sexta-feira, 9 de abril de 2010

Jornalistas: da teoria, à prática

Este primeiro post (já agora, agradeço o convite) vai ser telegráfico. Parte de uma citação do jornalista José Manuel Fernandes, na sua crónica, no Público, ‘tuitada’ esta manhã:

“Não há jornalismo de qualidade sem recursos dedicados e profissionais a tempo inteiro”.
Concordo plenamente. Da mesma forma que o faço em relação ao (que parece) ex-jornalista Rui Marques (via Buzz):

“Concordo com essa frase de José Manuel Fernandes em parte. Porque quando um jornal como o Público, do qual ele foi Director durante anos, recorre a estágios não remunerados, e evita integrar, nos seus quadros, os seus jornalistas, acaba por desmoralizá-los, prejudicando a qualidade do seu trabalho.

Não é por acaso que muita gente sai do Jornalismo – como é o meu caso – e procura outras vias profissionais. O Jornalismo de qualidade implica também, e sobretudo, uma valorização económica e laboral do jornalista – que não existe actualmente, e que cria uma desmotivação permanente e uma falta de autonomia gritante.

Os Jornalistas são recursos humanos altamente qualificados e como tal têm de ser tratados. Não como meros prestadores de serviços ocasionais – como acontece hoje em dia”.

Termino, com um video. Falamos depois…

quinta-feira, 8 de abril de 2010

CONVERSA TELEFÓNICA VERÍDICA ENTRE UM JORNALISTA DE TV E UM ASSESSOR DE IMPRENSA

– Estás bom? Podias hoje levar o teu chefe ao (xxxx) para fazermos um directo às (XXXX) horas para abrir o noticiário.
– Directo? Porquê? Hoje não vai acontecer lá nada!
– Mas faz anos que aconteceu o (xxxx) e queríamos fazer lá uma peça.
– Compreendo! Mas não está lá ninguém nem vai lá acontecer nada hoje, porquê um directo?
– Eu sei que não está lá ninguém nem acontece lá nada hoje, por isso queria que lá levasses o teu “chefe” para fazermos reportagem. Assim entrevistávamo-lo lá.
– Olha lá: mas se esse até é um assunto negativo para o meu “chefe” porque razão o hei-de lá levar? Quanto menos se falar disso, para mim, melhor.
– Mas nós vamos falar, já sabes, faz anos...
– Compreendo. Mas se queres falar com ele sobre o assunto eu até posso propor-lhe, para o entrevistares aqui no gabinete dele, agora na rua à porta do (xxxx) onde não está a acontecer nada, nem pensar.
– Ir aí falar com ele não interessa. O que interessa é recordar que faz anos que aconteceu o (xxxx) e fazer directo à porta do (xxxx), nem que seja na rua a ver-se o portão.
– Ok. Tu é que sabes. Mas não contes com a minha colaboração para isso.
– Então fazemos o directo sem ninguém, só com o jornalista a recordar o assunto. É logo a abrir.
– Ainda pensei que me estavas a ligar por causa da inauguração do (xxxxx), isso é que é importante, vai servir milhares de pessoas, mandei o convite mas vocês ainda não confirmaram.
– Mas isso não nos interessa. Isso é regional.
– Pronto, tu é que sabes, só estava a dizer…
– Ok, abraço.
– Abraço e bom trabalho.

Governo não sabe como é aberta a Conta Poupança Futuro anunciada em campanha pelo Primeiro-Ministro

