sexta-feira, 23 de abril de 2010

Um pouco estranho

Há dias ouvi Emídio Rangel numa comissão parlamentar referir-se às agências de comunicação como se delas viesse todo o mal do Mundo, nomeadamente, o mal que incomoda o mundo do Governo e de José Sócrates, coitadinho (palavra minha), tão atacado por essa infame actividade.
Rangel lançou sobre as agências de comunicação a acusação de “plantarem notícias” e urdirem estratégias de assassinatos de carácter.
Ontem, também no Parlamento, mas em pleno hemiciclo, Fernando Negrão acusou os corruptos e arguidos (presumo que de área política diferente daquela a que se referia Rangel) de “até já terem assessores de imprensa”.
É um pouco estranho que as principais agências de comunicação, nomeadamente aquelas que têm prestado serviços ao PS, ao Governo e também das que o fazem ao PSD (nalguns casos, as mesmas) não se insurjam perante tão ferozes ataques. E é também estranho que as organizações que representam o sector não manifestem, também, a sua indignação quando, sobre todas as agências e, no fundo, também sobre jornalistas, é lançado um anátema que nem sempre lhes encaixa.
Como é estranho que numa altura em que tanto se discute a liberdade de imprensa e de expressão, ninguém peça em sede de comissão de ética a Emídio Rangel que explique quais são essas agências e, já agora, que espécie de jornais e jornalistas aceitam a “plantação de notícias” e… a troco de quê o fazem. E que, por uma vez, sejam pedidos casos concretos e nomes (de assessores e jornalistas) que praticam tais actos.
É que, de outra forma, a “infâmia” de que se queixa o PS - e em uníssono Emídio Rangel - está a ser combatida com outra infâmia, por ventura, ainda mais vaga e injusta.
Quanto a Fernando Negrão talvez fosse melhor fazer-lhe perceber que o problema da Justiça não é a capacidade de comunicação ou de defesa dos arguidos, mas a incapacidade da Justiça para acusar e condenar. E, já agora, a absoluta e histórica inabilidade que o sistema judicial português tem para comunicar. Problema que, talvez, uma boa agência de comunicação pudesse ajudar a resolver com grandes vantagens para a credibilização da Justiça e, logo, com grandes vantagens para o País.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Incêndio no Rossio

Um incêndio de grandes dimensões deflagrou esta noite no Rossio e atinge já vários edifícios, aparentemente desabitados. As recordações são inevitáveis. A história, essa, não perdoa a incúria dos homens. Ouvi um dia alguém dizer que há três formas de destruir uma cidade: com uma catástrofe natural, com uma guerra ou com uma má lei do arrendamento. A mais destrutiva é a terceira.

A técnica da política

Sempre critiquei os políticos por não tomarem decisões políticas e se pendurarem em soluções técnicas que explicam todas as suas opções. Contudo, eu pensava que nos últimos dias os aviões não voavam por questões técnicas. Hoje fiquei a saber que voltam a voar por opções políticas. É confuso? Sim é. Talvez por isso seja melhor ficar por casa por estes dias…

segunda-feira, 19 de abril de 2010

O interesse nacional e direito à verdade

"A menos que os políticos portugueses que estão no poder acreditem que o doente que se chama Portugal já tenha perdido a consciência e que já não tenha sequer capacidade para decidir sobre o seu próprio destino, temos o direito a saber a verdade! Mas, se nisso acreditam, então Portugal será um doente cerebralmente morto... Ou seja, terá já morrido a democracia".

Nos últimos tempos tenho ouvido muitas vezes ser evocado o “interesse nacional” a propósito da economia portuguesa. De membros do Governo a comentadores, passando pelo próprio Presidente da República, vão-nos dizendo, entre dentes, que o melhor é estarmos caladinhos com esta coisa do défice e da dívida pública. Afinal, afirmam, já nos bastam esses “especuladores” estrangeiros a dizerem que estamos muito mal. E acrescentam: “temos que dizer que estamos melhor do que a Grécia para defender os interesses nacionais”.
Contudo, eu (como 99,99% dos portugueses) não tenho capacidade para avaliar a real situação do país. Tenho, por isso, que “acreditar” ou “não acreditar” no que vão dizendo.
Não vou, por isso, defender aqui a credibilidade dos avisos preocupantes que vêm do exterior sobre esta matéria. Mas não deixo de os ouvir e de me interrogar se estamos ou não à beira do abismo.
A questão está por isso no domínio da credibilidade de quem profere as afirmações. Devo acreditar no Presidente da República e nos membros do Governo sobre esta matéria? Ou devo acreditar em algumas “sumidades” mundiais que nos colocam a um passo do descalabro económico-financeiro?
Há, para já, dois indicadores que me preocupam no discurso dos portugueses que defendem a “saúde” relativa das nossas contas públicas.
Um desses indicadores é a evolução do discurso e dos números. O que nos foi dito há dois ou três meses é radicalmente diferente do que hoje nos é dito. Se o TGV e o Aeroporto (entre outras obras) eram obras imprescindíveis há três meses, hoje a sua construção é adiável. Se os impostos eram intocáveis há três meses atrás, a efectiva subida da carga fiscal é hoje uma realidade e parece nem resolver. Se os salários dos funcionários públicos eram inquestionáveis no trimestre passado, hoje estão congelados até 2013…
Ora, ou há três meses me mentiam ou Portugal é absolutamente incapaz de fazer contas. Na verdade, nos últimos três meses, nada de especialmente imprevisível se passou na economia. Pelo contrário, dizem-me que saímos da recessão. Daí que coloque a questão: porque razão hei-de agora dar credibilidade a quem demonstrou não a ter?
Mas há um segundo indicador que é fonte de preocupação no discurso português nesta matéria: é a permanente invocação do “interesse nacional”!
Explicando melhor, o que mais me preocupa é a expressão usada por Cavaco Silva quando afirma “temos que defender Portugal”.
Eu percebo que os mercados financeiros são sensíveis ao discurso. Mas quem de facto acredita na saúde e na recuperação das contas públicas nacionais não manifesta a sua posição justificando as suas afirmações com o “interesse nacional”. Quem acredita, defende simplesmente o que acredita, com números, com factos e com verdade, sobretudo, quando esse alguém é economista, já foi Ministro das Finanças, Primeiro-Ministro e é agora Presidente da República.
Mentir em nome do interesse nacional é o pior serviço que se pode prestar à Nação. E nem eu nem ninguém irá compreender que nos tenham mentido, apenas para não piorar o deplorável estado da Nação.
Um dos direitos de um doente é ter plena consciência do seu estado de saúde. E os médicos são deontologicamente obrigados a comunicá-lo, mesmo que a notícia possa agravar o estado anímico do doente. Afinal, se vamos morrer temos o direito a sabê-lo. E temos até o direito a tentar salvar-nos por outras vias… escolhendo outro médico que não nos minta, por exemplo.
A menos que os políticos portugueses que estão no poder acreditem que o doente que se chama Portugal já tenha perdido a consciência e que já não tenha sequer capacidade para decidir sobre o seu próprio destino, temos o direito a saber a verdade! Mas, se nisso acreditam, então Portugal será um doente cerebralmente morto... Ou seja, terá já morrido a democracia.

