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quinta-feira, 15 de abril de 2010
“Aquecimento Global” vs “Alterações Climáticas” e os erros de comunicação dos ecologistas
No caso das alterações climáticas pelas quais o planeta está a passar, os efeitos mais visíveis, inequívocos e realmente assustadores acontecerão, sobretudo, numa altura em que provavelmente serão já irreversíveis. Logo, assustar a opinião pública numa época em que a informação se mede ao segundo, dá mau resultado. As consequências daquilo que se anuncia não obedecem ao mesmo ritmo da informação e, logo, resulta em descrédito.
Se me assustarem com o apocalipse e ele não acontecer hoje, amanhã ou depois de amanhã, deixo de acreditar que alguma vez aconteça: a não ser que me marquem um dia e hora exactos para o terrível evento, o que neste caso não é possível.
O outro erro cometido pela comunicação dos ecologistas foi terem falado em “aquecimento global”. Quando falam de “aquecimento global”, os ecologistas referem-se à temperatura média da atmosfera terrestre. Mesmo que estejamos a falar de 1 grau de elevação da temperatura média as consequências podem ser graves. Contudo, um grau de elevação de temperatura não é perceptível, nem em termos absolutos e muito menos quando falamos de temperatura média do globo.
Este discurso baseado no chavão do “aquecimento global” é ainda mais fatal quando se sabe que a consequência desse aquecimento é precisamente o aumento de fenómenos extremos, como nevar em zonas onde não era habitual ou chover intensamente noutros locais e em épocas secas. Estas duas consequências atmosféricas são muito mais perceptíveis do que serão um, dois ou até mais graus de elevação de temperatura média. Contudo, chuva e neve não jogam bem com “aquecimento global”.
Os ecologistas e as organizações ecologistas já perceberam este erro de comunicação e tentam agora realinhar o discurso introduzindo o termos mais correcto de “alterações climáticas”. Contudo, é difícil alterar um conceito que estava já enraizado na opinião pública e a mudança de “discurso” também não ajuda à credibilidade de uma mensagem.
A ideia do “aquecimento global” e a imagem apocalíptica que alguns procuraram gerar à sua volta não parecem ter sido, por isso, boas jogadas do ponto de vista da comunicação. Os defensores da ideia de que a coisa ecológica apenas serve para prejudicar a economia aproveitaram bem esse erro para ridicularizar o assunto e aproveitaram até os tais fenómenos extremos de frio para mostrar que, afinal, estamos é a arrefecer.
Mas, independentemente dos erros de comunicação que terão ou não cometido os ecologistas, a verdade só pode ser uma de duas: ou estamos ou não estamos a destruir o planeta com o excesso de CO2 na atmosfera.
No que me diz respeito, mais do que entrar ou gerar o pânico, apetece-me apelar a que, havendo dúvidas, se jogue pelo seguro. Afinal, a estarem errados, prefiro que estejam errados os que traçam os piores cenários. Mas o facto de não me agradarem cenários apocalípticos, não me pode retirar o discernimento de, pelo menos, dar benefício da dúvida a quem o merece e diz estarmos próximos do “ponto de não retorno”.
Na verdade – e sem capacidade científica para discernir entre quem tem razão: pessimistas ou optimistas –, parece-me menos grave se a humanidade cometer o excesso de tornar a economia mundial menos competitiva para que se trave a poluição desenfreada, do que se cometa a omissão de nada fazer e deixar, eventualmente, chegar o dia em que a natureza dê razão aos pessimistas… tarde de mais.
Sugestão de links: www.350.org/ e www.earth-condominium.com/pt/
quarta-feira, 14 de abril de 2010
Vamos 'bater no ceguinho' (mais uma vez)?
Recupero este momento, referente à última época, que ilustra a dualidade de critérios, na abordagem ao mesmo tema (estádios vazios).
Ah, e os leirienses gostam de futebol, contrariamente ao que li aqui. Não ir ao Estádio Dr. Magalhães Pessoa, não é sinónimo de falta de gosto pela modalidade. É que se formos por essa tese, então, também ninguém gosta de futebol na Figueira, como em tantas outras cidades.
É certo que é penoso ver estádios vazios. Sobretudo quando implica(ra)m grandes investimentos (Euro 2004). Agora, para quem pretender insistir no tema, sugere-se que se olhe para o todo, que se cruzem informações e que se seja o mais correcto possivel no que se escreve, no que se diz. É que se fossemos pela tese do senhor André Pipa, quantos clubes teriamos na I Liga? É que, assim de repente, que me recorde, estádios 'cheios', nos últimos anos e de forma regular, só na Luz, Alvalade, Dragão e D. Afonso Henriques.
Falamos depois...
"Freiras" e "padres" distribuem publicidade
Falsos padres e freiras distribuíam ontem nas ruas um folheto com um “teaser” a que já aqui me referi em artigo anterior. Definitivamente, trata-se de uma campanha publicitária. Campanha de mau gosto e que é muito mais do que um simples "teaser". Trata-se, de facto, da promoção da confusão no consumidor, usando a imagem da Igreja e, neste caso, aproveitando mesmo a vinda do Papa a Portugal. De qualquer forma, amanhã vamos saber que o "produto" está por detrás de uma frase (“teaser”) que ainda por cima tem um erro de português, é um stand de automóveis!! As rígidas leis que regulam a publicidade deveriam prevenir idiotices como esta.
terça-feira, 13 de abril de 2010
O jornalismo sobre religião em Portugal
Vem isto a propósito da cobertura jornalística que a generalidade dos órgãos de comunicação social está a dar à visita do Papa a Portugal. Mas não seria necessária a visita papal. Há muito que noto, e me incomoda, uma certa tendência que se sente na comunicação social portuguesa. E essa tendência é clara: os assuntos religiosos são quase sempre tratados na comunicação social por católicos mais ou menos engajados ou formados na estrutura da própria Igreja.