Ou o (E)estado esquizofrénico a que chegou o País

A 17 de Fevereiro alguém foi pai, pela quarta vez. Deveria ser considerado um benemérito nacional, pelo facto de estar a contribuir activamente para resolver um dos maiores problemas do país: o preocupante envelhecimento da população. A montante, estou a dar um contributo fundamental para resolver outro problema: o da sustentabilidade da Segurança Social a médio e longo prazo. Todos fizessem como esse cidadão, e dentro de 20 ou 30 anos não estaríamos a penar com cortes radicais nas nossas reformas. Contudo, o tratamento que o Estado lhe dá e à mulher, é tratar-los como um número irrelevante, ou uma mera peça, para não dizer que os trata como cães.
Juro que ouvi, há meses, o dito Primeiro-Ministro anunciar, como Secretário-Geral (ou “grande-chefe” ou lá o que é) do PS, que abriria uma conta com 200 euros a todas as crianças que nascessem e que estaria disponível daqui a… 18 anos (!!!!!!!).
A medida é tão absurda e inútil que a mantive no domínio do delírio eleitoral que o senhor costuma apresentar normalmente. Afinal, porque haveria alguém que prometeu 150 mil postos de trabalho e terminou o mandato com o maior desemprego da história, cumprir esta estúpida e mesmo insultuosa promessa eleitoral que consiste, afinal, em emprestar 25 milhões de euros à banca todos os anos?
A verdade é que, mesmo parecendo absurdo, a 1 de Fevereiro de 2010, o Governo aprovou a chamada “conta poupança futuro”. Veio nos jornais, nas rádios (oiça aqui a tsf) e nos habituais meios de propaganda política do Governo.
No portal do Governo foi colocada esta história, com FAQ’s e tudo, onde se explica tudo… ou melhor quase tudo. Há uma pergunta que não está lá e nem é respondida por ninguém: “O QUE TENHO QUE FAZER PARA QUE O MEU FILHO POSSA USUFRUIR, DAQUI A 18 ANOS, DE 200 EUROS?”
A pergunta não está nem ninguém aos balcões da Segurança Social ou Finanças sabe respondê-la. Como não soube responder a funcionária do balcão “Nascer Cidadão”, onde foi resgistada a criança no próprio dia do seu nascimento.

Mais espantoso ainda: ninguém no Governo sabe responder. Senão vejamos.

Em meados de Março a mãe visitou o portal do Governo para tentar saber e ficou na mesma. Enviou então um e-mail (governo@portugal.gov.pt) para o Governo, colocando a questão. Dias depois, recebeu uma resposta com o seguinte teor:

Acusamos a recepção da sua mensagem e informamos que foi reenviada para o Gabinete do Senhor Ministro das Finanças.
Com os melhores cumprimentos,
Relações Públicas e Apoio ao Conselho de Ministros
Secretaria-Geral
Presidência do Conselho de Ministros

A 24 de Março, recebeu novo e-mail, com o seguinte teor:

Exmo(a) Senhor(a)
Chefe do Gabinete
Encarrega-me a Senhora Chefe do Gabinete de S.E. o Ministro de Estado e das Finanças de junto enviar, para os devidos efeitos, o e-mail recebido neste Gabinete uma vez que se trata de matéria das competências dessa Secretaria de Estado.
Com os melhores cumprimentos,
XXXXXXXXXXX
Secretária
Gabinete do Ministro de Estado e das Finanças
Av. Infante D. Henrique, nº 1- 1149-009 Lisboa



E a 1 de Abril, recebeu este:

----- Email encaminhado de ….@mf.gov.pt -----
Data: Mon, 29 Mar 2010 15:57:41 +0100
De: XXXXXX<….@mf.gov.pt> Responder Para: Arlete Lurdes Vassalo <….@mf.gov.pt>
Assunto: E-mail de xxxxx - Conta Poupança Futuro
Para: …. @xxx.pt
Conhecimento do envio do e-mail de 22/3/10, ao Secretário de Estado da Presidência do conselho de Ministros.
Com os melhores cumprimentos.
Assistente Técnica
XXXXXXXX
----- Fim do email encaminhado -----

Este último e-mail trazia anexo a digitalização de um ofício em papel (clique na imagem para ampliar), despachado e riscado pelo chefe de gabinete do Secretário de Estado do Tesouro e das Finanças, e enviado ao Secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros.

Ou seja, deu a volta e, após despachos e conhecimentos, passou da Presidência do Conselho de Ministros para o Ministério das Finanças, do Ministério das Finanças para a Secretaria de Estado do Tesouro e, desta, regressou à Presidência do Conselho de Ministro.

A 8 de Abril, a mulher e pai (e o filho que por sorte ainda não tem consciência de ter nascido num país esquizofrénico) nada mais sabem sobre o assunto. Nem o Governo, aliás. Aparentemente, todo o Governo!

Entretanto, e não menos importante, pediram ambos o subsídio parental usando os novos instrumentos de licença partilhada. A aquilo que hoje vos posso dizer é que, a 8 de Abril de 2010 ainda não receberam qualquer subsídio. Segundo as informações prestadas pela Segurança Social ao balcão, os pagamentos são feitos ao dia 7, mas os processos demoram cerca de um mês a serem despachados. Embora no caso tenha já passado mais de um mês e o processo se encontre despachado favoravelmente, “ainda não houve ordem de pagamento”, pelo que apenas deverão receber a 7 de Maio.