domingo, 18 de abril de 2010

Dois em um:-Alberto João Jardim e o PSD não tem juízo! até á afirmação da sua Portucalidade.

--Estive a ler a notícia publicada no Diário de Notícias sobre a assumida Portucalidade de Alberto João Jardim e não caibo em mim de contente. Que diabo esta posição tão frontal , vinda de um senhor tão rezingão e que há relativamente pouco tempo ameaçava á direita e á esquerda que ainda um dia agarraria na Ilha e se pirava com ela Oceano adentro sem nos dar a direcção, é coisa para ficar a gente maravilhada.

--Não sei a que se deverá esta tomada de posição tão decidida, nem sequer irei dar bitaites sobre as hipóteses que poderão estar subjacentes a esta revelação e entrevista, mas não podia deixar de aqui assumir a minha satisfação que nisto de ter mais um Português e de gema, decidido a afirmar- se é notícia de grande monta que não poderia ser ignorada.

--E como há dias especiais em que parece que uma notícia boa nunca vem só e para não deixar cair nem uma das palavras do digno Presidente da Madeira, terei também que mencionar a sua frase bombástica sobre o seu partido , o laranja PSd, do qual Alberto João diz - e agora agarrem-se se faz favor os que pertencerem a esse partido que a frase para além de bombástica pode mesmo ser estonteante,seguindo-se então o seguinte:-"«O PSD não tem juízo"

--Bonito hein??
Do que sentirão os membros daquele Partido nem sequer me atrevo a tentar adivinhar, mas poderei imaginar que não devem sentir-se nada felizes quando ao acordar, se depararem á mesa do pequeno almoço com uma notícia destas; nem sei mesmo se o novo chefe laranja o Pedro Passos coelho não dará um salto na cadeira, correndo mesmo o infeliz risco de se engasgar com a possivel torrada , tentando enquadrar do que se terá passado, para de um dia para o outro, aparecer agora o Dirigente da Pérola do Atlântico que anteriormente havia assegurado que nada iria fazer contra a actual direcção do seu partido, a atirar uma destas sem aviso mas com fortíssimo agravo.

--O facto de mais adiante , Jardim afirmar que será aliado de José Sócrates nem que tenha que ir contra o PSD, também não dever ser das coisas mais agradáveis de se ler para nenhum dos seus colegas de Partido , fazendo supôr que a partir desta entrevista, nada voltará a ser como antes e que as coisas ali pelos lados PSD irão fatalmente tomar estranhos rumos nunca antes adivinhados pela antiga direcção, protagonizada por Ferreira Leite em passo acertado pelo do Pacheco Pereira que se já andava meio chateado quando na última Quadratura do Círculo teve que apanhar com a ironia do António Costa, acabará concerteza ainda mais irritado com esta de João Jardim que assim, de sorriso na cara e olhar perdido no Marítimo horizonte, de uma só penachada acabou por fazer rebentar a bomba que nem sequer é de Carnaval posto que o Carnaval já foi e a Festa agora é a da Flor.

--Para os que julgavam Jardim já de rumo tomado para uma certa reforma, a surpresa deve ser enorme.E o desgosto também.Quanto ao PSD de Passos Coelho que se cuide.Se isto ainda nem começou e já vamos neste caminho , quando chegarmos mais longe sabe-se lá o que mais poderá acontecer.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

A mentira e a propaganda

Para que se perceba o que está em causa, será últil começar por ler este primeiro artigo sobre o assunto. Contudo, a história é simples: lembram-se dos 200 euros que Sócrates prometeu, várias vezes, aos bebés que agora nasçam e que apenas ficam disponíveis daqui a 18 anos numa conta poupança? Pois bem, apesar de anunciado duas vezes (congresso do PS em 2009 e Portal do Governo a 1 de Fevereiro, como "a conta aprovada na comemoração dos 100 dias de Governo"), no Governo ninguém soube responder à pergunta: "o que tenho que fazer para beneficiar dos 200 euros", durante cerca de um mês inteiro. A pergunta foi passando de Ministério para Ministério e para Secretaria de Estado, regressando à origem. Agora, dois meses depois de nascida a criança, chegou a resposta dizendo que, apesar de aprovada e de feita a respectiva propaganda no Portal do Governo, é mentira! 200 euros numa conta poupança para bebés que nasçam em Portugal não se sabe ainda se ou quando. Leia a resposta agora dada pelo Governo e leia a troca anterior de e-mails neste artigo.

