domingo, 1 de julho de 2012

A lição italiana

A presença da Itália na final do Euro deita ao lixo todas as teorias sobre o futebol. E até sobre o futebol italiano. As condições em que chegou a este campeonato, a inexperiência da maioria dos seus jogadores em fases finais, as constantes mudanças táticas e no onze, demonstram que não há verdades feitas no futebol. Mas não apenas ao nível técnico e tático a Itália é uma lição. Também ao nível disciplinar, poderemos aprender qualquer coisa. Apesar de ter sempre acreditado e apoiado a nossa Seleção, a verdade é que senti lá a falta de um ou dois jogadores. Sobretudo um: Bosingwa. Claro que nada se explica com a sua ausência, por ventura, justificada. E quando Portugal termina nos quatro primeiros (lugar a que pertence pela qualidade dos seus jogadores), não há muito a dizer sobre as escolhas do selecionador. Quando se deu o caso Ricardo Carvalho e Paulo Bento disse “comigo nunca mais”, aceitei como normal a sua decisão. Mas a verdade é que ao ver Balotelli reagir contra o selecionador ao marcar um golo, pensei que o resultado não poderia deixar de ser o afastamento do jogador. Contudo, o selecionador italiano manteve-o na equipa e Balotelli deu ao Euro 2012 no jogo com a Alemanha, dois momentos mágicos e que dificilmente esqueceremos. A Itália ganhou com Balotelli em campo porque o selecionador italiano decidiu deitar para trás das costas um aspeto disciplinar que em qualquer outro jogador de qualquer outra equipa seria inconcebível, mas que nesta anacrónica Itália e a propósito deste estranho jogador, se compreende e aceita. Paulo Bento foi competente e quase perfeito em tudo. Também no aspeto disciplinar. Portugal foi até onde o seu futebol conseguiu ir e, nesse aspeto, nada a dizer. Mas para se ser brilhante, fora de série e ser campeão contra as probabilidades é, quase sempre, necessário um pouco mais. Um pouco de loucura, por ventura; um pouco de arrojo, também; mas sobretudo a capacidade de perceber que, se quisermos pedir aos génios genialidade, temos que saber aceitar e saber gerir as suas loucuras, genialidades, contradições e até as suas manias. Se Itália ganhar o Euro, essa vitória terá muito de Balotelli, bastante do seu selecionador e uma enorme contribuição de Bonucci que, sabiamente, lhe colocou a mão na boca, quando este procurava insultar o seu líder. E é esta a lição que nos deixa a Itália neste campeonato, a lição de que a normalidade é incompatível com a genialidade.

terça-feira, 26 de junho de 2012

"Depois de ter ficado com os gravadores, foi nomeado... pelo PS"

Ricardo Rodrigues foi hoje condenado pelos crimes de atentado à liberdade de imprensa e atentado à liberdade de informação. O problema deixa, contudo, de ser de Ricardo Rodrigues e passa a ser de Carlos Zorrinho e António José Seguro. É deles a responsabilidade política de retirarem consequência éticas desta condenação. Ou Ricardo Rodrigues é demitido da Comissão de Ética e das duas outras comissões onde está por nomeação do PS e o secretário geral lhe retira a confiança política ou é a Seguro e Zorrinho a quem teremos que atirar à cara, a todo o momento, a falta de decoro, decência e autoridade moral e política para voltarem, alguma vez, a falar de ética e de princípios políticos. E, já agora, que se recorde que o tema da entrevista com Ricardo Rodrigues era um caso de pedofilia nos Açores.

Foto: Público online

 

