terça-feira, 11 de maio de 2010

Mitos urbanos ou gato escondido com o labo de fola?

É importante começar por dizer que não sou racista, xenófobo, nem nada do género.

Há algum tempo já que fico perplexo com a impunidade dos donos de lojas de chineses que, simplesmente, não emitem facturas.

É daquelas coisas que todas a gente sabe que acontece, mas ninguém diz nada nem aponta o dedo.

Em tempos de crise e de rigor de cobrança de impostos, entendo que é altura de dizer BASTA!

Fiz uma busca por notícias sobre a investigação destes casos pela polícia portuguesa e encontrei duas. Sou péssimo no Google.

Uma de 2007 que nem vale a pena referir, e uma mais recente, de 2009, no i, de 16 de Maio, assinada pela redacção, que, se me permitem, irei citar:

«"A comunidade chinesa é claramente a mais impune." Fica a dúvida se a impunidade corre por dificuldades de investigação, acrescenta um investigador, ou porque realmente não há participação em actividades criminosas. (...)
"Por cá, dedicam-se essencialmente ao auxílio da imigração ilegal." A polícia judiciária confirma que o tráfico de droga em Portugal não tem como cabecilhas cidadãos chineses, ao contrário do que se passa, por exemplo, no Reino Unido e na Holanda.
Mas se houvesse crimes, também não seria fácil descobri-los. Por cá, as investigações assentam muitas vezes em escutas, o que leva a situações verdadeiramente caricatas. Foi o caso de uma pequena rede de prostituição em que, nas escutas telefónicas, os nomes surgiam como "pequena irmã, pequena flor, ou pequena rosa", tudo nomes que não se conseguiu ligar a pessoas. (..)
Mas as dificuldades de escuta não se ficam por aqui: os inúmeros dialectos, os sons que pronunciados de forma diferente são ideias também diferentes, associados à pouca confiança que os polícias têm nos tradutores, tornam estas acções potencialmente ineficazes, inconclusivas e frequentemente impossíveis.

Um inspector policial conta que perguntou pelo passaporte a um cidadão chinês no interior de uma loja. A resposta foi um sorriso. Nova insistência deu origem a duas palavras: "Português, pouco". "Passaporte", repetiu. Mais um sorriso e o agente desistiu. Minutos depois, uma cliente perguntou se havia resguardos para tábuas de passar a ferro. "Resguardos para tábuas, desce as escadas, segunda fila, prateleira da esquerda", retorquiu. O polícia ouviu mas não voltou atrás.(...)

Em alguns casos, foi detectado o branqueamento de capitais, mas a maior parte das investigações revela-se inconclusivas. Para alguns investigadores académicos, o silêncio da comunidade e a inexistência de interacção violenta dos chineses leva ao surgimento de mitos urbanos."»

Perdão? Mitos urbanos?

Em 2009 é este o estado da investigação policial em Portugal? Não fazem escutas porque não confiam nos tradutores? Acreditam que os responsáveis das lojas de chineses não falam português?

Considero absolutamente vergonhoso o que se passa diariamente dos nossos olhos. "Facturar faz o país avançar", mas, pelos vistos, só se aplica aos restaurantes e cafés, e outros empresários que têm os impostos em dia.

Assistimos passivamente à abertura de lojas de chineses nos locais mais caros da cidade de Lisboa e um pouco por todo o país, nos locais mais centrais. É normal!

Achamos porreiro ir comprar umas tretas à loja dos chineses mais baratas e sair de lá sem factura. É normal!

Se alguma coisa que comprámos nos chineses avaria, nem sequer pensamos em ir reclamar por estar na garantia. Foi barato. É normal!

É tudo normal. Não se passa nada. E mesmo que se passasse, ninguém conseguia descobrir. Principalmente a polícia. É que isto, para eles, é chinês.

Ou será um mito urbano?