O e-mail hoje enviado pelo Governo:

Esta medida já foi aprovada na generalidade em Conselho de Ministros, devendo agora realizar-se um processo de audições públicas para que depois possa ser definitivamente aprovada e entrar em funcionamento até ao final do ano de 2010.

Informamos ainda que a ajuda inicial de 200€ concedida pelo Estado vai beneficiar apenas as crianças nascidas depois da entrada em funcionamento da "Conta Poupança-Futuro".

Com os melhores cumprimentos,

O Gabinete do Secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros


VER TAMBÉM OS SEGUINTES LINKS:
Comunicado do Conselhor de Ministros
Portal da Juventude

O enforcamento

A notícia foi dada esta manhã em tom fúnebre: “as escutas que envolviam José Sócrates foram destruídas. Ao acto assistiram apenas o Juiz de Instrução e um funcionário judicial”.
Não sei porquê, veio-me à ideia a execução de Sadam Hussein. A notícia foi muito semelhante e dada no mesmo tom. E também não soubemos com antecedência. Ninguém nos tinha avisado que era o dia do enforcamento.
Num e noutro caso, pensaram os executores que estava assim arrancada a erva daninha que ameaçava contaminar todo um país. Contudo, no caso do Iraque, a morte de Sadam não trouxe a paz e muito menos resolveu os problemas criados pelo ex-ditador.
As escutas a Sócrates poderiam ser inócuas do ponto de vista processual. E não me custa admitir que fossem mesmo ilegais. Mas, tal como aconteceu no Iraque, dificilmente a sua destruição espia pecados e pecadores.
Por mais que a queiramos contrariar, a História é implacável e, dentro de décadas, saber-nos-á contar com mais rigor, distanciamento e sem tantas esponjas o que continuou a acontecer no Iraque pós Sadam, e no Portugal pós escutas de Sócrates.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Brincamos com a informação ou quê?

Fico incrédula com as imensas coisas que se passam actualmente com o jornalismo em Portugal, nomeadamente com a descredibilização constante e fraca capacidade de dignificarmos uma área essencial na sociedade.

Como aluna que fui, durante uma licenciatura em Comunicação Social, e como interessada na matéria, sonhadora quiçá por um jornalismo mais humano, angustio-me diariamente com o caminho que o jornalismo atravessa.

Quem me conhece destas lides sabe que sou crítica, desde cedo que procurei ir para além do aprendido na sala de aula. Com o estágio no Jornal Público saltei a barreira do jornalista estagiário fechado numa redacção e agarrado à secretária. Passei 'tudo cá para fora' com o Parem as Máquinas, blogue de estágio dos durante três meses na redacção do Público no Porto.

Quem o leu e o lê identifica no blogue todas as sensações pelas quais qualquer um de nós atravessa durante o período de primeira experiência profissional: o encanto, o medo, o desejo de fazer, o desencanto, as angustias de não corresponder, as alegrias do primeiro artigo na edição impressa, enfim, tudo aquilo que é trabalho nosso e nos referência como profissionais.

Mas depois do encanto camuflado surge a constatação do mercado actual e da falta de emprego na área. Não exerço jornalismo neste momento, só colaboro em plataformas online porque gosto e não quero perder o gosto a isto. Mas depois, reiterando de novo a fórmula do desalento, aparecem situações como as tentativas de controlo dos OCS e jornalistas, e este recente caso de plágio descarado do jornal 'i'.

Meus amigos leitores e colegas, o que se passou afinal com o artigo do 'i' que parece cópia do artigo da Mashable? - 'É oficial: os gatos adoram o iPad' vs 'It’s Official: Cats Love iPads' -.
O Bruno Miguel lançou o barro à parede e foi mais longe que as críticas feitas no twitter: enviou carta aberta à direcção do diário português e, por sorte, teve resposta:


"Pedem desculpa por não mencionarem as fontes, apenas". MAS O QUE SE PASSA com o 'i' que só pede desculpas pelo acontecido? Estarão doidos, ao ponto de não exercer um dos parâmetros mais importantes da redacção e prática jornalística que é a identificação das fonte de informação!

Sinceramente esperava mais que um simples e tosco pedido de desculpas. A colega que escreveu o artigo ou das duas uma: pensa que os leitores são tolinhos e nunca se aperceberiam do transcrever literal do artigo da Mashable; ou andamos a brincar ao jornalismo, em que nem se consideram os princípios basilares do código deontológico.

Pescar e não ter peixe. Afinal o que é isto da rede?

Vamos pensar de forma lógica: a palavra rede remete-nos logo para peixe; peixe lembra-nos o histórico e literário sermão de Santo António aos peixes que, por sua vez, faz concluir que no fundo de tudo, muitas vezes nada mais fazemos na rede que pregar a um cardume desconhecido de seguidores.

A palavra rede é de personalidade dupla, um pouco como muitos dos utilizadores da internet. A rede de pesca nada tem a ver com a rede da wave partilhada pelos milhares de pessoas que usufruem da web 2.0, a internet caracterizada por ser mais dinâmica e social. Estar na dita rede pode parecer fácil: basta aceder à internet, criar uma conta no aplicativo que permita interagir com outros cibernautas, publicar textos e fotos e ver outros conteúdos. E, depois de dois parágrafos metafóricos vou começar por explicar porque me meti pela alegoria crítica dos vícios humanos e redes de peixe, se no fundo quero é falar de redes sociais.