Não me atrevo a questionar a legitimidade, independência ou capacidade jornalística de cada um deles individualmente, mas não deixa de ser estranho que assim seja e que ninguém na classe se questione sobre o assunto. Haja uma visita papal, uma inauguração de uma faustosa catedral em Fátima ou uma querela religiosa envolvendo protestantes ou islâmicos em Portugal, e a reportagem é feita, quase invariavelmente por diáconos, ex-padres, seminaristas e, ainda mais frequentemente, por católicos assumidos, cuja convicção religiosa transparece quer na linguagem quer na condução da própria narrativa.
E isto não acontece apenas nos órgãos de comunicação social mais conservadores. É olhar para as televisões privadas portuguesas, para as rádios nacionais ou para jornais com grande tiragem. E é olhar para os comentadores, cronistas, colunistas e “especialistas” que são convidados a falar ou a escrever, sempre que a Igreja Católica tem algo de positivo ou negativo para ser tratado.
Portugal é um país maioritariamente católico, dizem-me. Verdade. Mas também me dizem que há em Portugal seis milhões de benfiquistas e que nos últimos quatro anos vivemos com uma maioria absoluta socialista. Como não entenderia que a esmagadora maioria dos jornalistas, especialistas e comentadores de futebol ou política fossem evidentemente e confessadamente benfiquistas ou socialistas, não entendo porque razão os princípios do jornalismo se alteram quando o assunto é religioso.
Que Portugal tenha entregado, por razões históricas que compreendo, várias frequências nacionais de rádio, sem concurso, a uma confissão religiosa, posso aceitar. Que uma cerimónia católica em Fátima seja transmitida e comentada por um padre, posso concordar. Mas que os princípios do equilíbrio, isenção, distanciamento e espírito crítico sejam afectados, já não individualmente apenas por cada um dos jornalistas, mas desde logo pelos critérios na sua selecção, penso ser absolutamente discriminatório de outras confissões religiosas e, evidentemente, lesivo do próprio jornalismo.
Portugal pode ser um país maioritariamente católico, mas o Estado é laico. Assim como um Governo pode ser maioritariamente socialista e o Estado continuar a ser democrático. Mas, se a imprensa dá mostras de não ter gostado que os princípios democráticos da liberdade de imprensa fossem ou tivesse havido tentativas para os subverter, também deveria questionar-se sobre as razões que a levam a ser tão suavemente crítica sobre si própria quando o assunto é religioso.
A PEDOFILIA E A IGREJA (entrevista do Pe. Gonçalo Portocarrero ao Expresso)
A entrevista não foi usada na peça que o Expresso escreveu sobre o tema da pedofilia e a Igreja, sem que o Padre Gonçalo tenha recebido qualquer explicação ou sequer agradecimento pelo incómodo.
Como me parece que é de utilidade para todos com autorização do autor, divulgo-a hoje, agradecendo desde já ao Padre Gonçalo a clareza com que trata o assunto.
1. Qual a sua opinião sobre o fenómeno da pedofilia na Igreja Católica?
Pe. Gonçalo Portocarrero de Almada: Como é evidente, não posso deixar de lamentar todos os crimes de abusos de menores. Não só lamento sinceramente todos os casos de pedofilia como espero que as entidades civis e eclesiais competentes tomem as medidas adequadas para a total erradicação deste fenómeno na sociedade e na Igreja.
Não ignoro, contudo, que a esmagadora maioria destes casos ocorre no seio das famílias, sobretudo das mais disfuncionais, e das instituições do Estado, como o triste caso Casa Pia demonstrou, e não nas instituições da Igreja que, embora também vulneráveis, são, por regra, exemplares no seu desinteressado e muitas vezes heróico serviço aos mais necessitados.
2. Como explica o facto deste fenómeno ter assolado a Igreja Católica?
Pe. GPA: Há um manifesto exagero na afirmação de que este fenómeno tem «assolado a Igreja». Temo que o sensacionalismo criado à volta destes casos e o modo como a Igreja Católica tem sido a eles associada por certa imprensa não seja de todo inocente.
3. Quer exemplificar?
Pe. GPA: Com certeza. Segundo Massimo Introvigne, que cita um estudo de 2004 do John Jay College of Criminal Justice, foram 958 os padres acusados de pedofilia nos Estados Unidos, num período de 42 anos, tendo resultado a condenação de 54, aproximadamente um por ano. Se se tiver em conta que nesse mesmo lapso de tempo foram condenados pelo crime de pedofilia 6.000 professores de ginástica e treinadores desportivos, é necessário concluir que o principal alvo desta campanha mediática não é a pedofilia, que é apenas um pretexto, mas a Igreja e, mais especificamente, o Papa e o sacerdócio católico.
