesar das vitórias o clube continua a apresentar prejuízos e a ver-se no desespero de vender para se manter vivo, deveríamos questionar porquê. Eu tenho uma explicação. Na sede de ganhar, o Porto está a matar a galinha. Já ninguém acredita no que se passa em campo nem ninguém vê qualquer relação entre os pontos conquistados e o mérito desportivo. Admirem-se se os estádios andam vazios e que não haja em Portugal uma única televisão em canal aberto interessada nos direitos televisivos. A verdade é que já quase ninguém está interessado em pagar para ver vergonhas que já nem sequer são subtis. Para mim, está feito, entreguem já as taças e acabem com a palhaçada, porque já nem como negócio isto funciona, nem para o Porto nem para ninguém.



sábado, 8 de setembro de 2012

A equidade do PS

Não espero que o Bloco de Esquerda, PCP ou sindicalistas radicais entendam ou procurem soluções para os problemas orçamentais. Sabem que nunca serão Governo. Podem dizer o que quiserem. Mas ao PS, que nos levou à bancarrota e pediu a ajuda externa, deve exigir-se que diga o que faria perante a decisão do Tribunal Constitucional. Devolveria os subsídios aos funcionários públicos e, para cumprir a suposta equidade do TC, manteria também tudo igual para os privados? Se a solução do PS for essa, então pelo menos que nos diga se, quando Portugal estiver de novo na eminência de não ter dinheiro para pagar os vencimentos aos funcionários públicos, pedirá logo uma nova ajuda externa ou se – como fez Sócrates – prolongará a agonia até ao limite do insuportável, agravando ainda mais a situação do País.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Da pena de morte à RTP


Antes de Portugal abolir a pena de morte, nunca a abolição da pena de morte tinha sido aplicada. Assim, de toda a argumentação acerca da solução para a RTP, a menos razoável é a de que nunca foi aplicado um sistema de concessão noutros países. A única coisa que me interessa saber é se com isso se pode garantir (e de que forma) o serviço público e quanto custa. Como cidadão, estou aberto a tudo, menos à solução de pagar 140 milhões em taxas e ainda ver o Estado ter que enterrar 300 milhões (como este ano) para pagar dívidas da RTP. E a questão resume-se a isto e não a quem disse o quê que não deveria ter dito e deveria ter sido outro. À semelhança do que se passa na saúde, nos transportes e na educação, o Estado faliu (alguém o faliu) e há que encontrar soluções, independentemente da contestação corporativa e das resistências. Se a solução da concessão não é boa, expliquem-me porquê e apresentem alternativas igualmente racionais para um país falido, mas não me queiram convencer que o serviço público de radiodifusão é assim tão mais importante e intocável que a educação e a saúde. Muito menos me tentem convencer que serviço público é o "Prós e Contras", programa de "entretenimento" sem escrutínio da Direção de Informação da RTP.


 

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Da tourada à porrada

A esquerda anda sempre às costas com chavões como “tolerância”, “fraternidade”, “diversidade”, “democracia” e “direito à diferença”. Já nem interessa recordar o que a História nos deixou sobre o assunto. Nem o que o presente ainda nos ensina de paragens mais ou menos distantes, como a América do Sul ou o oriente. Há sempre uma forma da esquerda que por cá anda afirmar que a de cá não seria bem igual a essas esquerdas, ditas “democráticas” que ainda governam de forma mais ou menos ditatoriais algumas potências regionais e até mundiais. A esquerda de cá, a que gosta de caviar e a outra mais tradicional, seria diferente, dizem. Mas não é diferente. A única diferença é, de facto, nunca ter chegado ao poder. Vem isto a propósito da tourada em Viana do Castelo. Eu, que nunca vi uma tourada, que não quero ver uma tourada e que não gosto que maltratem animais, considero inaceitável que gente dita “tolerante”, “fraterna”, amiga da diversidade e do direito à diferença tenha ameaçado fisicamente pessoas que, com direito legal, legítimo e democrático, assistiam a uma tourada. Não fosse costume ser assim (foi assim com o aborto e é sempre assim quando estão em causa as ditas “fraturantes”) e quase nos esqueceríamos que os militantes de partidos como o BE ou o PCP nem sequer têm o direito mais elementar das democracias: censurar, escolher, criticar e – ora bem – votar! A sociedade de consumo, o capitalismo, o liberalismo e, pois, o neoliberalismo (seja lá o que isso for), podem ter muitos defeitos e até serem conjunturalmente alvos fáceis, mas pelo menos não obrigam uns a pensar pela cabeça dos outros perante a ameaça de porrada.

