segunda-feira, 12 de abril de 2010

A semana louca do iPAD e Murdoch igual a si mesmo

[ Adenda: Este artigo foi inicialmente publicado no quiosque.info, site com o qual colaboro semanalmente com textos sobre comunicação e jornalismo. ]

Esta semana foi bastante animada, em termos de tecnologia e jornalismo. Primeiro com o lançamento da nova coqueluxe da Apple, o iPAD.

Passado todo o êxtase e curiosidade, os dias avançaram e o pó geek atenuou. Mas que mudanças evidentes surgem com este novo aparelho? A meu ver é mais um gadget, com semelhanças com o Kindle, o já conhecido reader book. Podemos igualmente ouvir música, ver filmes, trabalhar em documentos e poupar no peso dos companheiros ‘mil folhas’ que costumamos levar na mala, acedendo a partir do iPAD a edições de jornais e livros. A desvantagem mais premente reside na questão de não suportar flash, o que dificulta a navegação web.

Não entrarei mais por este campo, por não estar bem dentro do assunto e porque a páginas tantas, aborrece-me tanta excitação. Interessa-me mais o que poderemos fazer com estas mutações tecnológicas do que ser um aparelho da maça trincada.

Por outro lado, a partir deste êxtase todo, surgiu uma opinião ‘engraçada’ (e sempre preocupante) vinda da não menos caricata personagem dos media mundiais: Rupert Murdoch.

"I'm old, I like the tactile experience of the newspaper, but "if you have less newspapers and more of these that's ok”.

O que parecia ‘soft’ assim ao princípio descamba para a já doentia perseguição aos motores de busca como o Google: "We are going to stop people like Google or Microsoft or whoever from taking stories for nothing … there is a law of copyright and they recognise it".

Rupert Murdoch, presidente da News Corp e de títulos como o Times e o Sunday Times, lança assim achas para a fogueira do jornalismo pago ao querer limitar o Google no acesso a conteúdos dos jornais da sua companhia.

Através da colocação de paywalls e do acesso restrito às notícias, Murdoch acha que resguarda os direitos autorais dos conteúdos e desmagnetiza o poderoso império das empresas que subsistem com a rede global de informação na web.

Contudo, surpreende quando refere o novo gadget da Apple como uma ferramenta de futuro. Na sua opinião, o iPAD não destrói o jornalismo tradicional, simplesmente lhe confere uma forma diferente, podendo mesmo salvar os ditos meios do desaparecimento: "There's going to be tens of millions of these things sold all over the world. It may be the saving of newspapers because you don't have the costs of paper, ink, printing, trucks”.

A ver vamos como se desenrola a novela Murdoch e os seus conteúdos restritos. Será esta a solução viável para o jornalismo na internet? Pagaremos mesmo por aceder aos conteúdos? A ver vamos, não é!

“Faz o que você sabe e ‘linke’ o resto”

Rosental Alves é o autor da frase, que (re)recupero. Ouvi ainda este auto-denominado ‘evangelizador digital’ falar que, dificilmente, se veria, em Portugal, um expresso.pt linkar a um publico.pt e vice-versa.

É este o tema que recupero, após a reflexão, atenta, de Paulo Querido (ao qual se pode juntar ainda a penúltima entrada, por João Monge Ferreira, que também já tinha abordado aqui).

Desafio dos jornalistas no século XXI

sábado, 10 de abril de 2010

O teaser papal

Os instrumentos que hoje o mercado coloca ao dispor das instituições para as ajudar a comunicar melhor deverão ser usados. Mas mal irá a igreja que julga que os mesmos princípios que se aplicam ao Tide ou à Colgate podem ser usados para convencer o seus “clientes” de que o Papa, afinal, é mesmo santo.