terça-feira, 19 de junho de 2012

Ajudem-no a envelhecer com dignidade, por favor

Sou de opinião que todas as críticas são legítimas. Mesmo as disparatadas e que nos fazem rir. Contudo, algumas pessoas deveriam ter respeito por si próprias e em certas ocasiões estarem caladas. Ouvir Carlos Queiroz – um dos dois Selecionadores nacionais que teve oportunidade de o ser duas vezes – dizer disparates desqualifica a pouca competência que ainda lhe poderia reconhecer. É preciso recordar que nos últimos 30 anos, Carlos Queiroz fez duas das três piores qualificações de Portugal. Numa não fomos qualificados e na outra passamos no play-off, depois de um dos piores scores de golos de sempre da Seleção nacional. Nesse Mundial, Queiroz acabou apurado no grupo de qualificação onde havia uma coisa chamada Coreia do Norte, com 5 pontos. Foi eliminado nos oitavos de final. Ouvir Queiroz, que depois nos deixou nas ruas da amargura com 1 ponto em dois jogos de qualificação, dizer que “comigo já estávamos qualificados”; como ouvi-lo agora dar palpites sobre a qualificação de Portugal nuns quartos-de-final onde nunca esteve nem com nenhuma Seleção nem com nenhum clube por onde tenha passado, é ainda mais ridículo. Tanto mais, que Queiroz sustenta as suas considerações falando em “espírito de grupo” e de equipa quando toda a gente sabe por onde andou esse espírito quando foi Selecionador. Portugal foi qualificado para os quartos-de-final como a quarta Seleção neste Europeu, apesar de ter calhado no grupo mais forte – não era apenas teórico, foi mesmo o mais forte – deve por isso concentrar-se naquilo que é importante em lugar de continuar a ouvir Carlos Queiroz queimar a réstia de respeito que ainda tinha por ele e que já vem de longe, muito longe, de quando Figo ainda era um miúdo.

domingo, 17 de junho de 2012

O Syriza tinha a vitória garantida na Grécia, segundo todas as sondagens. Quinta-feira, tudo mudou!

Eu adoro ver o segundo melhor do Mundo jogar, mais do que o primeiro

Não me incomoda nada que haja no Mundo um jogador melhor do que Ronaldo. Quero lá saber. O que me incomoda é o desejo de alguns portugueses de que o melhor do Mundo não seja Ronaldo.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Portugal pode ser vítima de nova combinação de resultados


No Euro2004, em Portugal, a Dinamarca e a Suécia protagonizaram um dos episódios mais estranhos do futebol mundial, quando empatando a dois golos (o empate surgiu no último minuto), se apuraram para a fase seguinte, deixando a Itália de fora. Pois, desta vez, poderemos ser nós, portugueses, a sermos vítimas de um sistema mal feito (digo eu) que permite que, caso a Dinamarca vença a Alemanha por 3-2, ambas se apurem, independentemente do resultado de Portugal. Isto porque, se isso acontecer e Portugal ganhar à Holanda, os três ficarão com os mesmos 6 pontos. Nessa altura, teremos que ir ao fator de desempate dos resultados entre as três equipas, que manterá o empate pontual e mesmo em diferença de golos, colocando-se, contudo, a Dinamarca em vantagem por ter mais golos marcados (cinco). Portugal e a Alemanha ficariam empatados, com 3-3 em golos, mas a Alemanha ganharia vantagem sobre Portugal por nos ter ganho. Ou seja, de nada valeria a Portugal marcar muitos golos frente à Holanda, pois essa estaria fora desse desempate. 3-2 dá, pois, apuramento a Dinamarca e Alemanha. Portugal não depende, pois, de si próprio e pode ser vítima de um sistema que deu que falar no Euro2004 e que a UEFA não soube ou não quis alterar. De qualquer forma, se alguém em 2004 ainda imaginou que o 2-2 entre nórdicos pode ter sido uma coincidência, domingo ninguém ficará com dúvidas se a história se repetir com a Dinamarca.

AQUI FICAM OS CRITÉRIOS DE DESEMPATE:
a) Maior número de pontos obtidos nos jogos disputados entre as equipas em questão b) Maior diferença de golos nos jogos disputados entre as equipas em questão c) Maior número de golos marcados nos jogos disputados entre as equipas em questão d) Se, depois de aplicados os critérios a) a c), duas equipas ainda se mantiverem em igualdade, os critérios a) a c) são reaplicados exclusivamente aos jogos entre as duas equipas em questão para determinar a classificação final das duas equipas. Se este procedimento não levar a uma decisão, os critérios e) a i) são aplicados pela seguinte ordem; e) maior diferença de golos em todos os jogos da fase de grupos; f) maior número de golos marcados em todos os jogos da fase de grupos; g) posição no ranking de selecções da UEFA (ver anexo I, parágrafo 1.2.2); h) conduta "fair play" das equipas (fase final); i) sorteio"