O tubarinho

Após a enorme frustração jornalística que constituiu o furacão Gordon e já que no Algarve não há, ao menos, uma derrocada que abafe três ou quatro turistas, há que alimentar a “silly season” com o tubarão da praxe. A notícia andou aí espalhada pelos jornais e tvs, mas o ponto alto foi quando hoje, em prime-time televisivo à hora de almoço, vejo em oráculo a informação “tubarão avistado a dois metros da linha de costa”. Os depoimentos que se seguiram são do mais ridículo a que tenho assistido nos últimos anos em matéria de informação televisiva supostamente séria. Fez-me rir, mas falta saber por que razão, mesmo em tempo de férias, não há um diretor, um editor ou mesmo um contínuo com um pingo de bom senso na estação capaz de evitar que aquilo fosse para o ar. Não fosse com dois berros vindos de cima para baixo, fosse simplesmente puxando uma ficha que desligasse a máquina da informação (chamemos-lhe assim).

sábado, 18 de agosto de 2012

Campeonato começa torto

Há dois ou três anos, na sequência de uma arbitragem desastrosa num jogo do Campeonato Nacional de Futebol, escrevi um post em que afirmei que iria naquele instante suspender a minha assinatura SportTV. E fiz. Anos depois, o campeonato começou sem que eu tenha assinatura da SportTV. Ainda assim, vi o jogo de hoje do Benfica. Depois de uma partida que até poderia considerar-se emocionante, o Benfica marcou um golo limpo que o árbitro invalidou. Ao mesmo tempo, leio que nenhum dos canais de TV em sinal aberto está interessado em comprar o jogo por jornada que até à temporada passada era exibido além da SportTV. Aproveito os dois factos para, interligando-os, reafirmar o que ando há anos a dizer: se o público não entender que há verdade desportiva no jogo, desinteressa-se. Pode um qualquer dirigente desportivo achar que a sua equipa sai a ganhar dos “enganos”, dos “erros” e de outras coisas que inclinam o campo (involuntária ou voluntariamente) quase sempre para o mesmo lado. Mas, no fim, perdem todos. Quem perdeu hoje mais pontos não foi o Benfica. Foi o futebol. E, numa altura em que clubes como o Benfica ou dirigente como o presidente da Liga reclamam mais valor para os direitos televisivos, melhor seria se pensassem primeiro em valorizá-los. Apenas há público se houver pelo menos a sensação de que o resultado não está feito ou fortemente condicionado, seja pelos senhores de preto, seja por quem insiste em recusar meios tecnológicos.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Bombeiros: abnegação ou amadorismo?

Acho que todos os anos escrevo sobre isto algures. Este ano volto a lembrar que o principal flagelo do país (a catástrofe anual e certa dos incêndios florestais) continua a ser combatida por amadores, que roubam às suas vidas e profissões, alguns dias por ano para ajudar o bem comum. Sem lhes retirar mérito, a verdade é que o sistema está errado. Se há serviço que deveria ser profissional era o do combate e prevenção aos incêndios. Infelizmente, todos os anos assistimos a dez meses de gastos sumptuosos e desnecessários com corporações muitas vezes viciadas em estranhos esquemas onde entra de tudo (sobretudo o pequeno poder local) e onde o interesse público é mínimo. Depois, há dois meses de pânico, descoordenação, falta de profissionalismo e muita abnegação, que culmina numa dupla tragédia: a tragédia dos incêndios, em si, a que se junta a tragédia dos bombeiros que morrem, muitas vezes fruto de acidentes de viação. Conduzir de forma profissional não é a mesma coisa que conduzir o nosso carro em circunstâncias normais. A esmagadora maioria dos bombeiros nunca teve aulas específicas de condução em alta velocidade e/ou em condições extremas de visibilidade, estradas de terra e, sobretudo, em condições de peso excessivo, como acontece num auto-tanque. Mas este exemplo do que se passa na estrada é apenas um exemplo que serve para ilustrar uma vez mais esta realidade: combatemos o nosso principal flagelo com amadorismo sustentado em corporações que mais não são do que extensões político-partidárias ou sociais e paroquiais, obedecendo a lógicas que muito pouco têm a ver com o interesse público.

terça-feira, 17 de julho de 2012

Os serviços em Portugal são uma merda

Costumo imprimir as minhas fotos na Sempre, ali para o lado das Antas. Contudo, há dias, por uma questão de facilidade, fiz num shopping. Fui a três lojas.