Há uns meses li num jornal português um texto de um bispo que defendia que a Igreja deveria acompanhar os tempos modernos, nomeadamente na comunicação com a imprensa. Não me pareceu nada mal. Qualquer instituição que queira ver a sua mensagem bem divulgada, terá que o fazer de uma forma absolutamente profissional. Não me choca nada, por isso, que uma diocese possa recorrer aos serviços de uma agência de comunicação e, porque não, aos de uma agência de publicidade para fazer comunicação institucional, divulgando acções ou mesmo mensagens que a definam.
Contudo, na passada quinta-feira vi algo que me deixou um pouco perplexo e que resulta de uma péssima interpretação do que é uma estratégia de comunicação eficaz.
O Papa Bento XVI visita Portugal num momento muito difícil para o país. do ponto de vista económico e social. Por outro lado, o momento em que o Papa visita Portugal também é de crise para a imagem da Igreja Católica, afectada pela falta de católicos praticantes e por problemas que ela própria criou e que, cada vez mais, deixam o chefe da Igreja numa situação embaraçosa.
Esperava eu, talvez ingenuamente, que os meios usados pelo Estado português e pela própria Igreja neste quadro de visita do Papa a Portugal fossem adequados a estes dois quadros absolutamente incontornáveis. Não é, contudo, o que se está a passar. Em Lisboa, parece que só o palco (altar?) onde Bento XVI irá discursar (rezar?) custará a módica quantia de 200 mil euros. Nem sequer é preciso entrar em comparações mais ou menos demagógicas para perceber que o valor do apetrecho não encaixa numa mensagem de humildade, solidariedade e partilha que se poderia esperar num momento como este.

...comecei a ver espalhados pelo Porto e arredores, grandes “outdoors” e cartazes com um “teaser” que me deixou boquiaberto...

Contudo, o meu espanto maior, aconteceu na passada quinta-feira, dia em que comecei a ver espalhados pelo Porto e arredores, grandes “outdoors” e cartazes com um “teaser” que me deixou boquiaberto. Os “outdoors”, que invadiram esquinas, ruas, auto-estradas e que agora se passeiam também em carrinhas publicitárias por todos os concelhos do Grande Porto têm inscrito apenas isto: “Adivinhe quem vem dar o amén à nova Igreja Matriz do Porto”. Ao lado deste “teaser”, vê-se a imagem de uma luva e parte de uma batina que presumi pertencer ao Papa.
Não sei quanto custará a campanha publicitária que está na rua. Não faço ideia de quanto custará a sequela deste “teaser papal”. Não sei sequer onde é que esta campanha nos levará nem sequer quem a vai ou está a pagar. Mas sei que, do ponto de vista institucional, não faz nenhum sentido dar ao Papa, à Igreja Católica e à inauguração de um templo, o aspecto circense que está nas ruas do Porto neste momento. Além de totalmente inútil – já toda a gente sabe que o Papa vem a Portugal e até já se sabe o preço absurdo do seu “altar” em Lisboa – este “teaser” remete a comunicação da Igreja e a figura do Papa para o domínio da campanha de supermercado ou de um espectáculo rock. E de tal forma é assim, que quase me dá vontade de continuar a acompanhar esta saga publicitária, esperando ardentemente que, nos próximos outdoors seja anunciado um cartão de crédito papal que dê pontos a quem reze avés-marias a Bento XVI ou 0% de juros a quem escreva todos os dias num jornal ou num blog ter a certeza absoluta – e abrenuncio a quem o contrariar – que o “Santo Padre” desconhecia os crimes de pedofilia que impune e sistematicamente, durante décadas, centenas de padres cometeram por esse Mundo fora.
Os instrumentos que hoje o mercado coloca ao dispor das instituições para as ajudar a comunicar melhor deverão ser usados. Mas mal irá a igreja que julga que os mesmos princípios que se aplicam ao Tide ou à Colgate podem ser usados para convencer o seus “clientes” de que o Papa, afinal, é mesmo santo.

Vaticano: O Papa Bento XVI é guia coerente no caminho do rigor e da verdade ante os abusos

A Igreja Católica está na primeira linha procurando a segurança das crianças e adolescentes

Fonte: acidigital

O Director da Sala de Imprensa da Santa Sé, Pe. Federico Lombardi, escreveu um editorial titulado "depois da Semana Santa, manter o rumo", dado a conhecer hoje através da Web da Rádio Vaticano em espanhol. Nele explica-se que o Papa Bento XVI é o guia coerente no caminho do rigor e da verdade ante os abusos cometidos por alguns membros do clero, que não são tantos como diz a imprensa, mas uma excepção que envolve muito poucos deles.