Com efeito, é significativo que, citando Jerkins, a maior parte dos casos de abusos de menores protagonizados nos Estados Unidos por clérigos tenham sido perpetrados por pastores protestantes e não por padres católicos e, no entanto, contrariando a mais elementar justiça e objectividade, são apenas estes últimos, em termos mediáticos, os bodes expiatórios...
4. Entende então que se trata de uma perseguição contra a Igreja Católica?
Pe. GPA: Certamente. Qualquer pessoa de bem, mesmo não sendo católica, vê com preocupação esta crescente onda de intolerância laicista, porque sabe que, hostilizada a Igreja Católica ou neutralizada a sua acção social, quem fica a perder é a família, porque nem o Estado nem nenhuma outra instituição é capaz de assegurar o serviço que a Igreja Católica presta às famílias portuguesas, sobretudo às mais carenciadas.
5. A Igreja portuguesa está a investigar com a necessária diligência as suspeitas sobre padres pedófilos?
Pe. GPA: Muito embora a hierarquia eclesiástica não possa, nem deva, ignorar as suspeitas de padres pedófilos, não só não é sua principal missão investigar estes casos como também não conta com estruturas adequadas para uma tal missão.
Mais do que a lógica da suspeita e da delação, tão ao gosto dos novos fariseus, a Igreja há dois mil anos que se rege pela lógica da confiança e do perdão, seguindo o exemplo do seu Mestre que, embora provocando a indignação dos hipócritas, desculpou a adúltera, como também perdoou a tripla traição de Pedro. Mais do que poder ou tribunal, a Igreja é comunhão e família e, por isso, alegra-se e sofre com todas as glórias e misérias dos seus filhos.
A Igreja, que é santa na sua origem e nos seus fins, é pecadora nos seus membros militantes que, contudo, não enjeita, se neles reconhece um autêntico propósito de conversão.
6. Quer com isso dizer que a Igreja condescende com a pedofilia do seu clero?
Pe. GPA: De modo nenhum, pois a Igreja não condescende nunca com a prevaricação de quantos, investidos na especialíssima responsabilidade do ministério sacerdotal, desonram essa sua condição.
Possivelmente, a condenação mais severa de todo o Evangelho é a que Cristo dirige precisamente aos pedófilos e a quantos são motivo de escândalo para os mais novos. Esse ensinamento evangélico, como todos os outros, não é letra morta na doutrina, nem na praxe eclesial.
7. Pode dar alguns exemplos de documentos da Igreja sobre esta questão?
Pe. GPA: Sem a pretensão de ser exaustivo, permita-me que, a este propósito, recorde alguns dos mais recentes documentos da Santa Sé sobre este particular:
- a instrução Crimen sollicitacionis, de 1922 e que, em 1962, o Beato João XXIII reafirmou e na qual se esclarece a obrigação moral de denunciar estes casos;
- o Código de Direito Canónico, que reafirma a excomunhão automática, ou seja, a imediata expulsão da Igreja, do confessor que alicia o penitente, qualquer que seja a sua idade ou género, para um acto de natureza sexual;
- o Catecismo da Igreja Católica, que renova a condenação da pedofilia;
- e o documento De delictis gravioribus, de 2001, que regulamenta o Motu Proprio Sacramentum Sanctitatis tutela, do Papa João Paulo II que, para evitar qualquer local encobrimento destes delitos, atribui a necessária competência à Congregação para a Doutrina da Fé, então presidida pelo actual Papa.
8. Não obstante esta condenação formal da pedofilia, não é verdade que tem faltado vontade política de aplicar as correspondentes sanções?
Pe. GPA: À hierarquia da Igreja não tem faltado a firmeza necessária para punir os eclesiásticos que incorreram em actos desta natureza. Foi o que aconteceu a um cardeal arcebispo de uma capital centro-europeia, que foi recluído num convento e proibido de qualquer acto público. Foi também o caso do fundador de uma prestigiada instituição religiosa, que foi também suspenso do ministério pastoral, demitido das suas funções de governo na estrutura eclesial por ele fundada, que foi sujeita a inspecção canónica, e obrigado a residir em regime de quase-detenção numa casa religiosa.
9. E se se vier a verificar algum caso no clero português?
Pe. GPA: Como se sabe, graças a Deus não há memória de nenhum sacerdote português, diocesano ou religioso, que tenha sido alguma vez condenado por um crime desta natureza. Se porventura se desse também entre nós algum caso, não tenho dúvidas de que o nosso episcopado, de acordo com as normas a que está obrigado, saberia agir com justiça e caridade.
10. Concorda com as críticas veladas de vários sectores da sociedade que acusam a Igreja de pouco fazer para garantir a total transparência destes processos? A maioria dos casos suspeitos é, regra geral, arquivado pelo Ministério Público. Segundo algumas fontes policiais, «as vítimas retraem-se mais tarde, devido ao ascendente dos alegados agressores».
Pe. GPA: Dada a minha sensibilidade cristã e formação jurídica, causa-me algum desconforto o uso e abuso de expressões tão vagas e perigosas como «críticas veladas», «casos suspeitos», «alegados agressores», porque tendem a criar uma suspeição generalizada. Há um princípio geral de inocência que não pode ser contrariado: um político, um professor, um padre ou um desempregado que seja burlão não faz da sua mesma condição todos os políticos, professores, padres ou desempregados. Se um violador que é engenheiro, como o recentemente detido, não infama todos os engenheiros, nem suscita uma caça aos engenheiros violadores, porque razão um padre pedófilo, se o houver, provoca esta tão desmedida reacção nos meios de comunicação social?!