Resumindo: o incentivo à natalidade que o Governo de Portugal dá aos portugueses é ANUNCIAR que dá (mas não sabe como) 200 euros daqui a 18 anos à criança. Quanto à compensação da Segurança Social pela licença da mãe e do pai, para um bebé que nasce a 17 de Fevereiro, haverá pagamento a 7 de Maio (esperamos!!). Entretanto, a mãe recebeu apenas metade do vencimento de Fevereiro, não recebeu Abril, não vai receber Maio, e quanto ao pai, recebeu nestes dois meses menos 20 dias de vencimento, ou seja, menos 2/3 do seu ordenado.

Pergunto, quantas famílias portugueses podem ficar, no momento do nascimento de um filho, sem ordenado da mãe durante dois meses e sem dois terços de um vencimento do pai durante um mês?

É claro que serão pagos os valores em falta no futuro. Mas, entretanto, a família subitamente aumentada, vive de quê. Precisamente na altura em que mais necessita de apoio e de dinheiro para fazer face aos custos elevados que acarreta um bebé, o nosso Estado deixa-nos sem ordenado e sem subsídios?

Quantos dramas familiares silenciosos não haverá em Portugal, enquanto o senhor Primeiro-Ministro brinca às promessas eleitorais e às “contas poupança futuro”, completamente alheado da realidade e do país?

NOTA: os e-mails pessoais e os nomes foram retirados para protecção da privacidade.

Consumidores vs criadores: umas leituras

(Ainda a história do Jornalismo Cidadão)

Bem-vindos à Era Digital!

Neste momento todos nós, malta que anda pela net e interage entre si, tens uns blogues e outras tantas contas em redes sociais, podemos criar conteúdos e passar da esfera de meros consumidores para a não menos fashion esfera dos criadores.

Lembram-se do meu primeiro post neste espaço? Ora pois bem, não mudei de ideias e ainda continuo defensora da diferença entre estes novos conteúdos criados e partilhados pelos novos actores da prática informativa, e que estão desfasados de consciência profissional.

Entretanto andei a ler umas coisas: Press Think, Jay Rosen

The people formerly known as the audience are those who were on the receiving end of a media system that ran one way, in a broadcasting pattern, with high entry fees and a few firms competing to speak very loudly while the rest of the population listened in isolation from one another— and who today are not in a situation like that at all.

A esfera está a mudar. E o que outrora era chamado de audiência, hoje em dia é o nosso público, o tal que denominei por querer intervir e ser auscultado. Que quer fazer parte da construção da realidade noticiosa e colaborar com opiniões, ideias, fotos in loco, etc.

O desenvolvimento tecnológico criou ferramentas. Ferramentas poderosas que dão a este público uma boa desculpa para ‘meter mãos à obra’ e iniciar uma bricolage sem precedentes.

Howard Owens, jornalista do The Batavian, N.Y, lança novas achas para esta fogueira, as quais reporto de seguida:

I love the idea that stories are no longer static. We no longer live an era when an article is discussed with an editor, researched with an eye toward "the official record," written with great seriousness, edited with great thoroughness, and committed to paper as an inviolate document (at least, that's the newspaper journalistic ideal).

Now, the savvy Web journalist can take what he knows, publish immediately, correct on the fly, collect input from readers (might be a comment, a phone call, an e-mail, a Tweet, etc.), link to a responding blog post, write an update, and let the story breathe its own life, whether that life might be minutes or days.

And, of course, any member of the "people formerly known as the audience" can start from scratch themselves, any place, any time and for their own purposes.

E remata:

This approach leads, or should, I believe, to better informed citizens, and I hope, to greater civic engagement.

Opiniões já sabem: na caxinha de comentários e o buzz do costume nas redes.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Jornalista Rui Avelar absolvido

O Tribunal de Coimbra absolveu hoje o jornalista Rui Avelar do crime de violação do segredo de justiça no caso do vereador Luís Vilar.

O ex-director da agência Lusa foi acusado por ter noticiado a constituição como arguido do então vereador Luís Vilar.

Na leitura da sentença, a juíza considerou que não se provou que o arguido tivesse acedido de forma ilegítima ao processo, que ainda se encontrava em fase de inquérito e sujeito a segredo de justiça, também não se tendo provado que aquele fora a sua única fonte de informação.