No artigo, o Pe. Lombardi assinala que ante este delicado tema "em primeiro lugar se deve seguir procurando a verdade e a paz para os ofendidos. Entre as coisas que mais chamam a atenção é que hoje saem à luz tantas feridas internas que também se remontam há muitos anos atrás – inclusive há muitas décadas mas que, evidentemente, seguem abertas".

"Muitas vítimas não procuram um ressarcimento económico mas uma ajuda interior, um juízo a respeito da sua dolorosa vivência pessoal. Ainda resta algo por entender realmente. Provavelmente devemos ter uma experiência mais profunda de factos que marcaram tão negativamente a vida das pessoas, da Igreja e da sociedade. Um exemplo, em âmbito colectivo, são o ódio e a violência dos conflitos entre os povos, que resultam tão difíceis de superar para uma reconciliação verdadeira. Os abusos ferem a nível pessoal profundo".

Por isso, prossegue o sacerdote jesuíta, "fizeram muito bem os episcopados que valorosamente reaprenderam o estabelecimento de modos e lugares para que as vítimas possam expressar-se livremente e ser escutadas, sem dar por descontado que o problema estivesse já confrontado e superado graças aos centros de escuta instituídos há algum tempo, igual que aqueles episcopados ou bispos que com trato paternal prestam atenção espiritual, litúrgica e humana às vítimas".

"Parece certo que o número das novas denúncias de abusos diminui, como está a acontecer nos Estados Unidos, mas para muitos o caminho do saneamento em profundidade começa somente agora e para outros ainda está por começar. No contexto da atenção às vítimas, o Papa tem escrito que está disposto a novos encontros com elas, envolvendo-se no caminho de toda a comunidade eclesiástica. Mas trata-se de um caminho que para ter efeitos profundos deve realizar-se, ainda mais, no respeito das pessoas, e em busca da paz".

Ao referir-se logo aos processos contra os que cometeram estes crimes, o Pe. Lombardi explica que é necessário seguir "aplicando com decisão e veracidade os procedimentos adequados do julgamento canónico dos culpados e de colaboração com as autoridades civis no que se refere às suas competências judiciais e penais, tendo em conta a especificidade das normativas e das situações nos diversos países".

"Só assim se pode pensar em reconstruir efectivamente um clima de justiça e a plena confiança na instituição eclesiástica. Deu-se o caso de que diversos responsáveis por comunidades ou instituições, por falta de experiência ou de preparação, não dispunham dos critérios de intervenção que podiam ajudar-lhes a intervir com determinação ainda quando fosse para eles muito difícil ou doloroso".

Mas, precisa logo o porta-voz, "enquanto a lei civil intervém com normas gerais, a canónica deve ter em conta a particular gravidade moral da traição da confiança depositada nas pessoas com responsabilidade na comunidade eclesiástica e da flagrante contradição com a conduta que deveriam testemunhar. Neste sentido, a transparência e o rigor impõem-se como exigências urgentes de um testemunho de governo sábio e justo da Igreja".

Depois de explicar como estes abusos têm sua origem numa uma visão desordenada da sexualidade, promovida também pela chamada "revolução sexual" dos 60, e logo depois de reiterar a necessária maturidade neste nível por parte dos candidatos ao sacerdócio, o Director do Escritório de Imprensa da Santa Sé afirma que "quem ama a verdade e a valoração objectiva dos problemas saberá procurar e encontrar as informações para uma compreensão mais geral do problema da pederastia e dos abusos sexuais de menores em nosso tempo e nos diferentes países, compreendendo sua extensão e sua penetração".

Deste modo, continua, "poderá entender melhor em que medida a Igreja Católica compartilha não só seus problemas, em que medida supõem para ela uma gravidade particular e exigem intervenções específicas, e finalmente em que medida a experiência que a Igreja vai adquirindo neste campo possa ser útil também para outras instituições ou para toda a sociedade".