1ª Loja: Entro. A loja não tem clientes. Tem dois funcionários. Uma está de pé a arrumar umas molduras numa prateleira. Ele sentado ao balcão. Digo “boa tarde”. Ninguém responde. Dirijo-me a uma máquina com o cartão de memória, mas a máquina não funcionava. Antes de me dirigir a outra, vou ao balcão e pergunto: “as máquinas estão a funcionar”. Sem levantar os olhos o empregado diz “sim, se uma não der tente outra”. Volta às máquinas. A segunda leu o cartão, mas era muito lenta. Apesar da demora, nenhum se move. Tiro o cartão e atravesso a loja para ir embora. Nenhum faz nada. Digo “boa tarde”. Nenhum responde.

2ª Loja: Vou ao balcão. Nenhum funcionário, vários clientes. Dirijo-me a uma máquina, introduzo o cartão. A máquina não funciona. Chega, entretanto, empregado. Pergunto se a máquina está a funcionar. Diz-me que está “meio-avariada” que faça na outra. Estão três pessoas à minha frente na outra, tendo entrado depois de mim. “Tem que esperar”. Saio. Ninguém diz nada.

3ª Loja: entro e sou confrontado com um “boa tarde” – que saudades eu tinha de uma “boa tarde”. Uma menina tenta ajudar. A loja não tem mais clientes. Lido o cartão, escolhidas as fotos e formatos, pedem-me 40 minutos. Regresso à hora e entregam-me as fotos. Nas ampliações, uma cabeça e um ombro cortados. Chamo a atenção. Dizem-me: “aqui não olhamos para as fotos. É tudo centrado, entra de um lado, sai do outro”. Expliquei à menina que fazer isso sem perceber que cortar a cabeça a uma pessoa não é um bom serviço. Contrariada, repete a foto. Mas engana-se no papel que passa a ser mate em vez de brilhante.

Conclusão 1: Portugal deixou de produzir bens transacionáveis, dedicando-se aos serviços. E, nos serviços, Portugal é uma merda. Quem disser o contrário está iludido. As exceções – como a da Sempre, onde faço as minhas fotos – apenas servem para confirmar a regra.

Conclusão 2: não perceber que numa fotografia a uma pessoa a cabeça é mais ou menos importante é como achar que é possível comer um MacDonalds sem guardanapo (ver post anterior).

Os guardanapos do MacDonalds


É raro ir ao MacDonalds. É caro e a comida não é saudável, embora goste dos hamburguers deles. Mas, das últimas vezes que lá fui (loja do Norteshoping) não me colocaram guardanapo no tabuleiro. É chato, porque depois de sentado e pousadas as coisas é que concluo que não tenho guardanapo e sou obrigado a levantar para ir buscar. Da última vez, perguntei porque não me davam guardanapo, tendo-me dito que era nova política da casa. Ora, pergunto como é possível comer um hamburguer sem guardanapo? A fast-food é para ser "fast", mas não consigo entender o que isso tem a ver com guardanapos. Será assim tão complicado o gesto de colocar os ditos no tabuleiro? Ou será que com isso poupam uns cêntimos nas pessoas que, já estando sentadas, resolvem comer algo que não deixa de ter o seu quê de nojento com as mão e depois, pensarão eles, limpam às calças? Realmente não sei responder, mas esta crescente noção do comércio de que quanto menos serviço e pior serviço melhor está a acabar de matá-lo, em muitos casos. Comigo, pelo menos, funciona assim e os casos são muitos e não se ficam pelo MacDonalds.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

ADSE para todos, já!