domingo, 10 de junho de 2012

TV portuguesa na idade da pedra

Num país que se gaba de muito modernismo, onde a TV analógica já morreu e toda a gente já tem um "plasma", não deixa de ser estranho que os quatro principais canais de TV, bem como os seus sucedâneos no cabo continuem a emitir em SD, ignorando que toda a Europa já trabalha em HD. No mínimo, a não ser possível adotar já uma emissão em alta definição, que pelo menos fizessem o que os ingleses, por exemplo, já fazem há muitos anos, emitir em 16:9. O que se passa chega a ser estranho, pois alguns conteúdos são produzidos em HD e 16:9 e depois mal adaptados ao SD. A RTP é perita em “esmagar” imagens reduzindo a resolução para pior do que o SD. Eu que gosto de ver ténis, e me delicio com as transmissões do Eurosport em alta definição, recuso-me a ver o resultado desastroso das imagens do Estoril Open, adaptadas de HD para SD, em que nem a bola se vê. Com o Euro 2012 a correr e com as televisões portuguesas a fazerem as três o impossível exercício de demonstração de que que são a TV do Europeu, a sensação de estranheza agrava-se. Mas, a TV do Europeu é a SportTV, que em boa hora começou a transmitir 5 (cinco) canais em HD e a dar 10-0 nesta matéria aos “concorrentes” portugueses. Mas, de tudo isto, o mais estranho é a RTP ter um canal de HD que a maior parte das vezes está sem emitir nada e que, quando emite, raras vezes consegue fazer o som bater certo com a imagem. Depois, não se admirem que as audiências andem a fugir para o cabo.

sábado, 9 de junho de 2012

É urgente um novo pedido de ajuda externa a Portugal

Que o palhacismo tinha invadido a comunicação social portuguesa já sabia. Mas hoje o dia está a ser demais. Não bastou ao Estado quase falido de Portugal ter decidido comemorar o 10 de Junho a 9… e 10 de Junho, com o Presidente da República a apelar a que se varressem bem as ruas de Lisboa, como os jornalistas decidiram dar um contributo forte a que seja necessário e até urgente um novo pedido de ajuda externa. Desta vez já não de dinheiro, mas um pedido de ajuda psiquiátrica.
Na TSF ouvi logo pela manhã uma reportagem sobre um alemão que vive e trabalha na Alemanha e… torce pela Alemanha no jogo de mais logo. Dificilmente encontraria uma maior negação da notícia do que esta longa reportagem que era justificada pelo título de que “alemães que trabalham em empresas portuguesas torcem pela Alemanha”. O alemão longamente entrevistado nessa reportagem trabalha num hotel em Berlim que, por acaso, é de um português. Sem comentários! Eu penso que notícia seria um português que em Lisboa trabalhasse para a BMW e torcesse pela Alemanha e não por Portugal.
Enfim. E se a TSF mostra nesta reportagem que no melhor pano cai a nódoa, a RTP, que nos tem dado bons exemplos de serviço público, entrou esta manhã numa histeria esquizofrénica moderada pelo seu diretor – meu homónimo – que resolveu gastar parte dos 300 milhões de euros que o Relvas lhe deu para pagar dívidas em Janeiro, em reportagens um pouco por todo o Mundo.
Em Inglaterra, a RTP tinha duas equipas de reportagem: uma anda atrás da tocha olímpica. Algo com particular interesse público. Mas a questão nem é essa. É que os dois repórteres (câmara incluído) terminaram uma reportagem sobre o assunto, passada ao meio-dia, mostrando-se a eles próprios a tomar chá, supostamente às 5 da tarde! Ainda em Londres, outra equipa de reportagem da RTP dedicava-se áquilo que de maior interesse público existe no jornalismo português: perguntar aos emigrantes onde vão ver o jogo de logo à noite e, claro, quem querem que ganhe! Não se vá dar o caso de trabalharem num hotel propriedade de um alemão… digo eu!
Pelo meio, viu-se uma entrevista impossível de um jornalista português que não fala ucraniano a um miúdo ucraniano que não fala português. Com ajuda de um tradutor, percebeu-se que o miúdo era apenas e só isso: um miúdo ucraniano que por ali andava e tinha uma camisola do Messi vestida. Conluia o jornalista que não gostava do Ronaldo, ripostava o rapaz que sim e que podia gostar de Messi e também do Ronaldo e ter hoje vestido, por acaso, aquela camisola. Este interesse público custou muitos minutos de televisão na RTP1 e não sei quantos euros (muitos) de aluguer de um satélite.
Podia continuar a descrever as mais variadas situações de puro palhacismo, histeria, idiotices e absolutas faltas de senso e – sempre – de notícia que não apenas a RTP mas a generalidade dos canais de TV hoje exerciam com grande vontade em antena. Mas termino apenas com a de uma reportagem feita (no meio de todo este périplo Mundial), em Viana do Castelo. Tratava-se de entrevistar um bailarino considerado (por quem?) o 17º melhor do Mundo. A entrevista termina e, no final, o pivot do diretor de informação da RTP – meu homónimo – lá remata: “o 17º melhor bailarino do Mundo é português, no futebol, temos o primeiro, ou um dos primeiros”, não fosse a camisola do rapaz ucraniano contrariá-lo!
O dia vai ser longo!