"Por isso com respeito a este aspecto, acredito que os meios de comunicação não trabalharam ainda suficientemente, sobre tudo nos países nos quais a presença da Igreja tem uma maior relevância, e a quem se apontam mais facilmente, portanto, os dardos da crítica. Documentos como o relatório nacional dos EUA sobre o mau trato das crianças, mereceriam ser mais conhecidos para entender quais são os campos que exigem uma intervenção social urgente e as proporções dos problemas. Só no ano 2008, nos Estados Unidos, identificaram-se mais de 62.000 autores de abusos de menores, enquanto o grupo dos sacerdotes católicos é tão pequeno que nem sequer é tido em conta como tal".

O Pe. Lombardi diz logo que "o compromisso pelo amparo dos menores e dos jovens é portanto um campo de trabalho imenso e inesgotável, que vai mais à frente do problema concernente a alguns membros do clero. Quem dedica seus esforços com sensibilidade, generosidade e atenção merecem gratidão, respeito e ânimo por parte de todos, e em particular, das autoridades eclesiásticas e civis. A sua contribuição é essencial para a serenidade e a credibilidade do trabalho educativo e de formação da juventude na Igreja e fora dela. Justamente, o Papa lhes dirigiu palavras de grande avaliação na carta aos irlandeses, mas pensando naturalmente num horizonte mais amplo".

Finalmente, diz o sacerdote, "Bento XVI é guia coerente pelo caminho do rigor e da veracidade, merece todo o respeito e o apoio, e prova disso são os amplos testemunhos de todos os cantos da Igreja. O Papa é um pastor que está à altura de confrontar com grande rectidão e segurança este tempo difícil, no qual não faltam críticas e insinuações infundadas; deve-se afirmar, sem preconceitos, que é um Papa que falou muito da verdade de Deus e do respeito da verdade, sendo uma testemunha acreditável dela".
"Acompanhemos-lhe e aprendemos dele a perseverança necessária para crescer na verdade, na transparência, mantendo amplo o horizonte sobre os graves problemas do mundo, respondendo com paciência à aparição – gota a gota de parciais ou supostas ‘revelações’ que buscam diminuir a sua credibilidade ou a de outras instituições e pessoas da Igreja", acrescenta.

Para concluir, o Pe. Lombardi assegura que "na Igreja, na sociedade em que vivemos, quando comunicamos e escrevemos, temos necessidade deste paciente e firme amor à verdade se queremos servir e não confundir os nossos contemporâneos".

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Jornalistas: da teoria, à prática

Este primeiro post (já agora, agradeço o convite) vai ser telegráfico. Parte de uma citação do jornalista José Manuel Fernandes, na sua crónica, no Público, ‘tuitada’ esta manhã:

“Não há jornalismo de qualidade sem recursos dedicados e profissionais a tempo inteiro”.
Concordo plenamente. Da mesma forma que o faço em relação ao (que parece) ex-jornalista Rui Marques (via Buzz):

“Concordo com essa frase de José Manuel Fernandes em parte. Porque quando um jornal como o Público, do qual ele foi Director durante anos, recorre a estágios não remunerados, e evita integrar, nos seus quadros, os seus jornalistas, acaba por desmoralizá-los, prejudicando a qualidade do seu trabalho.

Não é por acaso que muita gente sai do Jornalismo – como é o meu caso – e procura outras vias profissionais. O Jornalismo de qualidade implica também, e sobretudo, uma valorização económica e laboral do jornalista – que não existe actualmente, e que cria uma desmotivação permanente e uma falta de autonomia gritante.

Os Jornalistas são recursos humanos altamente qualificados e como tal têm de ser tratados. Não como meros prestadores de serviços ocasionais – como acontece hoje em dia”.