Jornalistas de Sofá com Lusa

Uma grande marca a apostar nas redes sociais

A Renault Portugal entrou há poucas semanas nas redes sociais, criando uma página de Facebook que angariou já mais de três mil fãs. A marca francesa é agora uma das que mais fãs têm em Portugal no sector automóvel representado na web. Também o Twitter passou a ser um instrumento de divulgação da marcar em Portugal. A actividade dos fãs na página do Facebook da Renault Portugal tem sido enorme e até surpreendente, com muitos comentários, fotos e mensagens o que vem demonstrar não apenas o interesse desta forma de comunicação como também a enorme popularidade da Renault. Esta experiência vem reforçar a ideia de que é hoje impossível ignorar o papel que as redes sociais desempenham no reforço da imagem de marca dos grandes construtores mundiais.

Será bullying? E notícia, é?

Um aluno do meu sogro colocou-lhe, à frente dos pés, no recreio, um guarda-chuva. O meu sogro caiu e partiu com gravidade um braço. A minha questão é a seguinte: se a minha sogra chamar as televisões e fizer uma choradeira à porta da escola, aquilo que foi uma brincadeira de uma criança bem comportada e agora arrependida, passa a ser bullying? E que escrutínio e critério terão os jornalistas ao colocar no ar a notícia? A choradeira que a minha sogra poderia fazer - não fosse, como é, pessoa bem formada - torna-la-ía numa fonte suficientemente credível para ser ouvida pela imprensa? Os factos do incidente ter acontecido, das consequências terem sido graves e da "notícia poder ser confirmada com um relatório médico" são suficientes para que possa "haver notícia"? Deixo à vossa consideração - os comentários são bem-vindos, aconselhando-se a leitura deste post, também.

7 de Abril é dia do Jornalista, no Brasil

O twitter é uma rede viral e face instantânea do que se fala e acontece na nossa realidade noticiosa. Ainda a momentos apercebi-me, através do meu amigo e colega Pedro Jerónimo, que hoje se celebra o dia do Jornalista. Num 'retweet' vindo do Ricardo Batista e da conta Os Jornalistas, espalhou-se no twitter PT a notícia de tal efeméride.

Depois de uma rápida pesquisa no nossa internet 'sabe tudo', reparei que a data só se celebra mesmo no país irmão, sem grandes honras. A interacção não se fez esperar e, vindo do Brasil, o Haryson Alves deu a sua opinião: "Feriado aqui temos de montão, mas no nosso dia jamais! Entretanto, aparentemente, não há nenhuma festa. Os jornalistas se dão parabéns e muitos na sociedade nem têm conhecimento", refere o jornalista brasileiro.

Fica aqui um 'apanhado' de curiosidades que o Pedro Jerónimo partilhou entretanto.

E, em tom de festa, mesmo sendo só no Brasil, deixo os meus parabéns ao não menos conhecido jornalista José Manuel Fernandes. Um feliz aniversário, abraço!

--------------- post actualizado às 12h49 -------------------

A cabeça do Pedro Jerónimo não pára. Mais umas dicas sobre isto:

@pjeronimo
'Roubando' a ideia do @PauloQuerido de sugerir grupos no Facebook, que tal um do género 'Queremos o Dia do Jornalista em Portugal'?

Engraçado: ver último tuite ;) RT @RickBatista: @pjeronimo E com o acordo ortográfico e país irmão e assim, não se arranja nada para cá? :))


Sobre isto do #journalistday ser só no Brasil (ou no 'país irmão', como diz @vanessaquiterio)... q tal passar a Dia do Jornalista Lusófono?

“Manual de boas práticas” para o uso de social media

A agência noticiosa Reuters divulga, no seu site, um manual de boas práticas para a investigação jornalística e utilização de social media.



O manual veicula normas de conduta em fóruns online, chatrooms e regras de uso de enciclopédias online, oferecendo ainda instruções, bem como recomendações para a utilização de serviços como o Facebook e o Twitter.

terça-feira, 6 de abril de 2010

A informação é como um novelo de lã

Dando seguimento ao meu post sobre o 'Jornalismo Cidadão e seus derivados', lembrei-me de um artigo do Alexandre Gamela, ainda no seu The Lake, acerca da informação e do que a constitui nos dias de hoje.