Pois então, redes sociais lembram-nos fios emaranhados, ligações entrelaçadas entre utilizadores de plataformas online e, sem querermos mesmo, volta à lembrança a rede de pesca. Ora bolas, e os peixes? Onde afinal encaixo os peixes neste discurso todo? Que tal encaixá-los nos cerca de 1700 seguidores que tenho actualmente no twitter? E nos 14.830 tweets enviados e trocadores entre mim e a minha comunidade do pássaro azul? Todos estes números fazem parte da minha vida desde há um ano e meio atrás, altura em que passei a ser mais conhecida por @vanessaquiterio do que pelo nome que consta no BI, igual ao nick mas sem a inevitável “arroba”.

Alimentar uma rede tem muito que se lhe diga. É quase como dar de comer a um recém-nascido, que necessita de acompanhamento diário, dedicação e algum carinho. O dar tempo para a criação de relações, tanto profissionais como de simples “fazer amigos” é tarefa árdua, bem como dar conta à irremediável estratégia que se tem de ter para estar e saber estar online.

O actual problema das redes sociais e do que delas advém é mesmo a eterna questão da finalidade. Para além de sermos bombardeados constantemente com as inúmeras “britney sucks” (imagens desfocadas de ‘bots’ que pretendem ser nossos seguidores na plataforma dos 140 caracteres), chegam-nos diariamente os pedidos de amizade de personagens que deixam de dar “notícias” de um momento para o outro ou que não passam do “bom dia”, “boa tarde” e “boa noite” rotineiro. Afinal, tenho uma rede de contactos para criar informação, trocar ideias e partilhar links ou para coscuvilhar à janela, neste caso, de um ecrã de computador? Muitos de nós – utilizadores inevitáveis destas plataformas e da web dinâmica e social – nem nos apercebemos do quão pouco espertos somos ao não aproveitamos o “admirável mundo novo” das redes sociais.

Se deixarmos de lados as “britney sucks” e os “bons dias”, e apostarmos na construção de uma marca nossa, como a venda daquilo que somos ou gostamos, decerto que o tempo que perdemos online pouco ou nada se reflectirá no tempo que estamos offline.

Agora até podia dissertar sobre a imagem do Padre António Vieira e abordar a parte dos vícios humanos, que nos levava à questão dos “amigos” e “desamiganços” (termo traduzido do vocábulo britânico ‘unfriend’ e introduzido, em Novembro deste ano, no New Oxford American Dictionary) tão propícios do poder de um simples click. Mas nem vou entrar por ai. Concluo-o que muito mais que falar de redes e de cardumes racionais e interactivos, as redes sociais são plataformas dinamizadoras de maior conhecimento e bons instrumentos para vendermos, agora sim, o “nosso peixe”.

Vejam bem, se não fosse o pássaro azul e os meus tweets frenéticos sobre jornalismo, jazz e afins, neste momento não seria a Vanessa Quitério que sou hoje (apesar de ser mais a @vanessaquiterio), com trabalho feito e demonstrado através de blogues e plataformas colaborativas, que escreve artigos de opinião para trabalhos académicos de colegas. Pensem nisso, não na questão de mediatismo, mas de serem diferença no meio de tanta igualdade. A rede dá-nos esta oportunidade, pesquem-na!

*Adenda:
Este texto foi inicialmente cedido para um trabalho no âmbito da disciplina de Laboratório de Imprensa I, a uma aluna do 3º ano da Licenciatura em Comunicação Social do Instituto Superior Miguel Torga em Coimbra. Encontra-se neste momento também publicado na plataforma do Comunicamos.org, da UTAD, com a qual colaboro.

“Aquecimento Global” vs “Alterações Climáticas” e os erros de comunicação dos ecologistas