Termino, com um video. Falamos depois…

quinta-feira, 8 de abril de 2010

CONVERSA TELEFÓNICA VERÍDICA ENTRE UM JORNALISTA DE TV E UM ASSESSOR DE IMPRENSA

– Estás bom? Podias hoje levar o teu chefe ao (xxxx) para fazermos um directo às (XXXX) horas para abrir o noticiário.
– Directo? Porquê? Hoje não vai acontecer lá nada!
– Mas faz anos que aconteceu o (xxxx) e queríamos fazer lá uma peça.
– Compreendo! Mas não está lá ninguém nem vai lá acontecer nada hoje, porquê um directo?
– Eu sei que não está lá ninguém nem acontece lá nada hoje, por isso queria que lá levasses o teu “chefe” para fazermos reportagem. Assim entrevistávamo-lo lá.
– Olha lá: mas se esse até é um assunto negativo para o meu “chefe” porque razão o hei-de lá levar? Quanto menos se falar disso, para mim, melhor.
– Mas nós vamos falar, já sabes, faz anos...
– Compreendo. Mas se queres falar com ele sobre o assunto eu até posso propor-lhe, para o entrevistares aqui no gabinete dele, agora na rua à porta do (xxxx) onde não está a acontecer nada, nem pensar.
– Ir aí falar com ele não interessa. O que interessa é recordar que faz anos que aconteceu o (xxxx) e fazer directo à porta do (xxxx), nem que seja na rua a ver-se o portão.
– Ok. Tu é que sabes. Mas não contes com a minha colaboração para isso.
– Então fazemos o directo sem ninguém, só com o jornalista a recordar o assunto. É logo a abrir.
– Ainda pensei que me estavas a ligar por causa da inauguração do (xxxxx), isso é que é importante, vai servir milhares de pessoas, mandei o convite mas vocês ainda não confirmaram.
– Mas isso não nos interessa. Isso é regional.
– Pronto, tu é que sabes, só estava a dizer…
– Ok, abraço.
– Abraço e bom trabalho.

Governo não sabe como é aberta a Conta Poupança Futuro anunciada em campanha pelo Primeiro-Ministro

Ou o (E)estado esquizofrénico a que chegou o País

A 17 de Fevereiro alguém foi pai, pela quarta vez. Deveria ser considerado um benemérito nacional, pelo facto de estar a contribuir activamente para resolver um dos maiores problemas do país: o preocupante envelhecimento da população. A montante, estou a dar um contributo fundamental para resolver outro problema: o da sustentabilidade da Segurança Social a médio e longo prazo. Todos fizessem como esse cidadão, e dentro de 20 ou 30 anos não estaríamos a penar com cortes radicais nas nossas reformas. Contudo, o tratamento que o Estado lhe dá e à mulher, é tratar-los como um número irrelevante, ou uma mera peça, para não dizer que os trata como cães.
Juro que ouvi, há meses, o dito Primeiro-Ministro anunciar, como Secretário-Geral (ou “grande-chefe” ou lá o que é) do PS, que abriria uma conta com 200 euros a todas as crianças que nascessem e que estaria disponível daqui a… 18 anos (!!!!!!!).
A medida é tão absurda e inútil que a mantive no domínio do delírio eleitoral que o senhor costuma apresentar normalmente. Afinal, porque haveria alguém que prometeu 150 mil postos de trabalho e terminou o mandato com o maior desemprego da história, cumprir esta estúpida e mesmo insultuosa promessa eleitoral que consiste, afinal, em emprestar 25 milhões de euros à banca todos os anos?
A verdade é que, mesmo parecendo absurdo, a 1 de Fevereiro de 2010, o Governo aprovou a chamada “conta poupança futuro”. Veio nos jornais, nas rádios (oiça aqui a tsf) e nos habituais meios de propaganda política do Governo.
No portal do Governo foi colocada esta história, com FAQ’s e tudo, onde se explica tudo… ou melhor quase tudo. Há uma pergunta que não está lá e nem é respondida por ninguém: “O QUE TENHO QUE FAZER PARA QUE O MEU FILHO POSSA USUFRUIR, DAQUI A 18 ANOS, DE 200 EUROS?”
A pergunta não está nem ninguém aos balcões da Segurança Social ou Finanças sabe respondê-la. Como não soube responder a funcionária do balcão “Nascer Cidadão”, onde foi resgistada a criança no próprio dia do seu nascimento.

Mais espantoso ainda: ninguém no Governo sabe responder. Senão vejamos.