A informação é tida como um novelo de lã. Já não é somente a camisola no seu estado total e uno, mas sim um emaranhado de fios desse novelo, que cada um, da sua maneira, vai construindo. Esse "cada um", jornalista ou mero cidadão curioso, constrói um mundo de informação ao sabor do que necessita e obtêm da realidade informativa.

Já não temos a notícia ou qualquer outro género jornalístico como um elemento isolado. Agora, uma notícia é tudo o que a reporta exteriormente. Os comentários dos leitores, os links a outros assuntos ou sites, as infografias que as explicam melhor.

Reporto estas afirmações em análise ao texto do Alexandre Gamela, no The Lake, e ao texto de Jeff Jarvis, datado de trinta de Setembro de 2008 no Buzzy Machine.

É sem dúvida uma metáfora bem conseguida... Analisem os textos referidos e, como já sabem, deixem as vossas opiniões na caixa de comentários.

O bullying praticado pela imprensa

O primeiro relatório feito pela Inspecção Regional de Educação parece não confirmar que a morte de uma criança que alegadamente se suicidou tenha qualquer coisa a ver com agressões de que seria alvo – alegadamente - por parte de colegas de escola. Aliás, o inquérito nem sequer apurou que tenham existido agressões. Aliás, para esta conversa, nem interessa. O que interessa é que neste país, com o altíssimo patrocínio da comunicação social e até da classe política – insensível e absurdamente irresponsável – valores como os da presunção da inocência e os do respeito pela vida humana são muito pouco considerados. Basta um familiar apontar o dedo, basta um ignorante dizer que vai processar fulano e a notícia está feita. O que ontem era um anónimo desconhecido para os jornalistas, transforma-se em fonte, capaz de conduzir a notícia.
Sem subterfúgios ou meias palavras, o digo: quando José Sócrates é alvo de qualquer acusação, mesmo que criminalmente pouco relevante ou não provada, logo aparecem coros de virgens ofendidas clamando e invocando direitos constitucionais, como os da presunção da inocência, segredo de Justiça ou direito à privacidade. Mesmo que o que esteja em causa sejam comportamentos políticos lastimáveis e mesmo que as suspeitas resultem já não apenas de alegações jornalísticas ou de seus inimigos políticos, mas já de processos judiciais, iniciados por magistrados judiciais e confirmados por juízes.
Contudo, este legalismo que nos impede de questionar sequer o que é politicamente relevante e resulta, não de qualquer presunção de culpa, mas dos factos conhecidos e não desmentidos, não se aplica ao vulgar cidadão. Esse, que deveria estar especialmente protegido da exposição pública e da culpa não formada, é muitas vezes sumariamente acusado, julgado, condenado e, mesmo sem factos minimamente consistentes, ou apenas com uma denúncia de uma fonte incógnita ou sem credibilidade conhecida, transforma-se no odioso nacional.
É claro que, passada a euforia informativa do caso, jornalistas, políticos, fazedores de opinião e irresponsáveis em geral, viram as costas e esquecem a criancinha ou o velhinho a quem julgam ter dado os seus 15 minutos de fama. Para trás fica normalmente um rasto de destruição, relações arruinadas e algumas vidas irremediavelmente despedaçadas, agora abandonadas pelo mediatismo e, por isso, de novo votadas ao sofrimento incógnito.
Não sei se o relatório da Inspecção Regional de Educação está bem feito. Nem sequer sei o que diz ao certo. Não sei o que se passou naquele dia em que uma criança caiu, foi atirada ou se atirou ao rio. Sei, com toda a certeza uma coisa: desde que li a primeira notícia sobre o caso que tenho pensado e muito nas consequências para a vida dos seus jovens colegas. Penso nos que eventualmente o terão alguma vez agredido, nos que não o terão nunca agredido e nos que, um dia, lhe deram um encontrão ou apontaram o dedo no recreio.
Penso se não terão todas aquelas pequenas almas pelo menos os mesmos direitos e mais alguns do que o Primeiro-Ministro. Almas que, ao contrário do nosso chefe de Governo, não são figuras públicas, não se puseram a jeito da imprensa e, mesmo que um dia venham a ser dados como culpados da morte de um colega – acusação gravíssima, violentíssima e, honestamente, muito pouco plausível com aquilo que sabemos – têm direito a serem tratados como seres humanos e até à sua privacidade. O anátema que sobre si cai, os pesadelos que terão tido até hoje e, se calhar, terão até aos últimos dias das suas vidas, já nenhum de nós lhos tira.
Sejam ou não culpados de alguma coisa, tenham ou não, alguma vez, chamado um nome feio ao colega no recreio, são seres humanos brutal e insensivelmente violentados. Para eles, ao contrário do que acontece para a classe política, nem sequer é válida aquela máxima que há anos adia reformas estruturas na Justiça e no combate à corrupção, que diz que “não se pode legislar em cima de casos concretos…”