11. Pode-se dizer que a associação entre pedofilia e sacerdócio católico não é arbitrária, na medida em que é entre os padres que tendem a verificar-se delitos desta natureza?
Pe. GPA: Não, porque uma tal pressuposição carece de fundamento, como as estatísticas mais recentes provam. Por exemplo, na Alemanha, segundo Andrea Tornielli foram notificados, desde 1995, 210.000 casos de delitos contra menores, mas apenas 94 desses casos diziam respeito a eclesiásticos, ou seja, um para cada dois mil envolvia algum sacerdote ou religioso católico. O inquérito Ryan, sobre a situação na Irlanda, é também esclarecedor porque, num universo de 1090 crimes cometidos contra menores em instituições educativas, os religiosos católicos acusados de abusos sexuais foram 23.
12. Talvez alguém entenda que, muito embora haja também pedófilos que não são padres, o crime para que mais tendem os sacerdotes católicos é o abuso de menores.
Pe. GPA: Também não é verdade porque, de acordo com Mons. Scicluna, perito da Congregação para a Doutrina da Fé, que é o organismo da Santa Sé que superintende estes casos, entre os anos 2001 e 2010, houve notícia de 300 casos de pedofilia num total de 400.000 padres. Além disso, os abusos de menores são apenas 10% de todas as acções criminais praticadas por sacerdotes católicos.
13. Mas do ponto de vista da psiquiatria, tudo leva a crer que o celibato sacerdotal é, em boa parte, responsável pelos abusos de menores realizados pelo clero católico…
Pe. GPA: Pelo contrário. Manfred Lutz, um psiquiatra especialista na matéria, afirmou que o celibato sacerdotal não só não incita à prática destes crimes como até favorece uma atitude de respeito e de ajuda aos menores. Esta conclusão científica prova-se também pelo facto de, entre os clérigos condenados por este crime, haver mais pastores protestantes, casados, do que sacerdotes católicos, celibatários, e ainda porque a grande maioria dos pedófilos são casados o que, obviamente, não pode ser usado contra o casamento.
14. Consta na opinião pública que a maioria dos casos suspeitos de padres pedófilos, não é objecto de investigação, nem de posterior procedimento criminal…
Pe. GPA: Se assim é, de facto, não é certamente por culpa da Igreja, que nada tem a ver com as investigações policiais, nem muito menos com as diligências judiciais.
Embora se tenda a crer que a Igreja e o seu clero gozam de um tratamento de excelência na sociedade portuguesa, a verdade é que não deve haver instituição pública nem classe profissional mais maltratada nos media do que a Igreja Católica e os seus sacerdotes.
15. Porque o diz?
Pe. GPA: Permita-me que lhe dê um exemplo. Há uns meses atrás, um pacato pároco português foi detido com enorme aparato por quatro ou cinco polícias trajados a rigor, como se o pobre padre de aldeia fosse um perigoso terrorista, quando na realidade era apenas um mero caçador que tinha por licenciar algumas armas. À notícia, transmitida nos noticiários televisivos, foi dado um aparato que, de não ser dramático, teria sido ridículo, até porque aquele pacífico sexagenário não representava nenhum perigo público. Não foi com certeza por acaso que se forjou toda aquela fantástica encenação, como também não foi por acaso que se convidaram as televisões…
Mas factos ocorridos há dezenas de anos numa instituição pública, como a Casa Pia, e de que foram vítimas dezenas de adolescentes, ainda não conhecem uma decisão judicial… Será isto justiça?!
16. Mas não acha que o incumprimento de uma obrigação por um padre é um escândalo?
Pe. GPA: É verdade que é exigível aos prestadores de serviços públicos uma especial responsabilidade: é razoável que o incumprimento de uma obrigação fiscal por parte um governante seja notícia, mas já o não seja se o prevaricador for um anónimo cidadão. Mas o escândalo não pode ser utilizado como arma de arremesso ideológica, sob pena de que aconteça aos padres católicos de agora o que aconteceu aos judeus alemães, durante o regime nazi.
17. Surpreendem-no estes casos de padres pedófilos?
Pe. GPA: Nenhum pecado é surpresa para nenhum padre e todos os padres sabemos que somos capazes de todos os erros e de todos os horrores. Não é por acaso que, na Semana Santa, a Igreja recorda o tristíssimo caso de Judas Iscariotes, que muito significativamente os evangelistas não silenciaram, quando poderiam tê-lo feito, a bem do prestígio da sua condição sacerdotal e do bom nome da Igreja. Graças a Deus conheço muitos padres, quer seculares como eu, quer religiosos, e confesso-lhe que não conheço nenhum que não mereça a minha admiração.
18. Tem ouvido, mesmo que rumores, de casos de pedofilia por parte de alguns padres? Ou é uma completa surpresa para si a existência deste tipo de casos, que acabam por manchar o nome da instituição secular?