Não. É mesmo fraude fiscal. E isso já é mais do que suficiente para agir, seja em chinês, seja noutra língua qualquer.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

TGV, Ana Paula Vitorino e as decisões avulsas do Governo

Exactamente há um mês e 10 dias escrevi aqui um artigo sobre o TGV. No mesmo, recordei um jantar com Ana Paula Vitorino na Casa da Música há menos de um ano. Hoje, a ex-secretária de Estado dos transportes veio colocar o dedo na frida, ao criticar abertamente a decisão do Governo sobre o assunto. Vale a pena, por isso, recordar o que escrevi e vale a pena lembrar que, nessa data, estave eu longe de pensar que Portugal iria gastar milhares de milhões de euros para colocar Portugal ligado à Europa via... Poceirão!

domingo, 9 de maio de 2010

Chávez compreendeu o Twitter

Hugo Chávez, depois de surpreender o mundo (e assustar meio outro) com a abertura de uma conta no Twitter, é hoje notícia por ter recrutado 200 pessoas para gerir essa conta. As reacções, em geral, são de espanto e gargalhada geral.

Questões políticas à parte (diz que abraçou o Twitter como mais "uma arma da revolução"), Chávez entendeu muito bem o segredo das redes sociais: o engagement e o diálogo.

Contrariamente a várias celebridades que se limitam a acumular milhares ou milhões de seguidores e debitar de vez em quando umas frases, sem qualquer ou muito pouca interacção com o público, Chavez decidiu responder a todos os que se lhe dirigem. As mensagens são diversas, mas a maioria parecem ser apelos para casos pessoais, como este ou mensagens de apoio (também de críticas, naturalmente).

Com cerca de 243 mil seguidores nesta data e 50 mil mensagens recebidas nas duas primeiras semanas, o "“Presidente de la República Bolivariana de Venezuela. Soldado Bolivariano, Socialista y Antiimperialista” (é esta a sua biografia no Twitter) prometeu não deixar nenhum seguidor sem resposta.

Chávez percebeu que o Twitter é uma plataforma única de comunicação, de persuasão, de gestão da reputação. Tal como os políticos e as organizações o perceberam. Mas, para ser eficaz e mobilizador, exige respostas rápidas, capacidade de diálogo e de envolvimento. A entrada nas redes sociais é, de facto, um investimento exigente e caro, que exige ser bem pensado antes de ser eleito como uma "ferramenta de marketing e comunicação".

Não sei se 200 pessoas serão um exagero, talvez não seja. O que é certo é que, tal como Chávez e as grandes organizações já perceberam, sem os recursos necessários (isto é, uma equipa dedicada e dimensionada) a presença nas redes sociais é mero folclore e sem qualquer retorno.

sábado, 8 de maio de 2010

A lamentável RTP e o Estoril Open

Bem sei que os jogos das meias-finais foram atrasados devido à chuva, mas nada justifica o comportamento e critérios da RTP quanto à transmissão dos jogos do Estoril Open. Durante toda a semana, a TV pública transmitiu exaustivamente jogos do torneio de ténis, ocupando horas de antena na RTP N e no canal de HD da Estação. Em simultâneo, algumas partidas foram transmitidas em 3D no MEO. Contudo, chegados às meias-finais, com Roger Federer a jogar um dos jogos e com Frederico Gil pela primeira vez numa meia-final, a RTP brindou-nos com o absurdo. O jogo de Frederico Gil nem sequer foi transmitido e o de Federer começou por dar na RTP2, mas ao fim do primeiro set, o futsal roubou-nos o ténis. Quanto ao canal de HD, fechado!!! E a RTPN a repetir toda a tarde as mesmas notícias da manhã e a fazer 475 antevisões aos jogo que o Benfica irá fazer amanhã. A RTP é um serviço público. E não é sequer um serviço público qualquer. Porque além de ser pago com publicidade, concorrendo com os privados, ainda beneficia de indemnizações compensatórias oriundas do Orçamento Geral do Estado e ainda é, de novo, pago por cada um dos contribuintes de forma individual na sua factura de energia. A RTP, que tantas vezes nos dá bons exemplos, é vezes de mais, capaz do pior, como foi este o caso. Como contribuinte – duas vezes – para o orçamento da RTP, sinto-me indignado e espero que nunca mais os direitos de transmissão do Estoril Open sejam entregues a uma TV que mobiliza meios inéditos para transmitir inclusivamente em 3D e, depois, trata os seus clientes desta forma tão absurda e desinteligente.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Ricardo Rodrigues - o ético