Em meados de Março a mãe visitou o portal do Governo para tentar saber e ficou na mesma. Enviou então um e-mail (governo@portugal.gov.pt) para o Governo, colocando a questão. Dias depois, recebeu uma resposta com o seguinte teor:

Acusamos a recepção da sua mensagem e informamos que foi reenviada para o Gabinete do Senhor Ministro das Finanças.
Com os melhores cumprimentos,
Relações Públicas e Apoio ao Conselho de Ministros
Secretaria-Geral
Presidência do Conselho de Ministros

A 24 de Março, recebeu novo e-mail, com o seguinte teor:

Exmo(a) Senhor(a)
Chefe do Gabinete
Encarrega-me a Senhora Chefe do Gabinete de S.E. o Ministro de Estado e das Finanças de junto enviar, para os devidos efeitos, o e-mail recebido neste Gabinete uma vez que se trata de matéria das competências dessa Secretaria de Estado.
Com os melhores cumprimentos,
XXXXXXXXXXX
Secretária
Gabinete do Ministro de Estado e das Finanças
Av. Infante D. Henrique, nº 1- 1149-009 Lisboa



E a 1 de Abril, recebeu este:

----- Email encaminhado de ….@mf.gov.pt -----
Data: Mon, 29 Mar 2010 15:57:41 +0100
De: XXXXXX<….@mf.gov.pt> Responder Para: Arlete Lurdes Vassalo <….@mf.gov.pt>
Assunto: E-mail de xxxxx - Conta Poupança Futuro
Para: …. @xxx.pt
Conhecimento do envio do e-mail de 22/3/10, ao Secretário de Estado da Presidência do conselho de Ministros.
Com os melhores cumprimentos.
Assistente Técnica
XXXXXXXX
----- Fim do email encaminhado -----

Este último e-mail trazia anexo a digitalização de um ofício em papel (clique na imagem para ampliar), despachado e riscado pelo chefe de gabinete do Secretário de Estado do Tesouro e das Finanças, e enviado ao Secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros.

Ou seja, deu a volta e, após despachos e conhecimentos, passou da Presidência do Conselho de Ministros para o Ministério das Finanças, do Ministério das Finanças para a Secretaria de Estado do Tesouro e, desta, regressou à Presidência do Conselho de Ministro.

A 8 de Abril, a mulher e pai (e o filho que por sorte ainda não tem consciência de ter nascido num país esquizofrénico) nada mais sabem sobre o assunto. Nem o Governo, aliás. Aparentemente, todo o Governo!

Entretanto, e não menos importante, pediram ambos o subsídio parental usando os novos instrumentos de licença partilhada. A aquilo que hoje vos posso dizer é que, a 8 de Abril de 2010 ainda não receberam qualquer subsídio. Segundo as informações prestadas pela Segurança Social ao balcão, os pagamentos são feitos ao dia 7, mas os processos demoram cerca de um mês a serem despachados. Embora no caso tenha já passado mais de um mês e o processo se encontre despachado favoravelmente, “ainda não houve ordem de pagamento”, pelo que apenas deverão receber a 7 de Maio.

Resumindo: o incentivo à natalidade que o Governo de Portugal dá aos portugueses é ANUNCIAR que dá (mas não sabe como) 200 euros daqui a 18 anos à criança. Quanto à compensação da Segurança Social pela licença da mãe e do pai, para um bebé que nasce a 17 de Fevereiro, haverá pagamento a 7 de Maio (esperamos!!). Entretanto, a mãe recebeu apenas metade do vencimento de Fevereiro, não recebeu Abril, não vai receber Maio, e quanto ao pai, recebeu nestes dois meses menos 20 dias de vencimento, ou seja, menos 2/3 do seu ordenado.

Pergunto, quantas famílias portugueses podem ficar, no momento do nascimento de um filho, sem ordenado da mãe durante dois meses e sem dois terços de um vencimento do pai durante um mês?

É claro que serão pagos os valores em falta no futuro. Mas, entretanto, a família subitamente aumentada, vive de quê. Precisamente na altura em que mais necessita de apoio e de dinheiro para fazer face aos custos elevados que acarreta um bebé, o nosso Estado deixa-nos sem ordenado e sem subsídios?