Tropas dos EUA a atirar sobre jornalista da Reuters

O site Wikileaks, especializado na divulgação de informação classificada dos EUA, mostra hoje tropas americanas no Iraque a disparar sobre um carro onde estava um jornalista da Reuters.



O vídeo, a preto e branco, mostra um helicóptero Apache a atacar um grupo de 11 iraquianos, onde estava também um jornalista da Reuters e o seu motorista.

O ataque ocorreu no dia 12 de Julho de 2007, na capital iraquiana (Bagdade). Na altura, o Exército americano explicou que os militares responderam a um ataque de "uma força hostil". Porém, não há evidências de que os iraquianos tenham disparado qualquer tiro.

A Reuters tentou obter na época do acidente as gravações, mas sem sucesso.

Segundo a Reuters e a Associated Press, que citam fontes do Governo norte-americano, o vídeo é autêntico.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Ainda o "jornalismo cidadão", o caos informativo e a visão de Michael Schudson

Li com grande interesse o post que a Vanessa Quitério escreveu aqui há poucos dias sobre o “jornalismo cidadão”, bem como os comentários que gerou e o post do João Monge sobre a reportagem da Rita Colaço na RTP. Num dos comentários ao primeiro, afirmava-se que não existe “jornalismo cidadão”. No fundo, consigo concordar e entender muito bem o excelente texto da Vanessa, como entendo também muito bem o referido comentário. E atrevo-me a resumir ambos numa frase: “jornalismo é jornalismo”.
Sempre rejeitei a ideia de que havia vários tipos de jornalismo e mesmo que existisse bom e mau jornalismo. Na verdade, aquilo a que muitos chamam o mau jornalismo, não é sequer jornalismo, pois não existe entre os textos ou peças em causa qualquer comprometimento com a verdade, com o rigor e com o interesse público que caracterizam o jornalismo e, no fundo, a notícia. Nesse sentido, o tal “jornalismo cidadão” não existe, porquanto não é possível garantir a presença desses ingredientes fundamentais, ainda que pontualmente ou sempre, possam até existir.
Dito de outra forma, podemos aceitar que um curandeiro ou “endireita” nos resolva melhor certo tipo problema de saúde, mas dificilmente poderemos catalogar a sua actividade como sendo medicina. Não se confundam estas minhas palavras com qualquer fundamentalismo. Ou seja, de princípio, nada tenho contra quem escreve nos blogs - tanto mais que estou entre esses - e não me custa a aceitar que a informação de alguns blogs seja, afinal, muito relevante e credível. Não aceitar esta actividade como legítima e saudável, seria não aceitar os mais elementares princípios da liberdade de expressão. E não aceitar o seu valor informativo, seria imprudente.
O problema parece, por isso, resumir-se à rotulagem da actividade de “bloggers” como eu ou como a Vanessa Quitério, sejam eles portadores de formação ou carteira profissional ou não. Melhor dizendo, o problema do "jornalismo de sofá" reside na sua certificação. Só que a questão da rotulagem ou certificação não é uma questão menor e chamar “jornalismo” – ainda que acrescentando o termo “cidadão” – pode ser perigoso. E é por isso que a Vanessa, o promotor deste blog e todos os que quiserem meditar e debater este assunto, como estamos aqui a fazer, prestam um relevante serviço.
Há uns tempos, ouvi uma excelente entrevista ao sociólogo e historiador do jornalismo Michael Schudson, onde este faz uma extraordinária reflexão acerca do jornalismo de hoje, face ao jornalismo de antigamente. Um dos problemas que este autor norte-americano identifica está, precisamente, na incapacidade das novas gerações para distinguirem os vários níveis de informação. Nomeadamente, a informação que resulta de “talk-shows” e a que resulta de noticiários. Diz este sociólogo sobre o assunto, que as mais recentes gerações não conseguem sequer distinguir entre a informação veiculada em crónica de opinião e a informação jornalística e noticiosa.