quinta-feira, 7 de junho de 2012

A declaração de Ronaldo e a falta de profissionalismo de alguns jornalistas portugueses

Penso que o caso que hoje presenciei é paradigmático do buraco em que caiu o jornalismo português. Hoje, durante uma conferência de imprensa na Polónia, um jornalista enviado especial de uma estação de TV portuguesa para acompanhar uma Seleção de futebol, pediu a um responsável da Federação para comentar uma afirmação de Cristiano Ronaldo ao jornal espanhol “A Marca”. E a afirmação, segundo o jornalista, era de que o jogador português apostaria todo o seu dinheiro em Espanha para vencedor do Euro 2012.
Ora, acontece que não foi essa a afirmação de Ronaldo, que disse claramente nessa entrevista apostar em primeiro lugar em Portugal – “Se eu tivesse uma mala cheia de dinheiro, apostaria em Portugal e na Espanha. Não quero ser hipócrita. Sou muito esperançoso, e, depois de Portugal, eu vou na Espanha”. Claro que Ronaldo joga em Espanha e estava a dar uma entrevista a um jornal espanhol, sendo que Espanha é, por acaso, campeão do Mundo e da Europa. À semelhança da questão do jornalista português na conferência de imprensa de hoje, a imprensa portuguesa e os seus vários sites, reproduzem hoje a declaração de Ronaldo, atribuindo-lhe, nos títulos, a intensão de apostar em Espanha.
Já a imprensa brasileira, que também reproduz a mesma declaração de Ronaldo, titula o mesmo conteúdo com mais rigor, dizendo que Ronaldo apostaria em primeiro lugar em Portugal. A fonte é, contudo, sempre a mesma: as declarações de Ronaldo ao jornal “A Marca”.
Pergunto se o jornalista da TV, enviado especial ao Euro, sabe que deontologicamente não deveria ter colocado a pergunta sem ter confirmado a veracidade da declaração de Ronaldo. E pergunto-me se se terá limitado a ler os títulos da reprodução da notícia na imprensa nacional.
É que se assim foi, cometeu um falha profissional grave, demonstrando desconhecimento profundo do que é a sua própria profissão e quais as suas obrigações, reproduzindo o erro dos colegas sem confirmar a declaração. Se, pelo contrário, o mesmo senhor estava consciente das declarações de Ronaldo, então estamos perante pura má fé a que se junta falta de profissionalismo.
O erro no jornalismo e a falta de rigor tornam-se não apenas em falhas graves. São hoje pragas, pois aquilo que era, outrora, a falha humana, normal em todas as profissões, é ampliada e reproduzida, não apenas pelas redes de informação informais, mas já pelos próprios órgãos de informação. E isso só se torna possível porque há pessoas no jornalismo que não fazem a mais pequena ideia das regras que deveriam presidir à sua atividade.

PS: depois da conferência de imprensa na Polónia, alguns jornais e sites vieram corrigir os seus títulos, acrescentando "Portugal" à frase de Ronaldo.

terça-feira, 5 de junho de 2012

Quem tem menos vergonha: jornalistas ou Seleção Nacional?