Os ecologistas cometeram vários erros de comunicação. Desde logo, o de tentarem assustar as pessoas com imagens apocalípticas. Não há pior comunicação do que a comunicação do medo. O medo é inimigo da boa comunicação e da credibilidade. Sobretudo, quando os efeitos daquilo que motiva a mensagem são pouco perceptíveis nos tempos mais próximos ou há boas probabilidades de não virem a ser sentidos (como é bom exemplo o caso da Gripe A, cujas consequências da forma irresponsável como foi comunicada, havemos de pagar caro quando houver, efectivamente, um problema grave de saúde pública).
No caso das alterações climáticas pelas quais o planeta está a passar, os efeitos mais visíveis, inequívocos e realmente assustadores acontecerão, sobretudo, numa altura em que provavelmente serão já irreversíveis. Logo, assustar a opinião pública numa época em que a informação se mede ao segundo, dá mau resultado. As consequências daquilo que se anuncia não obedecem ao mesmo ritmo da informação e, logo, resulta em descrédito.
Se me assustarem com o apocalipse e ele não acontecer hoje, amanhã ou depois de amanhã, deixo de acreditar que alguma vez aconteça: a não ser que me marquem um dia e hora exactos para o terrível evento, o que neste caso não é possível.
O outro erro cometido pela comunicação dos ecologistas foi terem falado em “aquecimento global”. Quando falam de “aquecimento global”, os ecologistas referem-se à temperatura média da atmosfera terrestre. Mesmo que estejamos a falar de 1 grau de elevação da temperatura média as consequências podem ser graves. Contudo, um grau de elevação de temperatura não é perceptível, nem em termos absolutos e muito menos quando falamos de temperatura média do globo.
Este discurso baseado no chavão do “aquecimento global” é ainda mais fatal quando se sabe que a consequência desse aquecimento é precisamente o aumento de fenómenos extremos, como nevar em zonas onde não era habitual ou chover intensamente noutros locais e em épocas secas. Estas duas consequências atmosféricas são muito mais perceptíveis do que serão um, dois ou até mais graus de elevação de temperatura média. Contudo, chuva e neve não jogam bem com “aquecimento global”.
Os ecologistas e as organizações ecologistas já perceberam este erro de comunicação e tentam agora realinhar o discurso introduzindo o termos mais correcto de “alterações climáticas”. Contudo, é difícil alterar um conceito que estava já enraizado na opinião pública e a mudança de “discurso” também não ajuda à credibilidade de uma mensagem.
A ideia do “aquecimento global” e a imagem apocalíptica que alguns procuraram gerar à sua volta não parecem ter sido, por isso, boas jogadas do ponto de vista da comunicação. Os defensores da ideia de que a coisa ecológica apenas serve para prejudicar a economia aproveitaram bem esse erro para ridicularizar o assunto e aproveitaram até os tais fenómenos extremos de frio para mostrar que, afinal, estamos é a arrefecer.
Mas, independentemente dos erros de comunicação que terão ou não cometido os ecologistas, a verdade só pode ser uma de duas: ou estamos ou não estamos a destruir o planeta com o excesso de CO2 na atmosfera.
No que me diz respeito, mais do que entrar ou gerar o pânico, apetece-me apelar a que, havendo dúvidas, se jogue pelo seguro. Afinal, a estarem errados, prefiro que estejam errados os que traçam os piores cenários. Mas o facto de não me agradarem cenários apocalípticos, não me pode retirar o discernimento de, pelo menos, dar benefício da dúvida a quem o merece e diz estarmos próximos do “ponto de não retorno”.
Na verdade – e sem capacidade científica para discernir entre quem tem razão: pessimistas ou optimistas –, parece-me menos grave se a humanidade cometer o excesso de tornar a economia mundial menos competitiva para que se trave a poluição desenfreada, do que se cometa a omissão de nada fazer e deixar, eventualmente, chegar o dia em que a natureza dê razão aos pessimistas… tarde de mais.

Sugestão de links: www.350.org/ e www.earth-condominium.com/pt/

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Vamos 'bater no ceguinho' (mais uma vez)?

Futebol, U. Leiria e estádio (vazio). É recorrente, no panorâma jornalístico, desportivo, abordar o tema. Convida-se a que se olhem os factos, isto é, os dados da Liga (peço desculpa, caro leitor, mas de momento não os tenho à mão), que revelam a Naval 1.º de Maio (2009/10), como o clube com mais fracas assistências. Alguém ouve/lê sobre isso? Não. Já quanto a Leiria, é raro quando não se fala no caso!

Recupero este momento, referente à última época, que ilustra a dualidade de critérios, na abordagem ao mesmo tema (estádios vazios).

Ah, e os leirienses gostam de futebol, contrariamente ao que li aqui. Não ir ao Estádio Dr. Magalhães Pessoa, não é sinónimo de falta de gosto pela modalidade. É que se formos por essa tese, então, também ninguém gosta de futebol na Figueira, como em tantas outras cidades.

É certo que é penoso ver estádios vazios. Sobretudo quando implica(ra)m grandes investimentos (Euro 2004). Agora, para quem pretender insistir no tema, sugere-se que se olhe para o todo, que se cruzem informações e que se seja o mais correcto possivel no que se escreve, no que se diz. É que se fossemos pela tese do senhor André Pipa, quantos clubes teriamos na I Liga? É que, assim de repente, que me recorde, estádios 'cheios', nos últimos anos e de forma regular, só na Luz, Alvalade, Dragão e D. Afonso Henriques.

Falamos depois...

"Freiras" e "padres" distribuem publicidade

Falsos padres e freiras distribuíam ontem nas ruas um folheto com um “teaser” a que já aqui me referi em artigo anterior. Definitivamente, trata-se de uma campanha publicitária. Campanha de mau gosto e que é muito mais do que um simples "teaser". Trata-se, de facto, da promoção da confusão no consumidor, usando a imagem da Igreja e, neste caso, aproveitando mesmo a vinda do Papa a Portugal. De qualquer forma, amanhã vamos saber que o "produto" está por detrás de uma frase (“teaser”) que ainda por cima tem um erro de português, é um stand de automóveis!! As rígidas leis que regulam a publicidade deveriam prevenir idiotices como esta.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Digital Literacy In The Networked World