Pe. GPA: Tenho uma enorme devoção por todos os meus irmãos sacerdotes, na certeza de que até no menos bom há, pelo menos, a grandeza do dom e da missão a que foi chamado. Também não ignoro que nenhum de nós, por mais qualidades que possa ter, é indigno dessa graça, pelo que nunca me surpreenderá encontrar nos outros alguma da miséria que diariamente descubro em mim. Mas, mesmo que essa constatação possa de algum modo perturbar-me, confesso-lhe que mais do que a traição de Judas, me admira a santidade e o martírio dos outros onze apóstolos. Talvez por isso, não tenho tempo para ouvir esses rumores de que fala, ou tempo para olhar para essas manchas a que alude e que não ignoro, porque prefiro contemplar a eterna beleza da Igreja, que procuro amar com todo o meu coração.
19. Já denunciou algum caso às autoridades eclesiásticas?
Pe. GPA: Denunciar é um termo que não faz parte do meu dicionário e, como padre, a minha missão não é acusar o culpado, mas perdoar o arrependido.
20. Já teve alguma suspeita de abusos por parte de algum colega seu?
Pe. GPA: Como não é meu hábito falar das vidas alheias, permita-me que, em vez de falar dos meus colegas, lhe diga o que eu desejaria que me acontecesse se caísse numa dessas situações, até porque é isso mesmo que desejo aos meus irmãos sacerdotes.
Se tivesse um dia a desgraça de incorrer nalgum comportamento menos próprio da minha condição sacerdotal, agradeceria que os meus irmãos na fé, padres ou não, tivessem a coragem de me fazerem a correcção fraterna, tal como Nosso Senhor determinou. Se o meu desvario persistisse, não obstante essa caridosa advertência, aceitaria de muito bom grado que o meu bispo utilizasse todos os meios ao seu dispor, sem excluir os civis e penais, para a minha emenda, na certeza de que essa expiação, embora dolorosa, contribuiria decerto para o bem das almas e para a minha salvação.
O vaticano, o papa, as desculpas, os arrependimentos os, pedófilos, as crianças, a coerência e a falta dela.
A Igreja Católica é fundamental para a vida de todos os Católicos e mesmo para muitos que o não são.
Quanto a isto nem pode haver dúvida nem negação.
--Sendo herdeira dos Ensinamentos de Cristo e sobre esses Ensinamentos baseada, não só estabelece uma esperança de entendimento entre os Homens como anuncia uma promessa fundamentada no Respeito pela vida e pelo Amor Paz entre todos os homens que um dia , esperamos, toque em todos os corações humanos, trazendo a luz capaz de iluminar todas as vidas, fazendo dessas vidas o exemplo do que todos podemos fazer para transformar o mundo, sejamos ou não católicos ou cristãos. .
--Isto dito vamos ao que interessa que são as notícias cada vez mais inquietantes sobre os crimes cometidos por padres católicos contra crianças e jovens e tanto quanto se sabe , conhecidos por Ratzinger a quem o Papa Paulo II ordenou que se fizesse Investigador e Fiel, do comportamento dos padres da Igreja para que casos graves nunca ficassem sem a devida punição.
--As suspeitas e as acusações contra Ratzinger por não fazer o que devia ser feito na protecção de crianças e jovens, não são própriamente de agora, datam de há anos atrás e muito embora tenham sido sistemáticamente abafadas, acabaram sempre por aparecer aqui e acolá, denunciadas por pessoas que sempre se apresentaram dando a cara como vitímas dos piores e mais repugnantes abusos.
--Claro que não podemos misturar criminosos com inocentes e claro que não podemos confundir os padres criminosos que pecaram contra o corpo e o espírito de crianças indefesas , com aqueles que desde sempre procuraram proteger e abençoar, mas para que tal confusão não aconteça, transformando o que já é uma sucessão de histórias onde o horror se mistura á incredulidade ao nojo , terá a Igreja que adoptar outra postura que não seja a da constante vitimização e negação do que tem vindo a ser denunciado como crimes de pedofilia, mas sim aceitar que tem culpas nesse estado de coisas e aceitando, deixar que a verdade seja conhecida e os criminosos entregues á justiça.
--Se isto não fôr feito com o mesmo rigor que a Igreja sempre exigiu aos seus Fiéis, mesmo aos que seus Fiéis nunca foram, então sim, poderemos acabar por ter que enfrentar um problema gravíssimo que acabará por afectar e de forma desastrosa os Fundamentos de uma Igreja que baseada em Cristo, não pode negar a verdade ainda que essa verdade seja intolerável.
--É que mesmo que a Igreja procure apresentar-se agora como vítima de calúnia e difamação, não pode esquecer o facto de vítimas e abusadores existirem dentro do seu seio e que as verdadeiras vítimas são as crianças e jovens que deviam ter sido bem protegidos mas que acabaram por sofrer os maiores e mais inacreditáveis horrorores cometidos por gente falsa e cruel de batina e cruz ao peito.
--Quanto ao Papa Bento XVI, se quizer afastar as negras sombras da cumplicidade que agora o cercam, terá que aceitar que teve um papel em toda esta tristíssima sucessão de nefastos acontecimentos, fazendo exactamente o que aconselha a Igreja a todos os seus Fiéis.
Submissão á Palavra de Deus e á Verdade a que a sua Palavra obriga .