Quantos dramas familiares silenciosos não haverá em Portugal, enquanto o senhor Primeiro-Ministro brinca às promessas eleitorais e às “contas poupança futuro”, completamente alheado da realidade e do país?

NOTA: os e-mails pessoais e os nomes foram retirados para protecção da privacidade.

Consumidores vs criadores: umas leituras

(Ainda a história do Jornalismo Cidadão)

Bem-vindos à Era Digital!

Neste momento todos nós, malta que anda pela net e interage entre si, tens uns blogues e outras tantas contas em redes sociais, podemos criar conteúdos e passar da esfera de meros consumidores para a não menos fashion esfera dos criadores.

Lembram-se do meu primeiro post neste espaço? Ora pois bem, não mudei de ideias e ainda continuo defensora da diferença entre estes novos conteúdos criados e partilhados pelos novos actores da prática informativa, e que estão desfasados de consciência profissional.

Entretanto andei a ler umas coisas: Press Think, Jay Rosen

The people formerly known as the audience are those who were on the receiving end of a media system that ran one way, in a broadcasting pattern, with high entry fees and a few firms competing to speak very loudly while the rest of the population listened in isolation from one another— and who today are not in a situation like that at all.

A esfera está a mudar. E o que outrora era chamado de audiência, hoje em dia é o nosso público, o tal que denominei por querer intervir e ser auscultado. Que quer fazer parte da construção da realidade noticiosa e colaborar com opiniões, ideias, fotos in loco, etc.

O desenvolvimento tecnológico criou ferramentas. Ferramentas poderosas que dão a este público uma boa desculpa para ‘meter mãos à obra’ e iniciar uma bricolage sem precedentes.

Howard Owens, jornalista do The Batavian, N.Y, lança novas achas para esta fogueira, as quais reporto de seguida:

I love the idea that stories are no longer static. We no longer live an era when an article is discussed with an editor, researched with an eye toward "the official record," written with great seriousness, edited with great thoroughness, and committed to paper as an inviolate document (at least, that's the newspaper journalistic ideal).

Now, the savvy Web journalist can take what he knows, publish immediately, correct on the fly, collect input from readers (might be a comment, a phone call, an e-mail, a Tweet, etc.), link to a responding blog post, write an update, and let the story breathe its own life, whether that life might be minutes or days.

And, of course, any member of the "people formerly known as the audience" can start from scratch themselves, any place, any time and for their own purposes.

E remata:

This approach leads, or should, I believe, to better informed citizens, and I hope, to greater civic engagement.

Opiniões já sabem: na caxinha de comentários e o buzz do costume nas redes.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Jornalista Rui Avelar absolvido

O Tribunal de Coimbra absolveu hoje o jornalista Rui Avelar do crime de violação do segredo de justiça no caso do vereador Luís Vilar.

O ex-director da agência Lusa foi acusado por ter noticiado a constituição como arguido do então vereador Luís Vilar.

Na leitura da sentença, a juíza considerou que não se provou que o arguido tivesse acedido de forma ilegítima ao processo, que ainda se encontrava em fase de inquérito e sujeito a segredo de justiça, também não se tendo provado que aquele fora a sua única fonte de informação.

Jornalistas de Sofá com Lusa

Uma grande marca a apostar nas redes sociais

A Renault Portugal entrou há poucas semanas nas redes sociais, criando uma página de Facebook que angariou já mais de três mil fãs. A marca francesa é agora uma das que mais fãs têm em Portugal no sector automóvel representado na web. Também o Twitter passou a ser um instrumento de divulgação da marcar em Portugal. A actividade dos fãs na página do Facebook da Renault Portugal tem sido enorme e até surpreendente, com muitos comentários, fotos e mensagens o que vem demonstrar não apenas o interesse desta forma de comunicação como também a enorme popularidade da Renault. Esta experiência vem reforçar a ideia de que é hoje impossível ignorar o papel que as redes sociais desempenham no reforço da imagem de marca dos grandes construtores mundiais.

Será bullying? E notícia, é?