O jornalismo sobre religião em Portugal

A independência do jornalista não depende da sua filiação ou preferência. A independência do jornalista depende exclusivamente da sua consciência e da sua competência. Sei que pode parecer estranho para quem nunca escreveu num jornal ou mesmo para muitos que escrevem. Mas é mesmo assim. E essa capacidade nada tem a ver com a ausência de espírito crítico. O jornalista não pode apenas ser um pau de microfone, que matematicamente questiona ambas as partes de uma forma acrítica e fria. E é este difícil equilíbrio que é difícil encontrar. O equilíbrio entre o espírito crítico, humano e rico, e a isenção e distanciamento, independente de convicções pessoais.
Vem isto a propósito da cobertura jornalística que a generalidade dos órgãos de comunicação social está a dar à visita do Papa a Portugal. Mas não seria necessária a visita papal. Há muito que noto, e me incomoda, uma certa tendência que se sente na comunicação social portuguesa. E essa tendência é clara: os assuntos religiosos são quase sempre tratados na comunicação social por católicos mais ou menos engajados ou formados na estrutura da própria Igreja.
Não me atrevo a questionar a legitimidade, independência ou capacidade jornalística de cada um deles individualmente, mas não deixa de ser estranho que assim seja e que ninguém na classe se questione sobre o assunto. Haja uma visita papal, uma inauguração de uma faustosa catedral em Fátima ou uma querela religiosa envolvendo protestantes ou islâmicos em Portugal, e a reportagem é feita, quase invariavelmente por diáconos, ex-padres, seminaristas e, ainda mais frequentemente, por católicos assumidos, cuja convicção religiosa transparece quer na linguagem quer na condução da própria narrativa.
E isto não acontece apenas nos órgãos de comunicação social mais conservadores. É olhar para as televisões privadas portuguesas, para as rádios nacionais ou para jornais com grande tiragem. E é olhar para os comentadores, cronistas, colunistas e “especialistas” que são convidados a falar ou a escrever, sempre que a Igreja Católica tem algo de positivo ou negativo para ser tratado.
Portugal é um país maioritariamente católico, dizem-me. Verdade. Mas também me dizem que há em Portugal seis milhões de benfiquistas e que nos últimos quatro anos vivemos com uma maioria absoluta socialista. Como não entenderia que a esmagadora maioria dos jornalistas, especialistas e comentadores de futebol ou política fossem evidentemente e confessadamente benfiquistas ou socialistas, não entendo porque razão os princípios do jornalismo se alteram quando o assunto é religioso.
Que Portugal tenha entregado, por razões históricas que compreendo, várias frequências nacionais de rádio, sem concurso, a uma confissão religiosa, posso aceitar. Que uma cerimónia católica em Fátima seja transmitida e comentada por um padre, posso concordar. Mas que os princípios do equilíbrio, isenção, distanciamento e espírito crítico sejam afectados, já não individualmente apenas por cada um dos jornalistas, mas desde logo pelos critérios na sua selecção, penso ser absolutamente discriminatório de outras confissões religiosas e, evidentemente, lesivo do próprio jornalismo.
Portugal pode ser um país maioritariamente católico, mas o Estado é laico. Assim como um Governo pode ser maioritariamente socialista e o Estado continuar a ser democrático. Mas, se a imprensa dá mostras de não ter gostado que os princípios democráticos da liberdade de imprensa fossem ou tivesse havido tentativas para os subverter, também deveria questionar-se sobre as razões que a levam a ser tão suavemente crítica sobre si própria quando o assunto é religioso.

A PEDOFILIA E A IGREJA (entrevista do Pe. Gonçalo Portocarrero ao Expresso)

A seguir, pode ler uma entrevista que o Padre Gonçalo Portocarrero de Almada concedeu ao Expresso, tendo respondido por e-mail às perguntas que lhe foram feitas.

A entrevista não foi usada na peça que o Expresso escreveu sobre o tema da pedofilia e a Igreja, sem que o Padre Gonçalo tenha recebido qualquer explicação ou sequer agradecimento pelo incómodo.

Como me parece que é de utilidade para todos com autorização do autor, divulgo-a hoje, agradecendo desde já ao Padre Gonçalo a clareza com que trata o assunto.



1. Qual a sua opinião sobre o fenómeno da pedofilia na Igreja Católica?

Pe. Gonçalo Portocarrero de Almada: Como é evidente, não posso deixar de lamentar todos os crimes de abusos de menores. Não só lamento sinceramente todos os casos de pedofilia como espero que as entidades civis e eclesiais competentes tomem as medidas adequadas para a total erradicação deste fenómeno na sociedade e na Igreja.

Não ignoro, contudo, que a esmagadora maioria destes casos ocorre no seio das famílias, sobretudo das mais disfuncionais, e das instituições do Estado, como o triste caso Casa Pia demonstrou, e não nas instituições da Igreja que, embora também vulneráveis, são, por regra, exemplares no seu desinteressado e muitas vezes heróico serviço aos mais necessitados.

2. Como explica o facto deste fenómeno ter assolado a Igreja Católica?

Pe. GPA: Há um manifesto exagero na afirmação de que este fenómeno tem «assolado a Igreja». Temo que o sensacionalismo criado à volta destes casos e o modo como a Igreja Católica tem sido a eles associada por certa imprensa não seja de todo inocente.

3. Quer exemplificar?

Pe. GPA: Com certeza. Segundo Massimo Introvigne, que cita um estudo de 2004 do John Jay College of Criminal Justice, foram 958 os padres acusados de pedofilia nos Estados Unidos, num período de 42 anos, tendo resultado a condenação de 54, aproximadamente um por ano. Se se tiver em conta que nesse mesmo lapso de tempo foram condenados pelo crime de pedofilia 6.000 professores de ginástica e treinadores desportivos, é necessário concluir que o principal alvo desta campanha mediática não é a pedofilia, que é apenas um pretexto, mas a Igreja e, mais especificamente, o Papa e o sacerdócio católico.

Com efeito, é significativo que, citando Jerkins, a maior parte dos casos de abusos de menores protagonizados nos Estados Unidos por clérigos tenham sido perpetrados por pastores protestantes e não por padres católicos e, no entanto, contrariando a mais elementar justiça e objectividade, são apenas estes últimos, em termos mediáticos, os bodes expiatórios...

4. Entende então que se trata de uma perseguição contra a Igreja Católica?

Pe. GPA: Certamente. Qualquer pessoa de bem, mesmo não sendo católica, vê com preocupação esta crescente onda de intolerância laicista, porque sabe que, hostilizada a Igreja Católica ou neutralizada a sua acção social, quem fica a perder é a família, porque nem o Estado nem nenhuma outra instituição é capaz de assegurar o serviço que a Igreja Católica presta às famílias portuguesas, sobretudo às mais carenciadas.

5. A Igreja portuguesa está a investigar com a necessária diligência as suspeitas sobre padres pedófilos?

Pe. GPA: Muito embora a hierarquia eclesiástica não possa, nem deva, ignorar as suspeitas de padres pedófilos, não só não é sua principal missão investigar estes casos como também não conta com estruturas adequadas para uma tal missão.