O Tribunal Constitucional deu ontem um mau passo no sentido de fazer com que os portugueses entendam o que se está a passar. E o que se está a passar é simples e vem de há muito. O Estado criou um mostro chamado setor público. Um monstro que tem um elevado grau de inutilidade e que, além do mais, é insustentável. O corte aplicado pelo Governo aos subsídios destes funcionários foi uma forma de repartir por todos os funcionários públicos o sacrifício cada vez mais inevitável para alguns: o desemprego. O Estado não aguenta tanta gente e nem sequer precisa de tanta gente. A alternativa aos cortes gerais aplicados pelo Governo são cortes seletivos como os dos subsídios. Ou seja, a alternativa é despedir 10 ou 15% dos funcionários público. Tudo, porque é preciso cortar na enorme e insustentável despesa do setor público e social. Não nos enganemos, todas as outras despesas e potenciais cortes são despicientes, quando comparados com estes que significam 2/3 da despesa do Estado. Aquilo que se perfila, após a decisão do Tribunal Constitucional, não é que cessem os cortes no setor público e, logo, manter-se-ão os cortes dos subsídios para os funcionários públicos, mas sim a aplicação de uma nova sobretaxa aos privados. Ora, pode aparentemente ser a mesma coisa. Mas não é. Aplicar uma sobretaxa aos privados, aliviando o “sacrifício” dos funcionários públicos, não é equivalente. A primeira é um aumento de receita, a segunda é um corte de despesa. Com uma medida destas, teremos menos dinheiro em circulação nos privados, aumentará a carga fiscal, diminuirá o consumo, cairá também a receita, apesar do sacrifício geral. E, no Estado, no “monstro”, teremos o cancro de novo maior e os despedimentos na função pública cada vez mais próximos e inevitáveis. O Acórdão do Tribunal Constitucional é, pois, possivelmente constitucional, mas constitui-se como uma medida política absolutamente esquizofrénica e totalmente contraditória, por exemplo, àquilo que o Partido Socialista anda a defender. É uma medida recessiva e geradora de desemprego e de aumento da carga fiscal. Mais receita às custas de quem trabalha e menos cortes naquilo que está a mais. É a lógica de que se eu tiver um cancro num braço e tiver que ser amputado, todos os cidadãos deverão ser amputados, por uma questão de igualdade. Mas, se assim é, então estou à espera que o Tribunal Constitucional mande acabar com a ADSE amanhã ou, então, que seja alargada a todos os trabalhadores portugueses.

domingo, 1 de julho de 2012

A lição italiana

A presença da Itália na final do Euro deita ao lixo todas as teorias sobre o futebol. E até sobre o futebol italiano. As condições em que chegou a este campeonato, a inexperiência da maioria dos seus jogadores em fases finais, as constantes mudanças táticas e no onze, demonstram que não há verdades feitas no futebol. Mas não apenas ao nível técnico e tático a Itália é uma lição. Também ao nível disciplinar, poderemos aprender qualquer coisa. Apesar de ter sempre acreditado e apoiado a nossa Seleção, a verdade é que senti lá a falta de um ou dois jogadores. Sobretudo um: Bosingwa. Claro que nada se explica com a sua ausência, por ventura, justificada. E quando Portugal termina nos quatro primeiros (lugar a que pertence pela qualidade dos seus jogadores), não há muito a dizer sobre as escolhas do selecionador. Quando se deu o caso Ricardo Carvalho e Paulo Bento disse “comigo nunca mais”, aceitei como normal a sua decisão. Mas a verdade é que ao ver Balotelli reagir contra o selecionador ao marcar um golo, pensei que o resultado não poderia deixar de ser o afastamento do jogador. Contudo, o selecionador italiano manteve-o na equipa e Balotelli deu ao Euro 2012 no jogo com a Alemanha, dois momentos mágicos e que dificilmente esqueceremos. A Itália ganhou com Balotelli em campo porque o selecionador italiano decidiu deitar para trás das costas um aspeto disciplinar que em qualquer outro jogador de qualquer outra equipa seria inconcebível, mas que nesta anacrónica Itália e a propósito deste estranho jogador, se compreende e aceita. Paulo Bento foi competente e quase perfeito em tudo. Também no aspeto disciplinar. Portugal foi até onde o seu futebol conseguiu ir e, nesse aspeto, nada a dizer. Mas para se ser brilhante, fora de série e ser campeão contra as probabilidades é, quase sempre, necessário um pouco mais. Um pouco de loucura, por ventura; um pouco de arrojo, também; mas sobretudo a capacidade de perceber que, se quisermos pedir aos génios genialidade, temos que saber aceitar e saber gerir as suas loucuras, genialidades, contradições e até as suas manias. Se Itália ganhar o Euro, essa vitória terá muito de Balotelli, bastante do seu selecionador e uma enorme contribuição de Bonucci que, sabiamente, lhe colocou a mão na boca, quando este procurava insultar o seu líder. E é esta a lição que nos deixa a Itália neste campeonato, a lição de que a normalidade é incompatível com a genialidade.