Calha-me em sorte profissional ter a TV ligada quase todo o dia em canais de notícias. Vejo, por isso, as transmissões das comissões de inquérito da Assembleia da República. Vi, por isso, o deputado Ricardo Rodrigues, a determinada altura acompanhado pela deputada Medeiros, dar grandes exemplos de rigor ético, como foi o caso de se insurgir contra a citação ou mesmo simples referências de escutas telefónicas legais, realizadas no âmbito de processos-crime, mas que, por razões processuais, nunca foram disponibilizadas às comissões da Assembleia da República. Agora, que ficámos a saber que para Ricardo Rodrigues chega a ser legítimo roubar gravadores de reportagem a jornalistas e que o PS o apoia ainda assim, há um pormenor ainda mais grave e incompatível com a continuação em funções deste deputado. E o pormenor não é o acto inqualificável do furto, a forma como foi perpetrado e o absurdo das suas declarações. O pormenor é Ricardo Rodrigues ter usado as gravações e o próprio objecto do seu roubo para efeitos de uma providência cautelar que diz ter feito.Objecto que, potencialmente, possui matéria protegida por segredo profissional e que, eventualmente, nem lhe diz respeito. Ricardo Rodrigues, para quem a simples referência a escutas legalmente realizadas e hoje públicas é uma infâmia, acha-se no direito de usar escutas por si furtadas para tentar impedir a publicação de notícias. Alguém pergunte a José Sócrates se este conjunto de actos irreflectidos é ou não mais grave do que os “corninhos” com que despachou Pinho e se, assim sendo, mantém em Assis confiança política para continuar a liderar a bancada parlamentar do seu partido. E ainda se, assim sendo, o PS continuará a ser representado na comissão de ética pela deputada das viagens e pelo deputado dos gravadores.

terça-feira, 4 de maio de 2010

A solidariedade com a Grécia segundo Manuel Alegre

Ouvi ontem o putativo candidato do PS falar sobre a ajuda portuguesa à Grécia, concordando com os 2,2 mil milhões de euros que vão a caminho de Atenas. Disse o senhor Manuel Alegre que temos que ser “solidários com a Grécia, até porque um dia, quem sabe, seremos nós a precisar da solidariedade dos outros”. Este conceito de “solidariedade” coloca o termo ao nível de uma apólice de seguro. Pago um preço hoje, garantindo uma indemnização amanhã, caso a catástrofe me venha a atingir a mim.

Esta declaração de Alegre, que não parece ter chocado ninguém, coloca na lama todas as 37.457 vezes em que Alegre usou a palavra “solidariedade” nos seus poemas, levando-me a questionar também quais os seus conceitos acerca de termos como “liberdade” e “fraternidade”, igualmente muito comuns nos seus escritos literários e discuros políticos, indiscriminadamente.

Que a política é um jogo de interesses, já todos sabíamos. Que Alegre não tem feito outra coisa do que tentar (mal) jogar esse jogo, também. Mas escusava de andar por aí a deitar abaixo algo que durou décadas a convencer-nos: que é um homem de convicções.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Portugal Glocal


PORTUGAL GLOCAL


Portugal Global através do local. Portugal através das pessoas existentes em países, regiões, estados ou cidades falantes da língua portuguesa.

Todos os jornalistas estão convidados.

Direito à indignação e uma citação

Depois de um dia triste para os portugueses, em que nos tentaram convencer que cortar 25% do subsídio de desemprego é a solução para o caos financeiro e, no mesmo dia, o Governo assinou com Jorge Coelho o contrato para construir a 3ª Auto-Estrada Lisboa Porto no valor de 1.429 MILHÕES € !, apenas quero citar: "People of mediocre ability sometimes achieve outstanding success because they don't know when to quit" - George E. Allen

terça-feira, 27 de abril de 2010

e quando supunhamos poder ficar , enfim, descansados lá temos então que voltar á moura guedes.