Desde há anos nos habituamos a alguma histeria televisiva sobre as participações das Seleções Nacionais em fases finais de campeonatos. Contudo, nunca como desta vez a distância entre a cobertura noticiosa e o sentimento real dos portugueses foi tão evidente. Há dois dias assistia a mais uma reportagem sobre mais uma passagem do autocarro com os jogadores por uma rotunda, facto totalmente desprovido de interesse noticioso, em si, mas que conseguiria entender se correspondesse ao interesse do público. Contudo, a própria jornalista da estação de TV que fazia a transmissão afirmava que estavam “dois adeptos” no local, o que demonstra bem o enorme desfasamento não apenas do interesse público mas também já do interesse do público para com o objeto de reportagem.
Mais grave é o que se passa nos bastidores da Seleção. Uma estação de televisão privada ganhou o direito a fazer a cobertura “em exclusivo” do que considera serem os “bastidores da Seleção”. As reportagens passam em blocos noticiosos especiais ou formais de informação. Ou seja, nos próprios serviços diários de informação. Estas “reportagens”, contudo, levantam grandes questões do ponto de vista ético e deontológico, além de serem de interesse muito duvidoso, quer para o público quer para a própria Seleção.
E porquê? Em primeiro lugar porque não se percebe a razão de ser aquela estação de televisão em concreto a ter acesso a parte dos factos e não todas as outras? A Seleção Nacional e, mais formalmente, a Federação Portuguesa de Futebol não são entidades ou objetos privados. São instituições que representam o País e a Federação tem o estatuo de interesse público sem fins lucrativos. Importa, pois, que as suas decisões e nomeadamente as que implicam vantagens comerciais, tenham relevância pública, sejam publicitadas e defendam esse mesmo interesse coletivo. No caso concreto, não se conhecem os termos do acordo e que vantagem, se a há, para a Federação.
Pode então perguntar-se: que interesse público existe na divulgação dos bastidores da Seleção? O que ganha a Federação com isso. O que ganha a Seleção? Os jogadores sentem-se melhor, mais tranquilos e desempenharão melhor as suas funções perante a presença constante das Câmaras? Que vantagens monetárias existem que o justifique? Quem ganha? Quanto ganha. O que ganha o país ao deixar uma estação de televisão entrar os quartos, nos balneários, no departamento médico a toda a hora?
Mas há outra questão, além da do interesse público da Seleção. É a do interesse público da informação e é a questão da ética e da deontologia jornalística. Estando uma ou mais estações de TV ou outros jornalistas autorizados a circular e a cobrir “em exclusivo” determinados momentos que, à partida, seriam do foro íntimo de um grupo de trabalho, que condições lhe formam impostas? Têm esse jornalistas, que aceitaram com os seus editores e diretores, limitações ao seu trabalho? Estando uma equipa de reportagem dessas num balneários e sentido o Selecionador a necessidade de “dar dois berros” a um jogador, é livre o jornalista de editar as imagens e divulga-las no “telejornal” seguinte? E se Saltilho se repetir? Que tipo de reportagem podemos esperar?
É que se assim não é, estamos perante um princípio de censura assumida e consentida, o que é inaceitável. Ou melhor, deveria ser inaceitável para a estação de TV e para os jornalistas em causa. No mínimo, a estação de TV ou o órgão de informação que se sujeitasse a tal constrangimento de edição, deveria informar o telespetador de tal facto.
Estamos, portanto, perante uma histeria jornalística que não é nova – mas que particularmente desta vez nem sequer corresponde a qualquer histeria pública – e estamos perante atos, ditos “jornalísticos” que não apenas são potencialmente lesivos à Seleção e ao interesse público que a Federação jurou defender, como também potencialmente lesivos do interesse público que, por definição, os jornalistas devem defender.
Era bom que alguém fosse capaz de esclarecer este assunto e nos viesse dizer se estamos perante uma total irresponsabilidade da Federação – Paulo Bento incluído (ver artigo com opinião de Manuel José) – expondo os verdadeiros bastidores de um grupo de trabalho que se quer fechado, ou se estamos perante uma monumental mentira, credibilizada pela capa de um jornalismo barato e que, despudoradamente vai acabando com a réstia de bom nome que a profissão detém.
Um último desabafo: os que tanto se indignam com a “pressão” que um telefonema de um ministro exercerá sobre um jornalista, não se questionam sobre que contratos comerciais ou outros limitam muito mais brutalmente a liberdade de outros colegas? Perdão, “camaradas”?

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Pressões, jornalistas e a indiscrição de Fernanda Câncio...