Um aluno do meu sogro colocou-lhe, à frente dos pés, no recreio, um guarda-chuva. O meu sogro caiu e partiu com gravidade um braço. A minha questão é a seguinte: se a minha sogra chamar as televisões e fizer uma choradeira à porta da escola, aquilo que foi uma brincadeira de uma criança bem comportada e agora arrependida, passa a ser bullying? E que escrutínio e critério terão os jornalistas ao colocar no ar a notícia? A choradeira que a minha sogra poderia fazer - não fosse, como é, pessoa bem formada - torna-la-ía numa fonte suficientemente credível para ser ouvida pela imprensa? Os factos do incidente ter acontecido, das consequências terem sido graves e da "notícia poder ser confirmada com um relatório médico" são suficientes para que possa "haver notícia"? Deixo à vossa consideração - os comentários são bem-vindos, aconselhando-se a leitura deste post, também.

7 de Abril é dia do Jornalista, no Brasil

O twitter é uma rede viral e face instantânea do que se fala e acontece na nossa realidade noticiosa. Ainda a momentos apercebi-me, através do meu amigo e colega Pedro Jerónimo, que hoje se celebra o dia do Jornalista. Num 'retweet' vindo do Ricardo Batista e da conta Os Jornalistas, espalhou-se no twitter PT a notícia de tal efeméride.

Depois de uma rápida pesquisa no nossa internet 'sabe tudo', reparei que a data só se celebra mesmo no país irmão, sem grandes honras. A interacção não se fez esperar e, vindo do Brasil, o Haryson Alves deu a sua opinião: "Feriado aqui temos de montão, mas no nosso dia jamais! Entretanto, aparentemente, não há nenhuma festa. Os jornalistas se dão parabéns e muitos na sociedade nem têm conhecimento", refere o jornalista brasileiro.

Fica aqui um 'apanhado' de curiosidades que o Pedro Jerónimo partilhou entretanto.

E, em tom de festa, mesmo sendo só no Brasil, deixo os meus parabéns ao não menos conhecido jornalista José Manuel Fernandes. Um feliz aniversário, abraço!

--------------- post actualizado às 12h49 -------------------

A cabeça do Pedro Jerónimo não pára. Mais umas dicas sobre isto:

@pjeronimo
'Roubando' a ideia do @PauloQuerido de sugerir grupos no Facebook, que tal um do género 'Queremos o Dia do Jornalista em Portugal'?

Engraçado: ver último tuite ;) RT @RickBatista: @pjeronimo E com o acordo ortográfico e país irmão e assim, não se arranja nada para cá? :))


Sobre isto do #journalistday ser só no Brasil (ou no 'país irmão', como diz @vanessaquiterio)... q tal passar a Dia do Jornalista Lusófono?

“Manual de boas práticas” para o uso de social media

A agência noticiosa Reuters divulga, no seu site, um manual de boas práticas para a investigação jornalística e utilização de social media.



O manual veicula normas de conduta em fóruns online, chatrooms e regras de uso de enciclopédias online, oferecendo ainda instruções, bem como recomendações para a utilização de serviços como o Facebook e o Twitter.

terça-feira, 6 de abril de 2010

A informação é como um novelo de lã

Dando seguimento ao meu post sobre o 'Jornalismo Cidadão e seus derivados', lembrei-me de um artigo do Alexandre Gamela, ainda no seu The Lake, acerca da informação e do que a constitui nos dias de hoje.

A informação é tida como um novelo de lã. Já não é somente a camisola no seu estado total e uno, mas sim um emaranhado de fios desse novelo, que cada um, da sua maneira, vai construindo. Esse "cada um", jornalista ou mero cidadão curioso, constrói um mundo de informação ao sabor do que necessita e obtêm da realidade informativa.

Já não temos a notícia ou qualquer outro género jornalístico como um elemento isolado. Agora, uma notícia é tudo o que a reporta exteriormente. Os comentários dos leitores, os links a outros assuntos ou sites, as infografias que as explicam melhor.

Reporto estas afirmações em análise ao texto do Alexandre Gamela, no The Lake, e ao texto de Jeff Jarvis, datado de trinta de Setembro de 2008 no Buzzy Machine.

É sem dúvida uma metáfora bem conseguida... Analisem os textos referidos e, como já sabem, deixem as vossas opiniões na caixa de comentários.