Manuela moura guedes foi chamada a prestar depoimento para ajudar ao esclarecimento das verdades que afirmou conhecer sobre os alegados planos do Primeiro ministro, mas manuela moura guedes parece não estar interessada em esclarecer o que quer que seja.Diz que está surpreendida.Que se sente surpreendida e incomodada por entender que é o Ministério público quem tem o dever de investigar e não o cidadão queixoso a ter que prestar declarações que ajudem á investigação.


Manuela moura guedes deve pois ter esquecido qual o seu papel nesta estória e qual a posição que ocupava quando desencadeou o processo em que Sócrates foi literalmente triturado na praça pública, por suspeições e difamações cuidadosamente preparadas visando o seu descrédito na opinião dos Portugueses.

Esqueceu que era pivot de uma estação de televisão.
Esqueceu que por diversas vezes e até bem recentemente, afirmou ter na sua mão provas contra o Primeiro ministro.Esqueceu as afirmações que fez de que a estação que serviu teria em seu poder documentos incriminatória contra Sócrates, mesmo depois de se tornar conhecido o fecho do processo Inglês que ilibava totalmente o mesmo, enquanto que em Portugal as investigações apontavam para o mesmo desfecho.
Mesmo nessa altura , continuou teimosamente a instigar, a provocar e a acusar sem provas. Agora que lhe pedem as provas que ela disse ter, diz que está surpreendida e que se sente incomodada e virando esse seu incómodo contra o Ministério público acusando-o de não estar a investigar.



Em resumo , manuela moura guedes está a tentar escapar á obrigação de prestar informações sobre os conteúdos que afirmou ter em seu poder e sobre os quais assentou os seus ataques e insinuações. Ora para quem tanto sorriu, para quem tanto ergueu a sua voz,p ara quem chamou a si tanto protagonisto na tal " defesa do direito á verdade" moura guedes está a ter um estranho comportamento.

Se o que pretende com esse comportamento é continuar com as luzes da ribalta apontadas para si, alguém devia dizer-lhe que existem certas luzes das quais mais vale ficar afastado.São luzes cruéis, demasiado potentes que acabam por revelar os nossos pontos mais fracos e das quais muitas vezes deixamos de poder defender-nos.
É que esta coisa de dizer mal das pessoas seja porque razão fôr é sempre muito perigosa.Porque há sempre um dia em que temos que prestar contas por cada palavra dita ou escrita.E nesse dia acaba sempre por começar a entrada numa outra dimensão que julgavamos impossível, mas que a tal luz cruel a que nos subtemos ilumina, sem que possamos fugir.


Eu, se fosse a manuela moura guedes , deixava de dizer mal das pessoas.
É que confundir mordacidade com sarcasmo e informação com manipulação, pode muitas vezes trazer-nos a ironia do destino e as piores consequências.





segunda-feira, 26 de abril de 2010

Liberdade de expressão, humor e religião

Numa conversa de almoço, sobre o tema que dá título a este post, ouvi algumas questões curiosas e pertinentes:

- Hoje vemos humoristas, e não só, a fazerem piadas sobre a Igreja [católica] e o Papa… Porque é que será que não fazem o mesmo em relação a muçulmanos ou islamitas?
- Talvez porque os católicos são mais diplomatas nas reacções do que outros…
- Pois é, fazem piadas, os católicos manifestam um ‘sorriso amarelo’ e pronto. Estou mesmo a ver o que aconteceria se algum humorista se ‘metesse’ com o Islão, por exemplo. E já não digo nada se as piadas forem – não são – em torno da homossexualidade ou homossexuais…
- É, as minorias parecem ter ‘mais peso’, pelo menos ao nível mediático, do que as maiorias.

Citando um spot conhecido: “Valia a pena pensar nisto…”

sábado, 24 de abril de 2010

Actor despedido por recusar cena de sexo

Há uns dias soube-se de uma notícia curiosa: A cadeia americana ABC despediu um actor porque este recusou-se a rodar uma cena de sexo. O actor é o americano Neal McDonough, 44 anos, estrela de filmes como "Star Trek: First Contact", "The Hitcher" e "Minority Report", assim como de séries televisivas como "Tin Man","Band of Brothers" e "Desperate Housewives".