O teaser papal II
Um artigo meu aqui publicado há dias provocou alguma celeuma. Versava sobre uma campanha publicitária que está em curso na zona do Grande Porto e que eu interpretei como tendo a ver com a visita do Papa ao Porto. Chamei-lhe “o teaser papal”. Apenas se poderá perceber bem sobre o que escrevi, vendo o outdoor que hoje publico e que está colocado junto da A4, perto da saída de Ermesinde. Mas em vários locais encontrei no passado fim-de-semana carrinhas publicitárias com o mesmo cartaz. Na sequência do meu artigo, alguns visitantes do “Jornalistas de Sofá” e seguidores no Twitter (@nunonsantos) alertaram para o facto de poder tratar-se não de uma campanha oriunda da própria Igreja, mas de uma marca comercial. A verdade é que se caí numa “confusão” e cometi um erro de julgamento (será que cometi mesmo? Ainda não sei), não me sinto minimamente culpado por tal confusão. Se há culpados, são os autores desta campanha que, num caso ou noutro, é de profundo mau gosto. Se estamos perante uma campanha da Igreja, em nada retiro o que atrás escrevi. Se estamos perante uma campanha comercial, falamos de um inaceitável abuso de imagem e, evidentemente, de um profundo desrespeito não apenas pelos católicos mas também pelos consumidores. Nessa altura, e estando por detrás disto um produto comercial, não me custará nada assumir que me enganei… ou melhor, que fui enganado.
segunda-feira, 12 de abril de 2010
ProPublica vence primeiro Pulitzer para Jornalismo Multimédia
A organização não lucrativa de informação, ProPublica venceu o cobiçado prémio Pulitzer pela sua peça online The Deadly Choices at Memorial sobre mortes controversas ocorridas num centro médico de Nova Orleães, após a passagem do Furacão Katrina
O artigo, de Sheri Fink, foi feito em colaboração com a The New York Times Magazine e marca a primeira vez que um órgão de informação online, a trabalhar com um jornal, ganha um prémio Pulitzer.
O prémio é atribuído às melhores obras na área do jornalismo, livros, drama e poesia.
O site do San Francisco Chronicle (http://www.sfgate.com/) venceu nas áreas de cartoon editorial e marcou também a primeira vez que uma obra publicada apenas online ganhou nesta categoria.
Jornalistas de Sofá com agências
Haverá semelhanças entre Rupert Murdoch e Mr. Burns?

Rupert Murdoch is in love with the iPad.
It's not hardware. It's not the software.
It IS THE FUTURE!. The future of newspapers, he says.
Well, Rupert, here's some news for you: The WSJ iPad app sucks kangaroo balls.
(Podem ver artigo original aqui)
A semana louca do iPAD e Murdoch igual a si mesmo
[ Adenda: Este artigo foi inicialmente publicado no quiosque.info, site com o qual colaboro semanalmente com textos sobre comunicação e jornalismo. ]
Esta semana foi bastante animada, em termos de tecnologia e jornalismo. Primeiro com o lançamento da nova coqueluxe da Apple, o iPAD.
Passado todo o êxtase e curiosidade, os dias avançaram e o pó geek atenuou. Mas que mudanças evidentes surgem com este novo aparelho? A meu ver é mais um gadget, com semelhanças com o Kindle, o já conhecido reader book. Podemos igualmente ouvir música, ver filmes, trabalhar em documentos e poupar no peso dos companheiros ‘mil folhas’ que costumamos levar na mala, acedendo a partir do iPAD a edições de jornais e livros. A desvantagem mais premente reside na questão de não suportar flash, o que dificulta a navegação web.
Não entrarei mais por este campo, por não estar bem dentro do assunto e porque a páginas tantas, aborrece-me tanta excitação. Interessa-me mais o que poderemos fazer com estas mutações tecnológicas do que ser um aparelho da maça trincada.
Por outro lado, a partir deste êxtase todo, surgiu uma opinião ‘engraçada’ (e sempre preocupante) vinda da não menos caricata personagem dos media mundiais: Rupert Murdoch.
"I'm old, I like the tactile experience of the newspaper, but "if you have less newspapers and more of these that's ok”.
O que parecia ‘soft’ assim ao princípio descamba para a já doentia perseguição aos motores de busca como o Google: "We are going to stop people like Google or Microsoft or whoever from taking stories for nothing … there is a law of copyright and they recognise it".
Rupert Murdoch, presidente da News Corp e de títulos como o Times e o Sunday Times, lança assim achas para a fogueira do jornalismo pago ao querer limitar o Google no acesso a conteúdos dos jornais da sua companhia.
Através da colocação de paywalls e do acesso restrito às notícias, Murdoch acha que resguarda os direitos autorais dos conteúdos e desmagnetiza o poderoso império das empresas que subsistem com a rede global de informação na web.
Contudo, surpreende quando refere o novo gadget da Apple como uma ferramenta de futuro. Na sua opinião, o iPAD não destrói o jornalismo tradicional, simplesmente lhe confere uma forma diferente, podendo mesmo salvar os ditos meios do desaparecimento: "There's going to be tens of millions of these things sold all over the world. It may be the saving of newspapers because you don't have the costs of paper, ink, printing, trucks”.
A ver vamos como se desenrola a novela Murdoch e os seus conteúdos restritos. Será esta a solução viável para o jornalismo na internet? Pagaremos mesmo por aceder aos conteúdos? A ver vamos, não é!
“Faz o que você sabe e ‘linke’ o resto”
É este o tema que recupero, após a reflexão, atenta, de Paulo Querido (ao qual se pode juntar ainda a penúltima entrada, por João Monge Ferreira, que também já tinha abordado aqui).