Há uns anos eu fui muito pressionado pela jornalista Fernanda Câncio. A senhora atacava ferozmente nas redes sociais todos aqueles que – como eu – achavam que as políticas de José Sócrates eram desastrosas e nos poderiam levar à bancarrota. Infelizmente tinha eu mais razão do que Fernanda Câncio, nessa matéria. Mas fui pressionado. Quanto a Fernanda Câncio, também ela se sentiu pressionada. Não por mim, mas sobretudo por aqueles que achavam que a jornalista se deveria abster de trabalhar em determinadas matérias por ser alegadamente a namorada do Primeiro-Ministro. O próprio Primeiro-Ministro terá sido pressionado sobre o assunto. A ERC acabou pressionada por várias queixas sobre o tema e a jornalista acabou pressionada pela ERC, que pareceu concordar com os que pressionavam tanto Câncio como Sócrates. Neste jogo de pressões que é a vida – e mais, que é a vida pública (e a vida pública é também pública para os jornalistas que são eles próprios figuras públicas) –, restou, no final, uma razão a Fernanda Câncio: a vida de cada um é de cada um e, a menos que isso possa interferir com a vida de todos os outros. Sendo isto verdade e tão defendido por Câncio, só não entendo muito bem por que razão foi agora a própria Fernanda Câncio a revelar um aspeto da vida privada de uma jornalista para explicar que esta estava mesmo a ser pressionada por um ministro. A não ser que a afirmação de Câncio já não seja apenas um ato de simples indiscrição pública e violação da privacidade de uma colega e de um ministro, mas antes um ato consertado de relações públicas, procurando antecipar uma explicação que afaste eventuais especulações sobre a matéria ou mesmo a curiosidade investigativa de alguém (quem sabe de outros colegas – “camaradas”, como se diz no jornalismo). A ser isso, estaremos então perante técnicas de comunicação dignas da melhor escola de José Sócrates. E essa escola não é nem em Paris nem tem exames ao domingo: é a escola da guerrilha política e do controlo da comunicação social em que o ex-Primeiro-Ministro foi tão exímio.


«Que ameaça, exatamente, de revelação da vida privada da jornalista é que ele teria feito? Aquilo que me chegou é que se trata de uma referência a uma relação íntima da jornalista, relação essa com alguém que o ministro associa à oposição».