Neal McDonough tinha começado a rodar uma nova série televisiva da ABC, “Scoundrels”, e negou interpretar uma cena de sexo explícito com a actriz Virginia Madsen. A cadeia televisiva despediu-o imediatamente.

A notícia, que passou despercebida na comunicação social portuguesa, tem alimentado um sem número de comentários em todo o mundo.

Na América, a comunicação social afirma que as razões que levaram McDonough a recusar a cena são o facto de este ser católico, casado e ter três filhos pequenos.

Na Internet, milhões de internautas de todo o mundo têm apoiado a decisão do actor. A julgar pelos comentários a esta notícia, deduz-se que a coerência continua a ser um valor em alta.

O actor, que actuou em consciência e por respeito à sua mulher e família, abdicou de muito dinheiro. Se tivesse rodado esta nova série, McDonough receberia um milhão de dólares.

Neal McDonough, para além de ser um bom actor, demonstrou que é um homem coerente e inteligente.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Um pouco estranho

Há dias ouvi Emídio Rangel numa comissão parlamentar referir-se às agências de comunicação como se delas viesse todo o mal do Mundo, nomeadamente, o mal que incomoda o mundo do Governo e de José Sócrates, coitadinho (palavra minha), tão atacado por essa infame actividade.
Rangel lançou sobre as agências de comunicação a acusação de “plantarem notícias” e urdirem estratégias de assassinatos de carácter.
Ontem, também no Parlamento, mas em pleno hemiciclo, Fernando Negrão acusou os corruptos e arguidos (presumo que de área política diferente daquela a que se referia Rangel) de “até já terem assessores de imprensa”.
É um pouco estranho que as principais agências de comunicação, nomeadamente aquelas que têm prestado serviços ao PS, ao Governo e também das que o fazem ao PSD (nalguns casos, as mesmas) não se insurjam perante tão ferozes ataques. E é também estranho que as organizações que representam o sector não manifestem, também, a sua indignação quando, sobre todas as agências e, no fundo, também sobre jornalistas, é lançado um anátema que nem sempre lhes encaixa.
Como é estranho que numa altura em que tanto se discute a liberdade de imprensa e de expressão, ninguém peça em sede de comissão de ética a Emídio Rangel que explique quais são essas agências e, já agora, que espécie de jornais e jornalistas aceitam a “plantação de notícias” e… a troco de quê o fazem. E que, por uma vez, sejam pedidos casos concretos e nomes (de assessores e jornalistas) que praticam tais actos.
É que, de outra forma, a “infâmia” de que se queixa o PS - e em uníssono Emídio Rangel - está a ser combatida com outra infâmia, por ventura, ainda mais vaga e injusta.
Quanto a Fernando Negrão talvez fosse melhor fazer-lhe perceber que o problema da Justiça não é a capacidade de comunicação ou de defesa dos arguidos, mas a incapacidade da Justiça para acusar e condenar. E, já agora, a absoluta e histórica inabilidade que o sistema judicial português tem para comunicar. Problema que, talvez, uma boa agência de comunicação pudesse ajudar a resolver com grandes vantagens para a credibilização da Justiça e, logo, com grandes vantagens para o País.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Incêndio no Rossio

Um incêndio de grandes dimensões deflagrou esta noite no Rossio e atinge já vários edifícios, aparentemente desabitados. As recordações são inevitáveis. A história, essa, não perdoa a incúria dos homens. Ouvi um dia alguém dizer que há três formas de destruir uma cidade: com uma catástrofe natural, com uma guerra ou com uma má lei do arrendamento. A mais destrutiva é a terceira.

A técnica da política

Sempre critiquei os políticos por não tomarem decisões políticas e se pendurarem em soluções técnicas que explicam todas as suas opções. Contudo, eu pensava que nos últimos dias os aviões não voavam por questões técnicas. Hoje fiquei a saber que voltam a voar por opções políticas. É confuso? Sim é. Talvez por isso seja melhor ficar por casa por estes dias…

segunda-feira, 19 de abril de 2010

O interesse nacional e direito à verdade

"A menos que os políticos portugueses que estão no poder acreditem que o doente que se chama Portugal já tenha perdido a consciência e que já não tenha sequer capacidade para decidir sobre o seu próprio destino, temos o direito a saber a verdade! Mas, se nisso acreditam, então Portugal será um doente cerebralmente morto... Ou seja, terá já morrido a democracia".