Desafio dos jornalistas no século XXI
sábado, 10 de abril de 2010
O teaser papal
Há uns meses li num jornal português um texto de um bispo que defendia que a Igreja deveria acompanhar os tempos modernos, nomeadamente na comunicação com a imprensa. Não me pareceu nada mal. Qualquer instituição que queira ver a sua mensagem bem divulgada, terá que o fazer de uma forma absolutamente profissional. Não me choca nada, por isso, que uma diocese possa recorrer aos serviços de uma agência de comunicação e, porque não, aos de uma agência de publicidade para fazer comunicação institucional, divulgando acções ou mesmo mensagens que a definam.
Contudo, na passada quinta-feira vi algo que me deixou um pouco perplexo e que resulta de uma péssima interpretação do que é uma estratégia de comunicação eficaz.
O Papa Bento XVI visita Portugal num momento muito difícil para o país. do ponto de vista económico e social. Por outro lado, o momento em que o Papa visita Portugal também é de crise para a imagem da Igreja Católica, afectada pela falta de católicos praticantes e por problemas que ela própria criou e que, cada vez mais, deixam o chefe da Igreja numa situação embaraçosa.
Esperava eu, talvez ingenuamente, que os meios usados pelo Estado português e pela própria Igreja neste quadro de visita do Papa a Portugal fossem adequados a estes dois quadros absolutamente incontornáveis. Não é, contudo, o que se está a passar. Em Lisboa, parece que só o palco (altar?) onde Bento XVI irá discursar (rezar?) custará a módica quantia de 200 mil euros. Nem sequer é preciso entrar em comparações mais ou menos demagógicas para perceber que o valor do apetrecho não encaixa numa mensagem de humildade, solidariedade e partilha que se poderia esperar num momento como este.
...comecei a ver espalhados pelo Porto e arredores, grandes “outdoors” e cartazes com um “teaser” que me deixou boquiaberto...
Contudo, o meu espanto maior, aconteceu na passada quinta-feira, dia em que comecei a ver espalhados pelo Porto e arredores, grandes “outdoors” e cartazes com um “teaser” que me deixou boquiaberto. Os “outdoors”, que invadiram esquinas, ruas, auto-estradas e que agora se passeiam também em carrinhas publicitárias por todos os concelhos do Grande Porto têm inscrito apenas isto: “Adivinhe quem vem dar o amén à nova Igreja Matriz do Porto”. Ao lado deste “teaser”, vê-se a imagem de uma luva e parte de uma batina que presumi pertencer ao Papa.
Não sei quanto custará a campanha publicitária que está na rua. Não faço ideia de quanto custará a sequela deste “teaser papal”. Não sei sequer onde é que esta campanha nos levará nem sequer quem a vai ou está a pagar. Mas sei que, do ponto de vista institucional, não faz nenhum sentido dar ao Papa, à Igreja Católica e à inauguração de um templo, o aspecto circense que está nas ruas do Porto neste momento. Além de totalmente inútil – já toda a gente sabe que o Papa vem a Portugal e até já se sabe o preço absurdo do seu “altar” em Lisboa – este “teaser” remete a comunicação da Igreja e a figura do Papa para o domínio da campanha de supermercado ou de um espectáculo rock. E de tal forma é assim, que quase me dá vontade de continuar a acompanhar esta saga publicitária, esperando ardentemente que, nos próximos outdoors seja anunciado um cartão de crédito papal que dê pontos a quem reze avés-marias a Bento XVI ou 0% de juros a quem escreva todos os dias num jornal ou num blog ter a certeza absoluta – e abrenuncio a quem o contrariar – que o “Santo Padre” desconhecia os crimes de pedofilia que impune e sistematicamente, durante décadas, centenas de padres cometeram por esse Mundo fora.
Os instrumentos que hoje o mercado coloca ao dispor das instituições para as ajudar a comunicar melhor deverão ser usados. Mas mal irá a igreja que julga que os mesmos princípios que se aplicam ao Tide ou à Colgate podem ser usados para convencer o seus “clientes” de que o Papa, afinal, é mesmo santo.
Vaticano: O Papa Bento XVI é guia coerente no caminho do rigor e da verdade ante os abusos
Fonte: acidigital
O Director da Sala de Imprensa da Santa Sé, Pe. Federico Lombardi, escreveu um editorial titulado "depois da Semana Santa, manter o rumo", dado a conhecer hoje através da Web da Rádio Vaticano em espanhol. Nele explica-se que o Papa Bento XVI é o guia coerente no caminho do rigor e da verdade ante os abusos cometidos por alguns membros do clero, que não são tantos como diz a imprensa, mas uma excepção que envolve muito poucos deles.
No artigo, o Pe. Lombardi assinala que ante este delicado tema "em primeiro lugar se deve seguir procurando a verdade e a paz para os ofendidos. Entre as coisas que mais chamam a atenção é que hoje saem à luz tantas feridas internas que também se remontam há muitos anos atrás – inclusive há muitas décadas mas que, evidentemente, seguem abertas".
"Muitas vítimas não procuram um ressarcimento económico mas uma ajuda interior, um juízo a respeito da sua dolorosa vivência pessoal. Ainda resta algo por entender realmente. Provavelmente devemos ter uma experiência mais profunda de factos que marcaram tão negativamente a vida das pessoas, da Igreja e da sociedade. Um exemplo, em âmbito colectivo, são o ódio e a violência dos conflitos entre os povos, que resultam tão difíceis de superar para uma reconciliação verdadeira. Os abusos ferem a nível pessoal profundo".