Mais do que a lógica da suspeita e da delação, tão ao gosto dos novos fariseus, a Igreja há dois mil anos que se rege pela lógica da confiança e do perdão, seguindo o exemplo do seu Mestre que, embora provocando a indignação dos hipócritas, desculpou a adúltera, como também perdoou a tripla traição de Pedro. Mais do que poder ou tribunal, a Igreja é comunhão e família e, por isso, alegra-se e sofre com todas as glórias e misérias dos seus filhos.

A Igreja, que é santa na sua origem e nos seus fins, é pecadora nos seus membros militantes que, contudo, não enjeita, se neles reconhece um autêntico propósito de conversão.

6. Quer com isso dizer que a Igreja condescende com a pedofilia do seu clero?

Pe. GPA: De modo nenhum, pois a Igreja não condescende nunca com a prevaricação de quantos, investidos na especialíssima responsabilidade do ministério sacerdotal, desonram essa sua condição.

Possivelmente, a condenação mais severa de todo o Evangelho é a que Cristo dirige precisamente aos pedófilos e a quantos são motivo de escândalo para os mais novos. Esse ensinamento evangélico, como todos os outros, não é letra morta na doutrina, nem na praxe eclesial.

7. Pode dar alguns exemplos de documentos da Igreja sobre esta questão?

Pe. GPA: Sem a pretensão de ser exaustivo, permita-me que, a este propósito, recorde alguns dos mais recentes documentos da Santa Sé sobre este particular:

- a instrução Crimen sollicitacionis, de 1922 e que, em 1962, o Beato João XXIII reafirmou e na qual se esclarece a obrigação moral de denunciar estes casos;

- o Código de Direito Canónico, que reafirma a excomunhão automática, ou seja, a imediata expulsão da Igreja, do confessor que alicia o penitente, qualquer que seja a sua idade ou género, para um acto de natureza sexual;

- o Catecismo da Igreja Católica, que renova a condenação da pedofilia;

- e o documento De delictis gravioribus, de 2001, que regulamenta o Motu Proprio Sacramentum Sanctitatis tutela, do Papa João Paulo II que, para evitar qualquer local encobrimento destes delitos, atribui a necessária competência à Congregação para a Doutrina da Fé, então presidida pelo actual Papa.

8. Não obstante esta condenação formal da pedofilia, não é verdade que tem faltado vontade política de aplicar as correspondentes sanções?

Pe. GPA: À hierarquia da Igreja não tem faltado a firmeza necessária para punir os eclesiásticos que incorreram em actos desta natureza. Foi o que aconteceu a um cardeal arcebispo de uma capital centro-europeia, que foi recluído num convento e proibido de qualquer acto público. Foi também o caso do fundador de uma prestigiada instituição religiosa, que foi também suspenso do ministério pastoral, demitido das suas funções de governo na estrutura eclesial por ele fundada, que foi sujeita a inspecção canónica, e obrigado a residir em regime de quase-detenção numa casa religiosa.

9. E se se vier a verificar algum caso no clero português?

Pe. GPA: Como se sabe, graças a Deus não há memória de nenhum sacerdote português, diocesano ou religioso, que tenha sido alguma vez condenado por um crime desta natureza. Se porventura se desse também entre nós algum caso, não tenho dúvidas de que o nosso episcopado, de acordo com as normas a que está obrigado, saberia agir com justiça e caridade.

10. Concorda com as críticas veladas de vários sectores da sociedade que acusam a Igreja de pouco fazer para garantir a total transparência destes processos? A maioria dos casos suspeitos é, regra geral, arquivado pelo Ministério Público. Segundo algumas fontes policiais, «as vítimas retraem-se mais tarde, devido ao ascendente dos alegados agressores».

Pe. GPA: Dada a minha sensibilidade cristã e formação jurídica, causa-me algum desconforto o uso e abuso de expressões tão vagas e perigosas como «críticas veladas», «casos suspeitos», «alegados agressores», porque tendem a criar uma suspeição generalizada. Há um princípio geral de inocência que não pode ser contrariado: um político, um professor, um padre ou um desempregado que seja burlão não faz da sua mesma condição todos os políticos, professores, padres ou desempregados. Se um violador que é engenheiro, como o recentemente detido, não infama todos os engenheiros, nem suscita uma caça aos engenheiros violadores, porque razão um padre pedófilo, se o houver, provoca esta tão desmedida reacção nos meios de comunicação social?!

11. Pode-se dizer que a associação entre pedofilia e sacerdócio católico não é arbitrária, na medida em que é entre os padres que tendem a verificar-se delitos desta natureza?

Pe. GPA: Não, porque uma tal pressuposição carece de fundamento, como as estatísticas mais recentes provam. Por exemplo, na Alemanha, segundo Andrea Tornielli foram notificados, desde 1995, 210.000 casos de delitos contra menores, mas apenas 94 desses casos diziam respeito a eclesiásticos, ou seja, um para cada dois mil envolvia algum sacerdote ou religioso católico. O inquérito Ryan, sobre a situação na Irlanda, é também esclarecedor porque, num universo de 1090 crimes cometidos contra menores em instituições educativas, os religiosos católicos acusados de abusos sexuais foram 23.

12. Talvez alguém entenda que, muito embora haja também pedófilos que não são padres, o crime para que mais tendem os sacerdotes católicos é o abuso de menores.