Fernanda Câncio em entrevista a João Maia Abreu, 25.ª Hora, TVI, 23-3-2012 


segunda-feira, 7 de maio de 2012

Vítor Pereira renova com FCP


Queria dar os parabéns ao Vítor Pereira pelo título do FCP. A qual Vítor Pereira? Pode ser aos dois, mas referia-me especificamente ao treinador do Porto, que ontem festejou o título e disse no final estar agora a pensar no jogo com o Rio Ave. Apesar de ser benfiquista, tenho que reconhecer o enorme trabalho do treinador do Porto e preconizar que ele lá continue por muitos anos. O seu trabalho foi notável ao conseguir transformar uma equipa que não ganhou nada no ano anterior, numa equipa ganhadora.
A aposta em Maicon a lateral direito durante meia época foi brilhante. A insistência inicial em Kleber foi decisiva e a contratação de Janko fez a diferença. O Porto dominou a época e ninguém pode hoje duvidar da forma como chegou ao título. Ainda poderíamos colocar em causa o triunfo na Liga caso o FCP tivesse feito uma época fraca a nível internacional. Mas os portistas sempre sustentaram ser a melhor equipa nacional, sem favores das arbitragens, nos seus resultados internacionais. Pois, desta vez, foi igual.
O Porto não apenas ganhou em Portugal como foi um campeão na Liga dos Campeões, onde, mesmo num grupo fraco, mostrou todo o seu valor. Também na Liga Europa (que eu nem sei como o Porto foi lá parar) o Porto foi brilhante, ao eliminar e humilhar com goleada um grande rival inglês. Por cá, além do Campeonato, o Porto limpou tudo. Estou certo que ganhará a Taça de Portugal, onde ultrapassou de forma brilhante a “aflita” Académica com uma goleada e na Taça da Liga deu uma lição ao Benfica.
Não tenhamos dúvidas, Vítor Pereira é o melhor e está de parabéns. A forma como soube colocar dois jogadores na área do Benfica naquele golo decisivo no jogo em que ganhou ao Benfica na Luz, passando para o comando do campeonato, foi brilhante. Quase tão brilhante como soube ontem esmagar o Sporting apesar da injustificada inferioridade numérica.
Arbitragens? Não, o Porto nunca se queixou disso, apesar de ter sido fortemente prejudicado. Já pensaram na quantidade de jogos que o Porto começou o jogo a perder com um penalty? Perdi-lhes a conta. E jogos em que ficaram penaltys por marcar a favor do Porto? Dezenas.
Mesmo nos campos onde não jogava, o Porto tinha azar. Por exemplo, no Sporting-Benfica, que azar teve o Porto quando o árbitro e fiscais de linha não viram um penalty a favor de quem lhe dava mais jeito logo no primeiro minuto.
Poderia continuar aqui a falar das dificuldades enormes que se colocaram a Vítor Pereira durante este ano, provocadas por um plantel barato, arbitragens tendenciosas de penalty fácil a seu desfavor, difícil a seu favor, uma direção fraca e sem influência a nenhum nível e por uma Liga e Federação onde não tem ninguém, nem sequer um seu recente ex-dirigente.
Vítor Pereira foi brilhante e o título conquistado não pode nem ter sido obra do acaso e muito menos da batota. Se assim fosse, o Porto teria sido campeão mas não teria tido todo o sucesso internacional que teve e muito menos teria deixado os adeptos tão satisfeitos com o seu treinador.
Estou certo que todos os adeptos do Porto querem a renovação por mais dez anos de Vítor Pereira e entendem que o Porto fez uma época brilhante. Tenho até a certeza que o Porto nunca irá despedir este treinador. Por mais anos que fique no FCP, pelo que se viu este ano, o Porto será sempre campeão. Como ouvi a um portista dizer há dias: com Vítor Pereira, ou com um roupeiro, é a mesma coisa: o Porto será sempre campeão. Eu concordo… mesmo com tantas coisas a seu desfavor, onde a arbitragem é a mais decisiva de todas.
Claro que se após o jogo do Rio Ave, o Porto despedir o seu treinador, então tudo o que está escrito acima deverá ser lido ao contrário. Ou não?

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Dar com a cabeça na parede... outra vez


Fiquei muito feliz quando vi a Seleção ver-se livre de Carlos Queiroz. Fiquei satisfeito com a prestação a partir daí. Gostei de ver Portugal dar quatro à Espanha e corrigir o trajeto desastroso que levava na qualificação. Simpatizo com Paulo Bento e acho que ele tem feito o seu trabalho devidamente.
Contudo, estou indignado com a renovação do seu contrato. Paulo Bento, que estava no desemprego, aceitou assinar um contrato em situação difícil, mas apenas até ao final desta campanha, que termina após o Europeu. A qualificação era o objetivo e foi cumprido com competência. Isso não lhe deveria dar o direito de, após a qualificação, colocar a questão da sua renovação nos termos em que colocou.
Dizer que toda a equipa vai com mais tranquilidade para a fase final, aproxima-se perigosamente da chantagem que a Federação – muito mal – aceitou pagar. E se Portugal levar 7-0 da Alemanha? E se Portugal perder todos os jogos da qualificação? E se Paulo Bento, à semelhança do que vem acontecendo com outros jogadores, se voltar a incompatibilizar com meia-dúzia deles? Ninguém sabe o que pode acontecer numa fase final, e já vimos acontecerem muitas coisas em fases finais.
Paulo Bento tinha um contrato com a Federação e deveria, confiante na qualidade do seu trabalho, cumpri-lo sem exigências que apenas pode fazer por ter feito o seu trabalho devidamente. Colocar as coisas nos termos em que Paulo Bento colocou não é muito diferente do que fez Mourinho há uns anos no Benfica (de onde foi bem despedido) e do que fez Ricardo Carvalho. No futebol e na vida, não há insubstituíveis e se os há são aqueles que trabalham com altruísmo e colocando o resultado do grupo em primeiro lugar e não deixam esse objetivo ser atropelado ou posto em causa pela sua vidinha.
Como português, que também sustenta isto, penso que já é tempo de não nos fazerem pagar indeminizações milionárias a treinadores de futebol que (com ou sem razão), vão entrando e saindo. Desta vez, como contribuinte e “dono” da Seleção, se algo correr mal e Paulo Bento tiver que sair, gostaria de ver o senhor Fernando Gomes assumir o erro desta despropositada renovação, e pôr-se a andar com ele.

domingo, 29 de abril de 2012

Comissão da Carteira Profissional de Jornalistas, Sindicado dos Jornalistas, Diretores de Informação... o que é isto?