As explicações de Michael Schudson para este fenómeno são várias. A principal das quais tem a ver com a profusão de meios e veículos de comunicação que existem hoje, com o excesso de fontes e com a necessidade permanente de gerar “notícia”. Os portais de notícias, blogs, redes sociais, rádios de informação e TV’s de informação que hoje existem no éter e no cabo, obrigam-se a um ritmo informativo tão frenético que, a dada altura, não existe informação realmente relevante (a notícia) para abrir o noticiário ou para colocar em manchete. Assim, mesmo aquilo que não deveria ser notícia (ou se quisermos, aquilo que realmente não é notícia), acaba por ser destaque em jornais, sites, blogs e noticiários. Diz o autor que, em rigor, quando não houvesse notícia, os jornais deveriam assumi-lo, escrevendo: “hoje não aconteceu nada de especial”.
O ritmo informativo dos nossos dias acaba por ser maior do que o ritmo do Mundo e da nossa própria mente e, a dada altura, o "fait-divers" ou a "não notícia" salta para a primeira página, com grande facilidade, simplesmente, por não haver verdadeiro notícia para lá colocar.
Se fizermos uma busca de determinado assunto no Google, que hoje é barómetros de biliões – e também dos jornalistas, como há dias aqui escrevi no meu post de abertura deste blog – o resultado é apresentado não pela ordem de credibilidade, de sustentação deontológica ou de rigor, mas pela ordem do interesse do público e do número de “cliques” que o link já gerou. A informação difundida pelo “jornalista cidadão”, às vezes anónimo e não escrutinável, pode aparecer-nos à frente da “verdade jornalística”, sedimentada e sustentada em formação, legislação e deontologia. E o pior é que as duas concorrem sem valoração do meio que as difunde.
Por tudo isso, não me preocupa tanto que todos nós assumamos o papel do “denunciador”, do “informador”, da “fonte” e do “opinador”. Mas chamarmos-lhe “jornalismo” apenas pode contribuir para fomentar a confusão que hoje está instalada na consciência colectiva acerca do que é, realmente notícia. Confusão que não afecta apenas o receptor, mas que provoca danos no emissor. Se os blogs estão a ficar cada vez mais parecidos com órgãos de informação jornalística, a verdade é que também os jornais, portais e noticiários estão cada vez mais parecidos com blogs, no melhor – eventualmente – e no pior – certamente!
Diz Michael Schudson que a profusão de meios não melhora a nossa capacidade de pesquisa da informação: “quanto mais sítios tivermos para procurar, mais difícil será encontrarmos o que realmente queremos e o que realmente interessa” e diz também que "não há informação suficiente para alimentar as manchetes dos portais de informação, que mudam minuto a minuto".
O quadro traçado por Schudson está correcto, em minha opinião. Aquilo que aparentemente poderia significar mais acesso à informação e mais diversidade, acaba por aumentar a entropia e afunilar a informação para os temas que vendem, confundindo-os com os que realmente possuem conteúdo informativo de interesse público.
Se deveremos deixar de escrever posts como os nossos em blogs como este? Claro que não. Mas à medida que aumenta a entropia para a qual contribuo alegremente neste blog, no twitter e no facebook, deveria aumentar o rigor das chefias dos ditos órgãos de informação jornalística na escolha da informação, da manchete, da primeira página e distinguir-se claramente o jornalismo do resto que aqui fazemos... "open source" ou não!
Contudo, não é o que acontece. Hoje, na ânsia de vender papel, um “alegadamente, a fonte terá alegado” ou um “possivelmente poderá ter acontecido”, são manchete e atiram para as primeiras páginas notícias cor-de-rosa ou simplesmente negras que, além do mais, estão a matar o jornalismo e, pelo caminho, às vezes destroem vidas.

Oiça aqui a entrevista a Michael Schudson

Pope Covering Up Abuse


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Deus como fonte de inspiração de ditaduras

Uso provocatoriamentre a expressão: oiço religiosamente o "Pessoal e Transmissível da TSF". Sem favor, considero Carlos Vaz Marques o melhor jornalista português a entrevistar, sem desprimor para muitos outros. A 24 de Março, sua entrevista foi a Christopher Hitchens, escritor que afirma: "As religiões são escolas de submissão e a ideia de Deus é a fonte de inspiração de todos os ditadores" . Uma entrevista que vale a pena ouvir, na sequência de um post que escrevi por estes dias.

Oiça aqui