Nos últimos tempos tenho ouvido muitas vezes ser evocado o “interesse nacional” a propósito da economia portuguesa. De membros do Governo a comentadores, passando pelo próprio Presidente da República, vão-nos dizendo, entre dentes, que o melhor é estarmos caladinhos com esta coisa do défice e da dívida pública. Afinal, afirmam, já nos bastam esses “especuladores” estrangeiros a dizerem que estamos muito mal. E acrescentam: “temos que dizer que estamos melhor do que a Grécia para defender os interesses nacionais”.
Contudo, eu (como 99,99% dos portugueses) não tenho capacidade para avaliar a real situação do país. Tenho, por isso, que “acreditar” ou “não acreditar” no que vão dizendo.
Não vou, por isso, defender aqui a credibilidade dos avisos preocupantes que vêm do exterior sobre esta matéria. Mas não deixo de os ouvir e de me interrogar se estamos ou não à beira do abismo.
A questão está por isso no domínio da credibilidade de quem profere as afirmações. Devo acreditar no Presidente da República e nos membros do Governo sobre esta matéria? Ou devo acreditar em algumas “sumidades” mundiais que nos colocam a um passo do descalabro económico-financeiro?
Há, para já, dois indicadores que me preocupam no discurso dos portugueses que defendem a “saúde” relativa das nossas contas públicas.
Um desses indicadores é a evolução do discurso e dos números. O que nos foi dito há dois ou três meses é radicalmente diferente do que hoje nos é dito. Se o TGV e o Aeroporto (entre outras obras) eram obras imprescindíveis há três meses, hoje a sua construção é adiável. Se os impostos eram intocáveis há três meses atrás, a efectiva subida da carga fiscal é hoje uma realidade e parece nem resolver. Se os salários dos funcionários públicos eram inquestionáveis no trimestre passado, hoje estão congelados até 2013…
Ora, ou há três meses me mentiam ou Portugal é absolutamente incapaz de fazer contas. Na verdade, nos últimos três meses, nada de especialmente imprevisível se passou na economia. Pelo contrário, dizem-me que saímos da recessão. Daí que coloque a questão: porque razão hei-de agora dar credibilidade a quem demonstrou não a ter?
Mas há um segundo indicador que é fonte de preocupação no discurso português nesta matéria: é a permanente invocação do “interesse nacional”!
Explicando melhor, o que mais me preocupa é a expressão usada por Cavaco Silva quando afirma “temos que defender Portugal”.
Eu percebo que os mercados financeiros são sensíveis ao discurso. Mas quem de facto acredita na saúde e na recuperação das contas públicas nacionais não manifesta a sua posição justificando as suas afirmações com o “interesse nacional”. Quem acredita, defende simplesmente o que acredita, com números, com factos e com verdade, sobretudo, quando esse alguém é economista, já foi Ministro das Finanças, Primeiro-Ministro e é agora Presidente da República.
Mentir em nome do interesse nacional é o pior serviço que se pode prestar à Nação. E nem eu nem ninguém irá compreender que nos tenham mentido, apenas para não piorar o deplorável estado da Nação.
Um dos direitos de um doente é ter plena consciência do seu estado de saúde. E os médicos são deontologicamente obrigados a comunicá-lo, mesmo que a notícia possa agravar o estado anímico do doente. Afinal, se vamos morrer temos o direito a sabê-lo. E temos até o direito a tentar salvar-nos por outras vias… escolhendo outro médico que não nos minta, por exemplo.
A menos que os políticos portugueses que estão no poder acreditem que o doente que se chama Portugal já tenha perdido a consciência e que já não tenha sequer capacidade para decidir sobre o seu próprio destino, temos o direito a saber a verdade! Mas, se nisso acreditam, então Portugal será um doente cerebralmente morto... Ou seja, terá já morrido a democracia.