Por razões várias, entre as quais se contam algumas do foro ético, resolvi, há tempos, esquecer um caso de escandalosas violações de quase todo o código deontológico por parte de um jornalista que, na ânsia de fazer negócio fácil em vários campos, envolveu as três estações de televisão nacionais (em particular uma das privadas) numa aventura de inaceitável desrespeito pelos mais elementares direitos e deveres de informação, violando de forma grosseira o dever de pluralismo por razões exclusivamente financeiras.
Hoje, contudo, tenho que dizer qualquer coisa num caso com características semelhantes no qual não tenho qualquer envolvimento profissional, empresarial ou pessoal. Na RTP, canal público, vi uma reportagem sobre ciclismo, onde uma empresa – a PGM – era produtora e onde o jornalista Carlos Raleiras era o repórter.
A PGM tem como cliente o organizador da maioria das provas de ciclismo em Portugal. Carlos Raleiras é jornalista profissional com a carteira 1755, atribuída pela respetiva comissão. Mas, Carlos Raleiras é também sócio da PGM, que é, aliás, uma unipessoal do próprio, dedicando-se à produção de programas para TV e Rádio, sobretudo na área desportiva. À PGM, Carlos Raleiras chama Projectos Globais de Media. E são, de facto, globais...
Carlos Raleiras não é apenas o único sócio da empresa, é também seu próprio funcionário, encarregando-se das propostas comerciais, das negociações com os clientes e da montagem de todo o negócio e operações comerciais e logísticas. Carlos Raleiras assina as propostas comerciais que a sua empresa faz, publicita a sua empresa, assinando a publicidade que lhe faz e negoceia pessoalmente os tempos de exposição mediática que “oferece” aos participantes nas provas de que faz cobertura, em função da “comparticipação” que lhes cobra.
Carlos Raleiras é ainda repórter, pago pela mesma empresa onde é sócio, ao serviço dos seus clientes. A sua PGM, por acordo com os órgãos de comunicação social e no âmbito do contrato que tem com os seus clientes – neste caso, os organizadores das provas de ciclismo em Portugal – entrega depois aos órgãos de comunicação social os programas já montados, onde na ficha técnica aparece como repórter ou jornalista. E onde a sua PGM tem a produção a seu cargo. É frequente trocar os conteúdos que oferece às TV's por "slides" publicitários, que cobra aos seus clientes, depois de ter assegurado ser o único detentor dos direitos televisivos do evento, em acordo comercial com os organizadores da prova.
Este exemplo do que se passa no desporto, repete-se também em áreas económicas, na rádio.
Temos, portanto, à luz do dia, um jornalista, assim identificado, portador de carteira profissional, a agir como jornalista, em proveito comercial da empresa de que é único sócio e dos seus clientes, fazendo reportagem. À luz do dia e nos principais canais de TV e rádio nacionais, envolvendo, além de si, outros jornalistas, profissionais, comentadores e o prestígio (digamos, réstia de decência) que a comunicação social ainda vai tendo.
A pergunta que se impõe é a seguinte: o que será necessário para que a Comissão da Carteira Profissional de Jornalistas, o Conselho Deontológico do Sindicato dos Jornalistas, diretores de informação, diretores de estação e, vamos lá, para que os seus colegas acabem com esta e outras pouca vergonha?

terça-feira, 24 de abril de 2012

E Mário Soares, onde estava no 25 de Abril?

Não está em causa o que Mário Soares já deu ao País e mesmo à liberdade. Mas dizer que assistiu ao 25 de Abril para justificar a sua ausência nas comemorações deste ano, faz-nos recordar que foi um "combatente" pela liberdade com privilégios especiais. Ao 25 de Abril de 1974, Mário Soares assistiu desde Paris, onde vivia uma vida tranquila e confortável, bem longe do que por cá se passava. Soares estará ausente do 25 de Abril de 2012, como esteve no de 1974, portanto.