Pe. GPA: Também não é verdade porque, de acordo com Mons. Scicluna, perito da Congregação para a Doutrina da Fé, que é o organismo da Santa Sé que superintende estes casos, entre os anos 2001 e 2010, houve notícia de 300 casos de pedofilia num total de 400.000 padres. Além disso, os abusos de menores são apenas 10% de todas as acções criminais praticadas por sacerdotes católicos.

13. Mas do ponto de vista da psiquiatria, tudo leva a crer que o celibato sacerdotal é, em boa parte, responsável pelos abusos de menores realizados pelo clero católico…

Pe. GPA: Pelo contrário. Manfred Lutz, um psiquiatra especialista na matéria, afirmou que o celibato sacerdotal não só não incita à prática destes crimes como até favorece uma atitude de respeito e de ajuda aos menores. Esta conclusão científica prova-se também pelo facto de, entre os clérigos condenados por este crime, haver mais pastores protestantes, casados, do que sacerdotes católicos, celibatários, e ainda porque a grande maioria dos pedófilos são casados o que, obviamente, não pode ser usado contra o casamento.

14. Consta na opinião pública que a maioria dos casos suspeitos de padres pedófilos, não é objecto de investigação, nem de posterior procedimento criminal…

Pe. GPA: Se assim é, de facto, não é certamente por culpa da Igreja, que nada tem a ver com as investigações policiais, nem muito menos com as diligências judiciais.

Embora se tenda a crer que a Igreja e o seu clero gozam de um tratamento de excelência na sociedade portuguesa, a verdade é que não deve haver instituição pública nem classe profissional mais maltratada nos media do que a Igreja Católica e os seus sacerdotes.

15. Porque o diz?

Pe. GPA: Permita-me que lhe dê um exemplo. Há uns meses atrás, um pacato pároco português foi detido com enorme aparato por quatro ou cinco polícias trajados a rigor, como se o pobre padre de aldeia fosse um perigoso terrorista, quando na realidade era apenas um mero caçador que tinha por licenciar algumas armas. À notícia, transmitida nos noticiários televisivos, foi dado um aparato que, de não ser dramático, teria sido ridículo, até porque aquele pacífico sexagenário não representava nenhum perigo público. Não foi com certeza por acaso que se forjou toda aquela fantástica encenação, como também não foi por acaso que se convidaram as televisões…

Mas factos ocorridos há dezenas de anos numa instituição pública, como a Casa Pia, e de que foram vítimas dezenas de adolescentes, ainda não conhecem uma decisão judicial… Será isto justiça?!

16. Mas não acha que o incumprimento de uma obrigação por um padre é um escândalo?

Pe. GPA: É verdade que é exigível aos prestadores de serviços públicos uma especial responsabilidade: é razoável que o incumprimento de uma obrigação fiscal por parte um governante seja notícia, mas já o não seja se o prevaricador for um anónimo cidadão. Mas o escândalo não pode ser utilizado como arma de arremesso ideológica, sob pena de que aconteça aos padres católicos de agora o que aconteceu aos judeus alemães, durante o regime nazi.

17. Surpreendem-no estes casos de padres pedófilos?

Pe. GPA: Nenhum pecado é surpresa para nenhum padre e todos os padres sabemos que somos capazes de todos os erros e de todos os horrores. Não é por acaso que, na Semana Santa, a Igreja recorda o tristíssimo caso de Judas Iscariotes, que muito significativamente os evangelistas não silenciaram, quando poderiam tê-lo feito, a bem do prestígio da sua condição sacerdotal e do bom nome da Igreja. Graças a Deus conheço muitos padres, quer seculares como eu, quer religiosos, e confesso-lhe que não conheço nenhum que não mereça a minha admiração.

18. Tem ouvido, mesmo que rumores, de casos de pedofilia por parte de alguns padres? Ou é uma completa surpresa para si a existência deste tipo de casos, que acabam por manchar o nome da instituição secular?

Pe. GPA: Tenho uma enorme devoção por todos os meus irmãos sacerdotes, na certeza de que até no menos bom há, pelo menos, a grandeza do dom e da missão a que foi chamado. Também não ignoro que nenhum de nós, por mais qualidades que possa ter, é indigno dessa graça, pelo que nunca me surpreenderá encontrar nos outros alguma da miséria que diariamente descubro em mim. Mas, mesmo que essa constatação possa de algum modo perturbar-me, confesso-lhe que mais do que a traição de Judas, me admira a santidade e o martírio dos outros onze apóstolos. Talvez por isso, não tenho tempo para ouvir esses rumores de que fala, ou tempo para olhar para essas manchas a que alude e que não ignoro, porque prefiro contemplar a eterna beleza da Igreja, que procuro amar com todo o meu coração.

19. Já denunciou algum caso às autoridades eclesiásticas?

Pe. GPA: Denunciar é um termo que não faz parte do meu dicionário e, como padre, a minha missão não é acusar o culpado, mas perdoar o arrependido.

20. Já teve alguma suspeita de abusos por parte de algum colega seu?

Pe. GPA: Como não é meu hábito falar das vidas alheias, permita-me que, em vez de falar dos meus colegas, lhe diga o que eu desejaria que me acontecesse se caísse numa dessas situações, até porque é isso mesmo que desejo aos meus irmãos sacerdotes.

Se tivesse um dia a desgraça de incorrer nalgum comportamento menos próprio da minha condição sacerdotal, agradeceria que os meus irmãos na fé, padres ou não, tivessem a coragem de me fazerem a correcção fraterna, tal como Nosso Senhor determinou. Se o meu desvario persistisse, não obstante essa caridosa advertência, aceitaria de muito bom grado que o meu bispo utilizasse todos os meios ao seu dispor, sem excluir os civis e penais, para a minha emenda, na certeza de que essa expiação, embora dolorosa, contribuiria decerto para o bem das almas e para a minha salvação.