Por isso, prossegue o sacerdote jesuíta, "fizeram muito bem os episcopados que valorosamente reaprenderam o estabelecimento de modos e lugares para que as vítimas possam expressar-se livremente e ser escutadas, sem dar por descontado que o problema estivesse já confrontado e superado graças aos centros de escuta instituídos há algum tempo, igual que aqueles episcopados ou bispos que com trato paternal prestam atenção espiritual, litúrgica e humana às vítimas".
"Parece certo que o número das novas denúncias de abusos diminui, como está a acontecer nos Estados Unidos, mas para muitos o caminho do saneamento em profundidade começa somente agora e para outros ainda está por começar. No contexto da atenção às vítimas, o Papa tem escrito que está disposto a novos encontros com elas, envolvendo-se no caminho de toda a comunidade eclesiástica. Mas trata-se de um caminho que para ter efeitos profundos deve realizar-se, ainda mais, no respeito das pessoas, e em busca da paz".
Ao referir-se logo aos processos contra os que cometeram estes crimes, o Pe. Lombardi explica que é necessário seguir "aplicando com decisão e veracidade os procedimentos adequados do julgamento canónico dos culpados e de colaboração com as autoridades civis no que se refere às suas competências judiciais e penais, tendo em conta a especificidade das normativas e das situações nos diversos países".
"Só assim se pode pensar em reconstruir efectivamente um clima de justiça e a plena confiança na instituição eclesiástica. Deu-se o caso de que diversos responsáveis por comunidades ou instituições, por falta de experiência ou de preparação, não dispunham dos critérios de intervenção que podiam ajudar-lhes a intervir com determinação ainda quando fosse para eles muito difícil ou doloroso".
Mas, precisa logo o porta-voz, "enquanto a lei civil intervém com normas gerais, a canónica deve ter em conta a particular gravidade moral da traição da confiança depositada nas pessoas com responsabilidade na comunidade eclesiástica e da flagrante contradição com a conduta que deveriam testemunhar. Neste sentido, a transparência e o rigor impõem-se como exigências urgentes de um testemunho de governo sábio e justo da Igreja".
Depois de explicar como estes abusos têm sua origem numa uma visão desordenada da sexualidade, promovida também pela chamada "revolução sexual" dos 60, e logo depois de reiterar a necessária maturidade neste nível por parte dos candidatos ao sacerdócio, o Director do Escritório de Imprensa da Santa Sé afirma que "quem ama a verdade e a valoração objectiva dos problemas saberá procurar e encontrar as informações para uma compreensão mais geral do problema da pederastia e dos abusos sexuais de menores em nosso tempo e nos diferentes países, compreendendo sua extensão e sua penetração".
Deste modo, continua, "poderá entender melhor em que medida a Igreja Católica compartilha não só seus problemas, em que medida supõem para ela uma gravidade particular e exigem intervenções específicas, e finalmente em que medida a experiência que a Igreja vai adquirindo neste campo possa ser útil também para outras instituições ou para toda a sociedade".
"Por isso com respeito a este aspecto, acredito que os meios de comunicação não trabalharam ainda suficientemente, sobre tudo nos países nos quais a presença da Igreja tem uma maior relevância, e a quem se apontam mais facilmente, portanto, os dardos da crítica. Documentos como o relatório nacional dos EUA sobre o mau trato das crianças, mereceriam ser mais conhecidos para entender quais são os campos que exigem uma intervenção social urgente e as proporções dos problemas. Só no ano 2008, nos Estados Unidos, identificaram-se mais de 62.000 autores de abusos de menores, enquanto o grupo dos sacerdotes católicos é tão pequeno que nem sequer é tido em conta como tal".
O Pe. Lombardi diz logo que "o compromisso pelo amparo dos menores e dos jovens é portanto um campo de trabalho imenso e inesgotável, que vai mais à frente do problema concernente a alguns membros do clero. Quem dedica seus esforços com sensibilidade, generosidade e atenção merecem gratidão, respeito e ânimo por parte de todos, e em particular, das autoridades eclesiásticas e civis. A sua contribuição é essencial para a serenidade e a credibilidade do trabalho educativo e de formação da juventude na Igreja e fora dela. Justamente, o Papa lhes dirigiu palavras de grande avaliação na carta aos irlandeses, mas pensando naturalmente num horizonte mais amplo".
Finalmente, diz o sacerdote, "Bento XVI é guia coerente pelo caminho do rigor e da veracidade, merece todo o respeito e o apoio, e prova disso são os amplos testemunhos de todos os cantos da Igreja. O Papa é um pastor que está à altura de confrontar com grande rectidão e segurança este tempo difícil, no qual não faltam críticas e insinuações infundadas; deve-se afirmar, sem preconceitos, que é um Papa que falou muito da verdade de Deus e do respeito da verdade, sendo uma testemunha acreditável dela".
Para concluir, o Pe. Lombardi assegura que "na Igreja, na sociedade em que vivemos, quando comunicamos e escrevemos, temos necessidade deste paciente e firme amor à verdade se queremos servir e não confundir os nossos contemporâneos".